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A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público realizaram nesta quinta-feira (17) uma nova fase da operação que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo da capital paulista.
Um dos alvos é o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), que ficou 27 anos no Legislativo da cidade. Os agentes saíram às ruas para cumprir um total de 16 mandados de prisão e outros 18 de busca e apreensão.
Leite é alvo de um pedido de prisão e não foi encontrado em sua casa na região de Interlagos, na zona sul da cidade de São Paulo. A princípio, ele foi considerado foragido pela Polícia. Nas primeiras horas da manhã, no entanto, ele se comunicou com agentes públicos, informou que estaria fora da cidade, em viagem, e que se apresentaria nas próximas 24 horas.
— Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações — declarou o ex-vereador.
De acordo com informações obtidas durante a ação, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha.

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A terceira fase da Operação Vectura Corrupta mira o controle financeiro e operacional do PCC sobre 12 empresas de ônibus com indícios de fraudes sistemáticas em licitações. Segundo a investigação, as 12 empresas seriam controladas direta ou indiretamente pela facção. São elas: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.
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Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e atual candidato a deputado estadual. Ao todo, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
A investigação aponta que decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite. Segundo os investigadores, a conclusão é sustentada pela análise de interceptações envolvendo operadores e por elementos de outras investigações relacionadas ao papel decisório do ex-vereador.
No pedido que embasou a operação, Milton Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento também menciona declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff.
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“Ex-vereador, (Milton Leite) é citado nominalmente por diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC. Somado a isso há declarações de policiais militares, em procedimento junto ao Tribunal de Justiça Militar, que o mesmo seria o dono de fato da empresa Transwolf”, afirma o juiz Sérgio Ribas, da 8ª Câmara de Direito Criminal. O caso está em segredo de Justiça.
Um dos políticos mais influentes da política paulistana, Milton Leite deixou cargos eletivos no ano passado, após sete mandatos como vereador. Ele presidiu a Câmara em quatro oportunidades. O político atualmente preside o União Brasil em São Paulo e o diretório estadual da Federação União Progressista (UP), que reúne o partido e o Progressistas (PP).
A operação também investiga a chamada “Sintonia dos Gravatas”, núcleo formado por advogados que, segundo a polícia, atuaria diretamente em benefício da organização criminosa, ultrapassando os limites do exercício profissional. Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu.
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O principal investigado apontado nesta fase é José Daniel Satilite, conhecido como Alemão. A Polícia Civil afirma que ele integra o PCC e funcionaria como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da facção.
Entre os presos está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans. Segundo os investigadores, apesar de Levi não aparecer como interlocutor direto de José Daniel Satilite, os dois teriam mantido encontros periódicos.
A investigação afirma que essas reuniões tinham como finalidade tratar de interesses da facção relacionados a empresas de transporte, especialmente após a deflagração da Operação Fim da Linha pelo Ministério Público de São Paulo, em 2024.
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Danilo Marco Morgado Silva disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e era candidato a deputado estadual, mas teve o registro cassado. Ele também foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Decurio. Segundo a Polícia Civil, a nova etapa identificou um “forte vínculo” dele com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha à prefeitura teria sido financiada pela organização criminosa.
De acordo com a apuração, a facção criminosa teria criado um chamado “núcleo político”, destinado a acessar recursos públicos e ampliar seus negócios. Entre as estratégias identificadas estariam o apoio e o financiamento de candidaturas alinhadas aos interesses da organização.
Na Operação Decurio, deflagrada em agosto de 2024, foram apreendidos dispositivos eletrônicos que, após análise, “revelaram um esquema sofisticado de movimentação financeira ilícita”. A partir dos dados coletados e de relatórios de inteligência financeira, os investigadores identificaram uma estrutura voltada não apenas ao tráfico de drogas, mas também à lavagem de dinheiro.
Toda a apuração teve início em agosto de 2024, com a Operação Decurio. Após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba, os investigadores extraíram dados do celular da mulher de um dos líderes da facção. As informações levaram à identificação e prisão de integrantes da chamada “Sintonia Final” e à descoberta de uma fintech que, segundo a investigação, chegou a movimentar cerca de R$ 8 bilhões.
Em abril de 2026, a Polícia Civil e o Ministério Público realizaram a Operação Contaminatio, focada na estrutura de uma fintech gerida pela facção. O objetivo do grupo seria usar a empresa de tecnologia financeira para se infiltrar em prefeituras e assumir o gerenciamento do recebimento de tributos, taxas e o contato direto com os moradores. Naquela etapa, a investigação desarticulou a rede de doleiros e operadores de criptoativos usada na lavagem de dinheiro e prendeu um ex-vereador de Santo André.
O GLOBO tenta contato com os citados na investigação, o espaço segue aberto.
Busca e apreensão itinerante
No despacho que determinou os mandados de busca e apreensão, o magistrado afirmou que as ações podem ser realizadas de forma itinerante, ou seja, podem ocorrer não apenas nos endereços anexados aos documentos.
“Excepcionalmente, diante da natureza da investigação e da possibilidade de alteração de endereço pelos investigados como propósito de frustrar as diligências, defiro também o cumprimento itinerante dos mandados de busca e apreensão, exclusivamente em relação aos 13 investigados acima nominados e do investigado Wellington Andrade dos Santos. A diligência itinerante deverá permanecer vinculada à pessoa do investigado e aos objetos e elementos probatórios relacionados aos fatos apurados, não podendo assumir caráter genérico ou indiscriminado. Eventual cumprimento em endereço diverso daquele inicialmente indicado deverá ser devidamente justificado pela Autoridade Policial, devendo a diligência observar os princípios da necessidade, adequação e proporcionalidade, vedadas apreensões desvinculadas do objeto da investigação”, disse o juiz, no despacho.
Prefeitura diz ter agido contra empresas
A Prefeitura de São Paulo afirmou que a intervenção determinada na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, segundo a administração, também foi determinada, por iniciativa própria, uma intervenção na UPBus, mesmo sem solicitação da Justiça.
A Prefeitura afirma ainda que, na ocasião, abriu um processo pela Controladoria Geral do Município contra a Transwolff e a UPBus e que, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil nas investigações.
Em nota, a administração municipal afirmou que a operação realizada nesta quinta-feira reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. Disse também que colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo documentos e esclarecimentos necessários à investigação.