Com juro de dois dígitos, multimercados fecham as portas e migram para bancos

Com Selic acima de 10% pelo quarto ano seguido e cinco anos consecutivos de resgates, gestoras independentes - como a Gávea, de Armínio Fraga - encerram fundos e negociam venda para bancões

Publicidade

Arminio Fraga, um dos gestores de fundos multimercado mais famosos do Brasil, anunciou no início deste mês que estava transferindo a gestão de seus fundos para o quarto maior banco do país. As taxas de juros de dois dígitos geram retornos tão elevados atualmente que fica difícil atrair clientes o suficiente para manter aberto um fundo como o dele, admitiu.

Ao vender esses fundos para a gestora de recursos do Bradesco, Arminio — discípulo de George Soros e ex-presidente do Banco Central — evidenciou uma tendência que vem ganhando força recentemente no Brasil: gestores de fundos multimercado, especialmente aqueles que fazem grandes apostas macroeconômicas, estão fechando suas empresas independentes e, em muitos casos, buscando bancos para contratar suas equipes e assumir a gestão de seus fundos.

“Estamos passando por um momento cíclico ruim para os multimercados, com juros extremamente altos e uma concorrência muito forte de produtos que têm vantagens tributárias”, disse Fraga, que abriu a Gávea Investimentos no Rio de Janeiro há duas décadas, em entrevista. “Os multimercados em geral não têm ido bem recentemente.”

A Itaú Asset Management, braço do maior banco do país, contratou no mês passado Luiz Eduardo Portella, um dos fundadores da Novus Capital, para montar uma estrutura de pods de investimento em multimercados. A gestora também informou em junho que incorporaria a Solana Capital, especializada em renda variável, e trouxe no início deste ano Eduardo Zilberman, ex-SPX Capital, para chefiar a área de pesquisa econômica.

Tudo isso compõe uma reversão marcante do êxodo iniciado há cerca de uma década, quando dezenas de gestores deixaram os grandes bancos brasileiros para abrir ou entrar em novas gestoras de multimercados e de ações. Naquele período, o país cortava sua taxa básica notoriamente alta, que chegou ao piso histórico de 2% durante a pandemia, o que forçou a comunidade de investidores local a buscar alternativas aos retornos fáceis que obtinha havia anos apenas comprando títulos públicos. Gestoras recém-criadas, prometendo retornos elevados com ações locais, juros futuros, crédito privado e mercados externos, preencheram boa parte desse espaço.

“Abrir uma gestora costumava ser ‘três amigos e um Terminal'”, afirmou Guilherme Zaczac, responsável por alternativos líquidos no Brasil do UBS Global Wealth Management, em São Paulo. “Mas não é assim que esse negócio funciona. Precisa haver escrutínio, não deveria ser tão fácil montar uma gestora.”

A bonança durou pouco. Quando o Banco Central voltou a elevar os juros para o patamar de dois dígitos em 2022, para conter a inflação alimentada pela pandemia, os investidores passaram a fugir do risco e a privilegiar produtos de renda fixa.

Os multimercados sentiram o golpe, especialmente aqueles que não podiam contar com o apoio ou a base de clientes de um grande banco. Com o avanço de instrumentos mais baratos, como os ETFs, e com os juros travados acima de 10% pelo quarto ano consecutivo, a pressão só aumenta.

O patrimônio somado de sete das maiores gestoras independentes do país em suas estratégias macro locais caiu quase pela metade desde 2022, para cerca de R$ 89 bilhões (US$ 17 bilhões), segundo dados da Anbima, a associação do mercado de capitais. O número de fundos macro recuou aproximadamente 20% desde o pico de 2021, para 743 em julho.

Continua depois da publicidade

De forma mais ampla, a indústria de multimercados caminha para o quinto ano seguido de saída líquida de recursos, com resgates de R$ 672 bilhões desde 2022, mostram os dados.

Ao mesmo tempo, as gestoras ligadas às grandes instituições financeiras se mostraram mais resilientes. O patrimônio somado em fundos macro dessas casas quase dobrou desde 2019, para R$ 542 bilhões em junho, de acordo com dados compilados pela Bloomberg que acompanham as seis maiores gestoras.

“Essa solução é importante da perspectiva dos grandes bancos para atrair executivos que não conseguem construir um negócio sozinhos”, disse Pedro Rudge, diretor da Anbima e um dos fundadores da Leblon Equities, gestora sediada no Rio de Janeiro. Segundo ele, gestores que fazem parte de casas maiores não têm custos de back office ou de compliance e ainda mantêm autonomia para conduzir a estratégia do fundo.

Continua depois da publicidade

Além dos retornos fracos, que ficaram abaixo do CDI nos últimos anos, os multimercados também sofreram com a concorrência dos títulos corporativos isentos de imposto de renda, que atraíram tanto investidores institucionais quanto pessoas físicas.

No início deste ano, o cenário parecia melhorar para a indústria local. Investidores internacionais colocavam dinheiro na bolsa brasileira, e as apostas de que o Banco Central teria espaço para cortar juros deixaram muita gente otimista.

Então o choque do petróleo provocado pela guerra no Irã derrubou as apostas em cortes de juros no mundo todo e atingiu duramente os multimercados locais. Março foi o pior mês do setor desde 2020, segundo dados da Anbima.

Continua depois da publicidade

Os investidores agora esperam que o Banco Central mantenha a taxa básica acima de 13% pelo menos até o fim do ano que vem. Para Fraga, esses juros elevadíssimos revelam um problema bem maior para o país e, por consequência, para a indústria de multimercados, que é um governo tomando somas enormes no mercado de dívida local para financiar um déficit fiscal que explodiu nos últimos anos.

“Os sinais que vêm dessa frente não são meramente cíclicos”, disse Fraga, que foi convidado recentemente pelo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, para atuar como conselheiro externo. “O governo toma dinheiro emprestado e paga juros extremamente altos por prazos longos. Então o problema aqui é mais profundo e mais preocupante.”

©️2026 Bloomberg L.P.

Continua depois da publicidade