Publicidade
As pequenas e médias empresas seguem como a espinha dorsal da economia brasileira, somando aproximadamente 26,2 milhões de empresas ativas em março de 2026, das quais 24,6 milhões eram pequenos negócios, o equivalente a quase 94% do total. Mas apesar disso, elas continuam enfrentando um ambiente econômico hostil, marcado por crédito seletivo, juros elevados e dificuldades financeiras. O resultado é que empresas e sócios principais já acumulam R$ 80,6 bilhões em dívidas, como mostra a 7ª edição do Panorama PME elaborado pela Serasa Experian.
O cenário só não é mais crítico, de acordo com o levantamento, porque essas empresas endividadas representam apenas 5,5% das empresas analisadas. Em abril deste ano, houve uma desaceleração no ritmo de crescimento da inadimplência em relação ao fim de 2025, mas o cenário preocupa.
Do montante total de dívidas, R$ 40,3 bilhões estão em empresas com atrasos simultâneos no cartão de crédito e no capital de giro; R$ 25,3 bilhões correspondem a dívidas exclusivamente em cartão de crédito, e R$ 15 bilhões estão relacionados apenas ao capital de giro.
O levantamento também evidencia uma forte ligação entre a saúde financeira das empresas e a situação de seus proprietários. “Embora representem uma parcela relativamente pequena das PMEs analisadas, os casos em que empresa e sócio principal estão simultaneamente inadimplentes concentram volumes expressivos de dívidas. Os resultados reforçam que a saúde financeira do negócio e a do empreendedor caminham juntas e podem se influenciar mutuamente ao longo do tempo”, afirma Cleber Genero, vice-presidente de Pequenas e Médias Empresas da Serasa Experian.
Leia também: O emprego no Brasil tem dono: o pequeno negócio
Empresas maduras
Ao contrário da percepção de que os maiores riscos financeiros estariam concentrados em empresas recém-criadas, o estudo mostra que os maiores volumes de crédito contratado e de inadimplência pertencem a negócios mais maduros.
Empresas com 10 a 20 anos de atividade acumulam R$ 26,7 bilhões em crédito tomado e R$ 11,6 bilhões em atrasos nas modalidades de cartão de crédito e capital de giro. Entre aquelas com cinco a dez anos de mercado, os valores chegam a R$ 26,1 bilhões em crédito e R$ 13,5 bilhões em pendências.
Já os negócios com um a cinco anos de existência, embora representem a maior parcela dos casos analisados (38,6%), concentram R$ 16,3 bilhões em crédito tomado e R$ 9,7 bilhões em atrasos, indicando que as maiores exposições financeiras estão justamente entre empresas já consolidadas.
Comércio lidera
A análise por setor também revela diferenças importantes. Embora Serviços concentre a maior quantidade de empresas e sócios simultaneamente inadimplentes, respondendo por 48,8% das ocorrências, é o Comércio que reúne o maior volume financeiro.
Continua depois da publicidade
O segmento acumula R$ 35,3 bilhões em crédito tomado e R$ 16,1 bilhões em atrasos, considerando conjuntamente cartão de crédito e capital de giro. Já o setor de Serviços soma R$ 31,5 bilhões em crédito contratado e R$ 16 bilhões em pendências financeiras. Juntos, os dois setores concentram a maior parte da exposição ao crédito e dos valores em atraso observados entre empresas e seus sócios.
“Os resultados reforçam que as finanças do empreendedor e da empresa caminham lado a lado. Observar conjuntamente a exposição ao crédito e os volumes em atraso permite uma compreensão mais ampla dos desafios financeiros enfrentados pelas PMEs”, conclui Genero.
Leia Mais: A “revolução” que pode destravar R$ 11 trilhões em crédito para empresas
Continua depois da publicidade
Gestão financeira é estratégica
Para Kecy Ceccato, sócia-fundadora do ATRA Advogados, parte das dificuldades enfrentadas pelas pequenas e médias empresas decorre não apenas do cenário econômico, mas também da ausência de uma gestão financeira estruturada.
“Muitos empresários ainda olham para o faturamento como principal indicador de sucesso. Mas o que realmente importa é o resultado final e a geração de caixa. Não adianta faturar centenas de milhões se a operação não gera liquidez suficiente para sustentar o crescimento”, afirma. Na avaliação da especialista, práticas de governança, compliance e planejamento financeiro deixaram de ser diferenciais e passaram a ser condições para a sobrevivência das empresas.
Para ela, o empresário precisa conhecer profundamente seus números, seus contratos, seus riscos e sua estrutura de custos. “Hoje, gestão financeira, compliance e governança são fatores de sobrevivência, não apenas de crescimento.”
Continua depois da publicidade
Ceccato alerta ainda que a Reforma Tributária deverá aumentar a pressão sobre empresas de serviços e outros negócios intensivos em mão de obra, exigindo uma revisão antecipada de contratos, processos e estruturas operacionais. “A capacidade de adaptação será determinante. O empreendedor não pode mais atuar apenas como alguém que vende produtos ou serviços. Ele precisa assumir também o papel de gestor do negócio, acompanhando permanentemente indicadores, riscos e oportunidades.”
Para os especialistas, o Panorama PME evidencia que o desafio das pequenas e médias empresas deixou de ser apenas vender mais. Em um ambiente de crédito mais restritivo e custos elevados, preservar liquidez, administrar riscos e separar as finanças pessoais das empresariais tornou-se condição essencial para manter a competitividade e garantir a continuidade dos negócios.