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Um roteiro de negociação para Bolsonaro com os "chantagistas" caminhoneiros

Se o Governo quiser de fato defender os interesses da Sociedade como um todo, deve lidar com os caminhoneiros do mesmo modo que se negocia com sequestradores. Há teoria para isso, e eu proponho um roteiro

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

greve caminhoneiros
(Shutterstock)

Publiquei aqui no InfoMoney um texto no qual relatei que os caminhoneiros, além dos empresários e sindicalistas do setor de transporte rodoviário, estão cobrando sua fatura de apoio eleitoral ao Governo Bolsonaro, valendo-se da velha “Política da Dentadura” – veja aqui

A “dentadura”, no caso, seria tabelamento de fretes, redução de tributos sobre combustíveis e óleo diesel subsidiado pela Petrobras. Também nesse texto expliquei que dentaduras eleitorais são sempre pagas pelo Governo – ou seja, por toda a Sociedade – usando o mecanismo de “roubar de Pedro para pagar Paulo”.

Nesse caso dos caminhoneiros, está fazendo o papel de Pedro (aquele que é roubado) toda a Sociedade; e fazem o papel de Paulo os caminhoneiros e seus cúmplices (todos aqueles que serão os receptadores do roubo).

Em tempos de crise, as possibilidades de roubo do Governo andam muito limitadas. Os cofres públicos estão vazios, o Governo está altamente endividado e a Sociedade não está em condições de doar mais dinheiro ao Estado a fundo perdido, porque já paga tributos equivalentes a 36% de tudo o que produz anualmente.

Neste cenário, cabe o paralelo didático com um sequestro, porque os caminhoneiros somente conseguirão o que querem mediante chantagem. Nesse cenário de violência, vamos organizar essas informações para colocar sob a luz do Sol os personagens e os interesses envolvidos:

- os sequestradores são os caminhoneiros e os empresários e sindicalistas do setor de transporte rodoviário;

- o resgate pedido é o tabelamento de fretes, a redução de tributos sobre combustíveis e óleo diesel subsidiado (pela Petrobrás ou pelo Governo diretamente);

- o negociador é o Ministro-Chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, sendo que o seu inovador canal oficial de negociação é o Whatsapp;

- o chantageado é o Presidente Jair Bolsonaro, que administra os cofres públicos do Governo Federal, e que também está em condições de interferir na Petrobrás com uma canetada ou telefone;

- a Sociedade toda é, ao mesmo tempo, refém e pagadora do resgate, pois é ela quem está ameaçada pelos caminhoneiros com o desabastecimento e com a paralisação da Economia.

Os caminhoneiros, inclusive, nem mais escondem o caráter chantagista de suas ações. Estão agora dizendo abertamente que não querem “esmola”, pois até agora somente receberam promessas de ninharias. O que reforça nossa impressão de que eles querem mesmo é um gordo “resgate”, sob pena de sacrificarem seu refém (a Sociedade, no caso; eu e você leitor, por exemplo).

O Presidente já percebeu, depois de ouvir a equipe econômica, que não será possível pagar um gordo resgate, ao mesmo tempo em que acredita não ser prudente pagar uma esmola, pois isso poderia acabar numa temida greve. Daí ter prometido financiamento de caminhões via BNDES, Cartão-Caminhoneiro, Tabelamento de Fretes, dentaduras que poderão superar R$ 2 bilhões.

O argumento da greve usado pelo chantageado e pelo negociador é falacioso. Bolsonaro quer mesmo é pagar a prometida dentadura para os sequestradores, para preservar seu eleitorado, como expliquei no texto anterior. E Lorenzoni quer aumentar seu poder de influência dentro do Governo, perpetuando sua condição de “negociador oficial e permanente” de um uma greve que vai pairar, por culpa do Governo, sobre todo o mandato de Jair Bolsonaro.

Se o Governo quiser de fato defender os interesses da Sociedade como um todo, deve lidar com os caminhoneiros do mesmo modo que se negocia com sequestradores. Há teoria para isso, e eu proponho um roteiro:

Em primeiro lugar, na fase afetiva, o negociador deve ouvir todos os choros possíveis, responder todas as mensagens de Whatsapp, demonstrar preocupação sincera e empatia com os sequestradores. Nesse momento, ele conseguirá medir a força dos chantagistas e mapear seus personagens, os territórios de ação e os meios disponíveis de violência.

Num segundo momento, o negociador deverá convencer os sequestradores que a entrega do resgate é impossível, porque as contas públicas estão abaladas e também porque o refém (a Sociedade com um todo) está igualmente passando por dificuldades. Aí, ele deverá dizer o óbvio: não há demanda para fretes, há superoferta de fretes. Nesse cenário, os caminhoneiros deverão vender seus caminhões e eventualmente fazerem outra coisa da sua vida – como milhões de brasileiros estão fazendo, aliás.

No terceiro momento, o negociador deverá pressionar os caminhoneiros a se desmobilizarem e a pararem de desmoralizar publicamente o Governo, com essas ameaças de violência que vêm praticando pela imprensa. Até porque o pagamento do resgate é impossível.

Encerrada a fase de negociação, o Governo deve se preparar para o confronto com os sequestradores que não abrirem mão do uso da violência. Esses agentes deverão ser monitorados pela Polícia Federal e reprimidos, caso não interrompam suas agressões contra a Sociedade, e tratados com mais energia, se incidirem na Lei de Segurança Nacional, com ameaça de desabastecimento de alimentos e remédios, por exemplo.

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Se o Governo prosseguir na sua “articulação” com os caminhoneiros, ceder e entregar qualquer dentadura que seja, mesmo que uma simples ponte dentária, continuará sendo chantageado até o final do mandato presidencial. E não é a teoria econômica ou política quem diz isso: é a psicologia do crime.

Alexandre Pacheco é Professor, Palestrante e Consultor de Direito Empresarial e Tributário.

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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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Alexandre Pacheco

Professor de Direito Empresarial e Tributário da FGV/SP, da FIA e do Mackenzie, Doutor em Direito pela PUC/SP e Consultor Empresarial em São Paulo.

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