Gestora de US$ 1,3 tri defende precaução nos mercados, foge dos EUA e compra Sabesp

Laura Howenstine, da estratégia Global Quality Growth da Wellington Management, defende posição abaixo da média nos EUA, e comprada em saneamento brasileiro

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Laura Howenstine trabalha com uma conta que boa parte do investidor pessoa física ignora: quem perde 25% num ano precisa ganhar mais de 33% no seguinte só para empatar. É desse cálculo que nasce toda a filosofia da estratégia Global Quality Growth da Wellington Management. A gestora americana, uma das maiores independentes do mundo, administra cerca de US$ 1,3 trilhão, dos quais mais de US$ 34 bilhões na plataforma que abriga a estratégia de Howenstine. Em vez de perseguir o topo do retorno, o fundo é montado para cair menos em momentos de baixa no mercado. “É mais fácil digerir um desempenho abaixo de um índice que rende 20% quando você está ganhando 18% do que perder 25% quando o índice caiu 20%”, disse a diretora de investimentos da estratégia em entrevista recente ao InfoMoney.

Parece conservador num momento de euforia com inteligência artificial. Mas foi justamente essa obsessão por defesa que levou a gestora a três apostas fora do consenso.

Longe dos Estados Unidos

A primeira é geográfica. O fundo global está com exposição abaixo da média nos Estados Unidos e sobrealocado em Europa, saúde e imóveis. “Temos exposição na Europa, na Ásia, no Japão, nos Estados Unidos e até no Brasil”, afirmou Howenstine. São de 70 a 75 ações na carteira, contra um mercado que passou anos estreito, premiando um punhado de gigantes de tecnologia.

O momento ajuda a tese. Depois de três anos carregando a bolsa americana, as Sete Magníficas perderam força em 2026. Enquanto o S&P 500 subia cerca de 10% no primeiro semestre, o índice que exclui as sete gigantes avançava perto de 15%, e a cesta das próprias Magníficas ficava de lado. A abertura do mercado para além das big techs é o ambiente para o qual a estratégia foi desenhada.

“Estamos overweight (equivalente a comprados) na Europa agora, acredite se quiser. Na verdade, estamos underweight (vendidos) nos Estados Unidos”, disse a gestora.

Sabesp entre as dez maiores

No Brasil, a aposta é o saneamento. Howenstine citou a Sabesp (SBSP3) como uma ação que pontua bem no modelo por combinar crescimento durável, margens de caixa elevadas e valuation atraente. “É isso que chamou nossa atenção”, resumiu.

A empresa está entre as dez maiores posições do fundo global, ao lado de Nvidia, Alphabet, TSMC, Microsoft e Eli Lilly. Numa carteira que compara cada ação com todas as outras do mundo, uma estatal de saneamento recém-privatizada dividir espaço com as líderes de IA diz muito sobre o que a gestora chama de qualidade.

O que é qualidade

O conceito, para Howenstine, mistura duas variáveis: as margens de caixa que a empresa deve gerar, projetadas a partir de dois anos à frente e ao longo dos cinco seguintes, e o retorno sobre o capital empregado. A segunda pesa quando a companhia reinveste o caixa em vez de devolvê-lo em dividendos ou recompra. “Se estão reinvestindo essas margens de caixa de volta no negócio, como vemos as hyperscalers fazendo hoje, queremos ver evidência de altos retornos sobre esse capital”, explicou.

A dúvida sobre a IA

É aí que mora a maior ressalva da entrevista. Perguntada sobre a exposição que mais a preocupa, Howenstine não apontou um setor sobrealocado. Apontou um risco de retorno. A atenção está nos hyperscalers que gastam somas colossais em infraestrutura. “Estamos mais preocupados com os retornos daqui para frente do que com extremos de valuation”, afirmou.

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A cautela ecoa um debate que tomou o mercado em 2026. Os cinco maiores hyperscalers devem investir perto de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA neste ano, salto de mais de 70% sobre 2025 e o maior ciclo de investimento privado em tecnologia da história. O fluxo de caixa livre encolhe enquanto o gasto dispara, e o desconforto já ganhou nome entre os fundos: “capex fatigue”. A leitura de Howenstine, retorno acima de valuation, é a versão disciplinada dessa dúvida.

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Paulo Barros
Investimentos | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos