Com saques de R$ 8,8 bi no ano, fundos macro cortam ainda mais aposta no Brasil

Categoria acumula forte saída em junho e julho, enquanto estimativa mostra a aposta em ativos locais um desvio padrão abaixo da média histórica

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Enquanto veem os cotistas retirarem recursos, os fundos multimercado macro vêm reduzindo a exposição ao Brasil. Segundo estimativas da XP, a aposta em ativos ligados à economia local caiu para um patamar abaixo da média histórica.

Os multimercados macro montam suas posições a partir de leituras de cenário econômico, apostando na direção de juros, câmbio e bolsa, e por isso costumam funcionar como termômetro do apetite dos gestores profissionais por ativos locais.

A métrica que acompanha o chamado Kit Brasil em janela de 45 dias úteis chegou a um desvio padrão abaixo da média, tomando como referência o desvio padrão do modelo de 90 dias úteis, e todas as janelas acompanhadas recuaram na margem.

O Kit Brasil é uma estimativa estatística elaborada pelo time de pesquisa macro da XP, que roda regressões que comparam o retorno diário dos fundos com o comportamento de Ibovespa, dólar e índices de renda fixa, e a partir daí deduz o quanto os gestores estão apostando na valorização dos ativos locais. Quanto maior o indicador, maior a exposição estimada ao Brasil.

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Pela leitura da ponta no modelo de janela mais curta, de 25 dias úteis, os fundos seguem comprados em S&P 500 e em Ibovespa, com essa exposição em queda, e vendidos em dólar contra o real, o que equivale a apostar na valorização da moeda brasileira. No modelo de janela mais longa, de 90 dias úteis e dez variáveis explicativas, aparecem também comprados em IRF-M, o índice de títulos públicos prefixados que se beneficia da queda dos juros nominais, e vendidos em petróleo. A XP recomenda que as duas leituras sejam interpretadas em conjunto, já que a primeira capta melhor a virada recente e a segunda é menos volátil.

A amostra reúne fundos máster classificados pela Anbima como multimercado macro e cobre a maior parte da categoria, com patrimônio de cerca de R$ 75 bilhões em abril.

Investidores em retirada

O movimento vem meio a forte saída de recursos da subclasse. Os multimercados macro registraram resgates líquidos de R$ 8,8 bilhões de janeiro a julho, com R$ 5,5 bilhões concentrados apenas em junho e julho, no pior bimestre para a categoria desde abril e maio de 2025.

“Temos observado um avanço dos resgates líquidos nas últimas semanas”, reconhece a XP em relatório em que elenca as estimativas a partir de acompanhamento diário da diferença entre aportes e retiradas dos cotistas, o que antecipa em semanas os números da Anbima, divulgados apenas no mês seguinte.

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O ritmo de saques, ainda assim, é menos intenso que o do ano passado. No mesmo período de 2025, a categoria havia registrado resgates de R$ 21 bilhões, e fechou aquele ano com R$ 25,6 bilhões. Em 12 meses, as saídas somam R$ 13,4 bilhões. Desde janeiro de 2025, os multimercados macro tiveram apenas dois meses de captação positiva.

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O efeito aparece no tamanho da categoria. O patrimônio líquido fechou julho em R$ 97,1 bilhões, menor nível desde ao menos janeiro de 2025, quando somava R$ 114,9 bilhões, uma redução de 15,5% no período.

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No ano, o patrimônio caiu R$ 5,3 bilhões enquanto os resgates somaram R$ 8,8 bilhões, diferença que sugere ganho de mercado da ordem de R$ 3,5 bilhões no período, desconsiderando eventuais mudanças na composição da categoria. Os fundos renderam, mas o cotista sacou mais do que isso.

Ao comentar os números da indústria no primeiro semestre, o diretor da Anbima Pedro Rudge associou o comportamento do investidor ao ambiente de aversão ao risco, influenciado pela questão fiscal e pelas eleições. “A busca por previsibilidade tende a manter os investidores concentrados nos fundos de renda fixa”, afirmou em nota da associação.

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Perdendo para o CDI

No ano até 12 de agosto, os fundos da amostra da XP acumulam alta de 5,18%, o equivalente a 61% do CDI, com ganho de 0,25% nos cinco dias úteis anteriores. Em um ambiente de Selic de dois dígitos, capturar pouco mais de 60% do juro básico significa entregar menos do que uma aplicação sem risco de mercado.

Boa parte do atraso vem de um único mês. Até 27 de fevereiro, véspera do início da guerra no Oriente Médio, o IHFA subia 3,60% contra 2,23% do CDI, mas os fundos devolveram esse ganho e o índice fechou o primeiro trimestre praticamente estável, em 0,05%, ante CDI de 3,5%. Em março, o IHFA recuou 3,42%, na maior correção mensal desde os 6,24% registrados em março de 2020. Foi também o mês em que os multimercados macro tiveram a maior queda percentual de patrimônio desde o início de 2025.

O índice encerrou o primeiro semestre com alta de 3,26%, abaixo dos 6,90% do CDI no período e dos 6,76% do Ibovespa, e também da caderneta de poupança, que rendeu 3,93%. Vale a ressalva de que o IHFA e a amostra da XP não são diretamente comparáveis, já que o índice da Anbima reúne multimercados de várias estratégias que cobram taxa de performance, enquanto o monitor do banco se restringe a fundos macro e pondera o retorno pelo patrimônio de cada carteira.

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Paulo Barros
Investimentos | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos