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Fundador da Ben & Jerry’s denuncia Unilever, que cancelou sabor pró-Palestina

Ben Cohen foi a público denunciar que a multinacional cometeu um "ataque corporativo à liberdade de expressão" ao interromper um lançamento de um sabor de sorvete que apoiaria a paz na região de Gaza

Roberto de Lira Agências de notícias

Ben & Jerry's (Foto: Divulgação)
Ben & Jerry's (Foto: Divulgação)

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Mais um capítulo na disputa no campo de valores e propósitos entre os fundadores da marca de sorvetes Ben & Jerry’s e a gigante Unilever, que comprou a empresa em 2000. O cofundador Ben Cohen foi a público denunciar que a multinacional cometeu um “ataque corporativo à liberdade de expressão” ao interromper um lançamento de um sabor de sorvete que apoiaria a paz na região de Gaza,

Há cerca de um mês, Jerry Greenfield, o outro cofundador da Ben & Jerry’s, anunciou que estava deixando a empresa de sorvetes que criou em 1978, explicando que a liberdade da marca para se posicionar em questões sociais vinha sendo sufocada pela controladora Unilever.

Desta vez, Cohen alegou que o novo sabor havia sido aprovado pelo conselho independente da Ben & Jerry’s e discutido pela primeira vez há cerca de um ano. Mas a Magnum, braço de sorvetes do grupo Unilever, anunciou que não iria seguir com o plano.

Cohen, que criou recentemente a campanha “Free Bem & Jerry’s” para incentivar a Unilever a vender a marca a algum grupo de investidores de mentalidade social, foi nesta terça-feira (28) ao Instagram para dizer que Unilever e a Magnum impediram a marca de criar um sabor para a Palestina, então ele decidiu por conta própria criar essa variedade, convidando o público a contribuir com a receita, como um desafio.

“Eu tenho uma melancia e um pote vazio de sorvete — preciso da sua ajuda. Comente ideias sobre quais ingredientes você gostaria de ver nesse sabor, e sugestões para o nome dele.
É uma pessoa criativa? Envie um design para a embalagem do pote”, explicou.

“Devemos continuar usando nossa voz quando a Ben & Jerry’s não pode — para garantir paz, justiça e dignidade na Palestina”, defendeu.

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Valores sociais

A Ben & Jerry’s sempre se posicionou como uma fabricante de sorvetes superpremium pioneira, com uma missão de três partes focada em valores sociais que seriam incorporados ao negócio.

“A empresa com sede em Vermont busca a prosperidade vinculada a esses valores, o que levou a muitas novidades, incluindo um compromisso significativo em 2010 de obter ingredientes e apoiar o movimento global de Comércio Justo. Isso levou ao fornecimento de bananas, café, cacau, açúcar e baunilha ‘fairtrade’ em todos os seus negócios globalmente”, diz o site da marca

Nessa declaração de propósitos, o “comércio justo” defendido pela empresa significa que os agricultores devem obter um preço justo pelos produtos que fabricam, o que ajuda a combater as causas profundas da injustiça social – a pobreza em particular – nas cadeias de suprimentos.

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A marca tem um histórico de criar sabores com proposta ativista, casos do “Save Our Swirled”, durante as reuniões sobre o clima em 2025, em Paris. Depois, vieram o “I Dough, I Dough”, que celebrou a legalização em nível federal do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos EUA. A empresa também criou o “Home Sweet Honeycomb”, em apoio ao reassentamento de refugiados na Europa.

Sobre a relação com o conflito entre israelenses e palestinos, a marca anunciou no passado que não iria mais vender seus sorvetes nos território ocupados, embora continuasse a manter a presença em Israel.

A explicação oficial da marcar foi que, por ser uma empresa orientada por valores com uma longa história de defesa dos direitos humanos e da justiça econômica e social, era “inconsistente com nossos valores que nosso produto esteja presente em uma ocupação ilegal reconhecida internacionalmente”.

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Sobre as acusações de antissemitismo que a empresa enfrentou após essa decisão, a explicação oficial foi que a Bem & Jerry’s repudiava todas as formas de ódio e racismo. “Falar e agir de acordo com nossos valores não é anti-Israel nem antissemita”, disse a declaração da empresa.

Em artigo publicado no The New York Times, os cofundadores disseram que  “a decisão declarada da empresa de alinhar mais plenamente suas operações com seus valores não é uma rejeição a Israel. É uma rejeição da política israelense, que perpetua uma ocupação ilegal que é uma barreira à paz e viola os direitos humanos básicos do povo palestino que vive sob a ocupação.”

“Como apoiadores judeus do Estado de Israel, rejeitamos fundamentalmente a noção de que é antissemita questionar as políticas do Estado de Israel”, concluíram.

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História da marca

A história da Ben & Jerry’s começou há mais de 45 anos, quando os dois amigos da escola – com uma antipatia mútua por aulas de ginástica e um curso por correspondência de US$ 5 para fazer sorvete na Penn State, abriram sua primeira Scoop Shop em um posto de gasolina reformado em Burlington, Vermont.

Em 1986, Ben e Jerry abriram sua primeira fábrica em Waterbury, Vermont. No final da década de 1980, eles já possuíam mais de 80 Scoop Shops em 18 estados dos EUA. Foi em 1988 que os amigos decidiram expor suas crenças por escrito, criando a declaração de missão em três partes pela qual a empresa ainda vive hoje.

Na década seguinte, a Ben & Jerry’s tornou-se global, surgindo no Reino Unido em 1994, depois na Irlanda em 2000, seguida de perto pelo resto da Europa, Austrália, Nova Zelândia e Ásia. A empresa foi adquirida pela Unilever em 2000, o que permitiu que o sorvete Ben & Jerry’s chegasse a 42 países.