“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, diz Lula na ONU

Presidente critica interferência externa em eleições, cobra reforma do Conselho de Segurança e rejeita presença militar estrangeira para combater o crime organizado

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU com uma defesa enfática da soberania brasileira e críticas à interferência estrangeira em processos eleitorais.

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A menos de duas semanas do primeiro turno no Brasil, o presidente afirmou que o país não aceitará ser tratado como área de influência de outras potências.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse Lula, durante o discurso em Nova York. Sem mencionar Donald Trump nominalmente, o presidente criticou o que chamou de recrudescimento de “tentações hegemônicas” na América Latina e no Caribe e rejeitou interferências externas em eleições.

“Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças da comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo. […] Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos”, destacou o presidente.

A mensagem está diretamente ligada às tensões recentes entre Brasília e Washington. Lula tem afirmado nas últimas semanas que os Estados Unidos não devem participar da disputa presidencial brasileira, ao mesmo tempo em que seu governo mantém abertas negociações comerciais com a administração Trump.

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Na véspera do discurso, a expectativa em Brasília já era de que soberania, combate ao crime organizado e ingerência estrangeira estivessem entre os principais temas levados à ONU.

“Não precisamos de porta-aviões”

Lula também usou o tema da segurança pública para delimitar até onde considera aceitável a cooperação internacional. Ao falar sobre organizações criminosas, afirmou que o Brasil não pretende transferir para outros países a responsabilidade sobre suas fronteiras e rejeitou soluções baseadas em presença militar estrangeira.

“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, disse.

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Na sequência, afirmou que o país precisa de cooperação para bloquear o fluxo de armas e dinheiro destinado ao crime organizado, e não de “porta-aviões vigiando nossas águas”.

A fala dialoga com uma discussão que já vinha ocupando as relações entre Lula e Trump. O governo brasileiro tenta ampliar a cooperação contra organizações criminosas, mas sustenta que a condução das operações em território nacional cabe às autoridades brasileiras.

“Por muito tempo, os Estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação. Mas isso está mudando. Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil. Batemos regras de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos.”, acrescentou.

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Lula afirmou que trabalhadores, famílias e policiais sofrem diretamente os efeitos da violência e disse que o país está preparado para enfrentar as organizações criminosas.

Conselho de Segurança sob ataque

A primeira parte do pronunciamento foi dedicada principalmente à crise do sistema multilateral. Lula afirmou que as Nações Unidas atravessam seu momento mais crítico desde que ele discursou pela primeira vez na organização, em 2003, e responsabilizou a paralisia do Conselho de Segurança pela incapacidade de conter os conflitos atuais.

“Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre seu papel”, afirmou.

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O presidente voltou a questionar o direito de veto dos cinco membros permanentes — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido —, tema recorrente na política externa brasileira. Em 2024, Lula já havia defendido uma reforma ampla do Conselho, com mudanças na composição, nos métodos de trabalho e no próprio funcionamento do veto.

Nesta terça-feira, Lula classificou o modelo como um dos problemas de origem da organização e afirmou que os países com maior poder de decisão deveriam agir com mais responsabilidade diante do número crescente de guerras.

“As concessões à lei do mais forte já passaram dos limites”, disse.

Segundo Lula, 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, enquanto a expansão dos gastos militares aumenta o risco de confrontos regionais adquirirem escala global.

“A guerra é a falência total da política”, afirmou.

Recado eleitoral sem citar Trump

A parte mais diretamente relacionada ao cenário brasileiro apareceu quando Lula tratou da democracia e das relações entre os países latino-americanos.

O presidente relembrou a ditadura militar, a redemocratização e as tentativas recentes de ruptura institucional no Brasil. Em seguida, afirmou que a democracia voltou a enfrentar ameaças e citou a interferência externa em processos eleitorais.

A declaração ocorre em um momento no qual Lula vem aproximando sua campanha presidencial do discurso de soberania. Nos últimos dias, ele afirmou publicamente que pretende impedir qualquer tentativa estrangeira de influenciar a escolha dos brasileiros.

Esse movimento também estabelece uma diferença política em relação a Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do presidente nas pesquisas, cuja família mantém interlocução com integrantes do governo Trump.

Lula evitou citar diretamente o presidente americano no discurso, preservando espaço para o diálogo bilateral. A relação entre os dois países combina disputas comerciais e críticas políticas com negociações abertas para reduzir as tensões.

Décima abertura da Assembleia

Esta foi a décima participação de Lula na abertura do debate geral da ONU. Desde 1955, o Brasil tradicionalmente faz o primeiro pronunciamento entre os Estados-membros no debate geral. Os Estados Unidos falam logo depois.

Neste ano, a proximidade dos discursos voltou a colocar Lula e Trump no mesmo ambiente em um momento de tensão bilateral e de campanha eleitoral no Brasil.

A frase escolhida por Lula para sintetizar sua posição foi dirigida a esse contexto mais amplo: diante da disputa entre grandes potências e da proximidade da eleição brasileira, o país, segundo ele, deve optar pela soberania diante de qualquer tentativa de subordinação.

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Marina Verenicz
Política | Brasil | Mundo