Títulos de longo prazo são armadilha ou o melhor investimento da próxima década?

Taxas oferecem retornos altos historicamente, mas não há consenso entre especialistas sobre sua real atratividade; veja o que investidor deve fazer

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Os juros oferecidos pelos títulos públicos de longo prazo no Brasil até caíram um pouco recentemente, mas seguem em níveis historicamente altos, com destaque para os 7,5% além da inflação oferecidos pelos papéis atrelados ao IPCA. Essas taxas vêm sendo pressionadas pela trajetória das contas públicas, mas também pelo exterior, com o nível também elevado do rendimento dos Treasuries.

Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos voltaram a avançar após a dívida pública americana cruzar os US$ 40 trilhões, e nem um sinal de intervenção no mercado ou um discurso mais duro do presidente do Federal Reserve foram capazes de mexer o ponteiro.

Diante desse ambiente, as taxas ofertadas na renda fixa de prazo mais longo estão mesmo atrativas ou podem ser uma armadilha?

Tesouro IPCA+ longo não é consenso

Os títulos de inflação estão atrativos e são aposta de diversos especialistas, mas não exatamente consenso.

Argumentos a favor

Para o estrategista de renda fixa Lucas Queiroz um exercício útil é imaginar um investidor que não precise mexer no dinheiro por uma década. “Se você dormir hoje e acordar em 10 anos, o melhor investimento terá sido o prefixado longo”, diz. 

Ele argumenta que o consenso de mercado projeta uma Selic de equilíbrio em torno de 10%, enquanto o prefixado longo paga hoje perto do nível atual da taxa, de 14%. “Entre o universo de renda fixa, certamente vai ser o melhor investimento”. 

O problema, reconhece, é o caminho até o rendimento, que deve ter alta volatilidade. Para quem quer o mesmo prêmio com menos sustos, ele destaca o Tesouro IPCA+ de prazo longo. “Você vai ganhar 7%, 8% acima da inflação, sendo que se você ficar no CDI durante esses 5, 10 anos, esse CDI vai te remunerar, na média, entre 5% e 6% acima da inflação.”

Argumentos contra

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Igor Campos, gestor de renda fixa da Armor Capital, olha para o mesmo juro real e chega a outra conclusão. A premissa dele é uma taxa neutra mais alta do que a de outros períodos – entre 6% e 6,5% –, à qual soma o grau de restrição que o Banco Central precisará manter para levar a inflação à meta de 3%. “Um grau de restrição em torno de 1% a 2% parece algo bem factível”, diz. Nessa conta, um juro real de 7,5% a 8% deixa de ser prêmio e vira quase o custo esperado da política monetária, ou seja, não renderia ganho de verdade.

“Quando eu vejo esse juro real esticando ali em torno de 8% não me parece um prêmio suficiente”, afirma. A tese é parecida com a da Verde Asset, que ainda não enxerga remuneração suficiente para pagar o risco de um descontrole maior na política fiscal.

Para Campos, o que está barato é a inflação implícita embutida na curva, “bastante elevada para o que seria a meta do Banco Central”, perto de 6%. Por isso prefere expressar a visão pelo juro nominal, o que, na prática, significa apostar ao mesmo tempo na queda da inflação implícita e do juro real, via derivativos.

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Então, o que fazer?

Uma forma de driblar parte das incertezas é escolher um meio-termo: papéis nem curtos nem longos. “Os vértices intermediários oferecem atualmente uma relação risco-retorno mais equilibrada”, diz Felipe Castello Branco, sócio e private banker da Blackbird Investimentos. “Eles permitem capturar taxas ainda elevadas sem assumir integralmente a volatilidade dos prazos mais longos”.

O problema dos mais longos é que o investidor não pode ter dúvidas: deve estar disposto a levar até o vencimento, o que significa não mexer na aplicação por 30 ou 35 anos – e atravessar a volatilidade de diversas eleições no meio do caminho. Para Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, num cenário de muito sobe e desce de preços de mercado no Brasil e nos EUA, a escolha mais segura continua sendo o atrelado ao CDI. “Os pós-fixados continuam sendo a opção de menor risco”, diz. Mas algum rendimento ficará na mesa.

Castello Branco pondera que “o CDI segue oferecendo uma remuneração bastante atrativa em termos históricos” e que “a decisão de migrar para ativos com maior risco deve considerar não apenas o potencial de retorno adicional, mas também os riscos assumidos”. 

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Igor Campos opera especificamente o vértice de cinco anos, o DI com vencimento em janeiro de 2031. “É onde a gente consegue fugir um pouco da discussão de política monetária de curto prazo, sobre até quanto o BC vai cortar nessa primeira etapa”.

Renda fixa em dólar

Como parte da pressão sobre a curva brasileira vem de fora – e do custo de se proteger do dólar –, a exposição cambial aparece nas recomendações como complemento à estratégia.

Castello Branco cita três caminhos:

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Já Queiroz diz que o prêmio maior está na nos títulos públicos americanos, os Treasuries. “Os spreads de crédito estão menores, tanto no Brasil quanto no exterior. Então, o prêmio a ser extraído está nos títulos soberanos”. Ele diz ter “maior preferência por títulos soberanos do que efetivamente crédito”, ainda que veja boas oportunidades pontuais nos dois instrumentos.

Rondinelli acrescenta que a diversificação ainda é importante para a carteira pensando no ciclo de IA, que vem pressionando a curva de juros dos EUA. Se o investimento em inteligência artificial desacelerar, o juro longo americano tende a fechar e favorecer a marcação dos títulos de inflação brasileiros. No entanto, se isso vier com aversão a risco, “o dólar e o risco brasileiro podem subir, limitando esse ganho”.

Sinal amarelo no crédito

No cenário de juros mais altos no futuro, o crédito privado aparece como um dos mercados que sofrem impactos negativos e, portanto, demandam cautela. Para Castello Branco, utilities e parte da infraestrutura tendem a sofrer menos, enquanto varejo e bens discricionários “exigem maior cautela, pois são mais sensíveis ao custo do crédito e à renda das famílias”.

O crédito privado brasileiro já vem chamando atenção negativamente com pedidos de recuperação judicial e extrajudicial de grandes empresas como Casas Bahia, GPA e Braskem. 

Queiroz lembra que o problema só não é maior porque muitas companhias aproveitaram a demanda por renda fixa dos últimos dois anos para alongar passivos e não precisarem acessar o mercado neste ano. “A gente ainda está num cenário em que muitas dessas empresas conseguem compensar uma despesa financeira mais alta com um operacional melhor”, diz. “Num cenário de possível desaceleração da economia, essa conta começa a não fechar”.

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Leonardo Guimarães
Investimentos | Economia | Mercados