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A temporada de balanços de bancos do segundo trimestre de 2026 parece não ter sido capaz de animar o mercado — nem mesmo nos casos em que os números vieram acima do esperado. O tom de cautela se repetiu em praticamente todos os grandes bancos listados no país. Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) já haviam reportado seus números do segundo trimestre quando o Banco do Brasil encerrou a temporada, na quarta-feira (12).
Entre as quatro maiores instituições financeiras do país, a mensagem ecoou em uníssono: redução da exposição a tomadores mais arriscados e ao crédito sem garantia.
Os bancões estão redobrando a postura cautelosa na concessão de crédito, dando continuidade a uma migração para produtos com garantia e para clientes de renda mais alta.
O movimento acontece mesmo diante de um mercado de trabalho ainda forte e de uma economia que segue superando expectativas — mas também diante de sinais cada vez mais claros de deterioração nas finanças das famílias brasileiras.
Para Katherine Hennings, analista da consultoria BRCG, a postura reflete “um reconhecimento mesmo e uma lembrança de que o cuidado nas concessões de crédito pode ser ainda mais apurado”. Segundo a analista afirmou à Reuters, essa cautela crescente sinaliza a preocupação dos bancos com uma possível desaceleração da economia brasileira, depois de um ciclo de expansão que foi parcialmente sustentado pelo aumento do endividamento das famílias.
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Hennings lembra que, historicamente, períodos de forte expansão do crédito acompanhados por rápida elevação do endividamento das famílias tendem a ser seguidos por desacelerações mais profundas do consumo — como ocorreu no Brasil entre 2011 e 2015.
Piora nas finanças
O que torna o momento atual diferente, e potencialmente mais preocupante quando o crescimento perder força, é que a piora nas finanças das famílias está acontecendo mesmo com desemprego baixo e renda em alta: o comprometimento de renda das famílias brasileiras já ronda os 50% da renda disponível, próximo de recordes.
Essa combinação, segundo a analista, tem origem em fatores estruturais e conjunturais. Do lado estrutural, mudanças regulatórias, a expansão das fintechs e a rápida adoção de meios digitais de pagamento ampliaram o acesso ao crédito para consumidores que antes ficavam de fora do sistema bancário tradicional.
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Do lado conjuntural, pesam políticas voltadas a estimular consumo e crédito, que ajudaram a elevar a alavancagem das famílias por meio de linhas sem garantia e de custo elevado, como cartão de crédito e empréstimo pessoal. São justamente essas as modalidades que os grandes bancos agora evitam oferecer a clientes de renda mais baixa.
O contraste nas projeções de crescimento ajuda a entender a cautela. Enquanto a mediana de mais de 100 economistas consultados pelo Banco Central na pesquisa Focus aponta para uma expansão do PIB de 1,5% em 2027, ante cerca de 2% neste ano, executivos do Banco do Brasil disseram esperar um crescimento de apenas 1% no próximo ano.
O vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores do BB, Geovanne Tobias, afirmou que a redução da inadimplência entre pessoas físicas no próximo ano deve vir “na medida em que a gente tem focado o crescimento muito no consignado público e no consignado privado”.
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Alerta do Itaú
Um dos alertas mais diretos partiu do presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, para quem “o volume de crédito que foi distribuído no mercado é muito acima do que o mercado teria capacidade de absorver” — um sinal, segundo ele, de que o comprometimento de renda das famílias chegou a um nível excessivo. Maluhy disse que o cenário piorou na margem, o que levou o banco a priorizar operações com garantia.
No Bradesco, o presidente Marcelo Noronha adotou discurso parecido: o banco está muito mais seletivo na concessão de crédito. “Nosso apetite para aquele cliente de menor renda hoje é muito menor do que já foi no passado”, afirmou, destacando que a carteira do banco está hoje bem mais respaldada por garantias do que em ciclos anteriores.
O Santander Brasil seguiu o mesmo caminho, reduzindo a exposição a tomadores de maior risco — sobretudo clientes com renda mensal abaixo de R$ 4 mil, o equivalente a cerca de 2,5 salários mínimos. A justificativa passa por preocupações com a sustentabilidade do atual nível de emprego e do apoio governamental às famílias caso a economia perca fôlego.
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O recuo atinge uma fatia relevante da força de trabalho brasileira, já que cerca de 70% dos ocupados no país recebem até dois salários mínimos. “Abaixo de R$ 4 mil, a gente não pode competir com outros incumbentes agora, e não vamos fazer”, disse o diretor financeiro do Santander Brasil, Carlos Muñiz. “E acima dessa renda, buscaremos sempre operações com algum tipo de garantia.”
Prioridades do BB
No Banco do Brasil, a presidente Tarciana Medeiros colocou entre as prioridades estratégicas da instituição aumentar em 25% o número de clientes de “alto valor” até 2030 — outro indício de que a busca por um público de menor risco não é exclusividade dos bancos privados.
Nem todo o setor financeiro caminha no mesmo ritmo, porém. O Nubank, maior banco digital do país, cuja carteira é concentrada em cartões de crédito e outras modalidades sem garantia, informou que os empréstimos com atraso superior a 90 dias subiram para 6,9% no segundo trimestre, ante 6,5% tanto no trimestre anterior quanto no mesmo período do ano passado.
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Ainda assim, o banco registrou crescimento de lucro acima do esperado, puxado por receitas maiores e melhora da margem financeira ajustada ao risco, com a administração sustentando não enxergar uma deterioração disseminada entre os consumidores, apesar de um ambiente macroeconômico mais cauteloso.
Bradesco como principal surpresa
Entre os grandes bancos tradicionais, o Bradesco foi apontado como a “principal surpresa positiva” do trimestre, segundo análise da XP. A instituição reportou lucro líquido recorrente de R$ 7,05 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% na comparação anual e acima da projeção de R$ 6,95 bilhões compilada pela LSEG. A rentabilidade (ROAE) chegou a 16,2%, avanço frente aos 15,8% do primeiro trimestre e aos 14,6% de um ano antes, enquanto a carteira de crédito somou R$ 1,14 trilhão, expansão de 11,6% no período.
Mesmo com o resultado considerado forte, os sinais de cautela também apareceram nos números do Bradesco: a inadimplência acima de 90 dias subiu para 4,3%, ante 4,1% um ano antes, e as provisões (PDD expandida) somaram R$ 10 bilhões, alta de 22,6% na comparação anual.
A XP chamou atenção para o “aumento dos saldos classificados em estágio 2, especialmente ligados a pequenas e médias empresas e agronegócio”, enquanto o JPMorgan questiona se as provisões podem se deteriorar ainda mais em um cenário econômico mais desafiador.
Os resultados de Itaú, Bradesco e Santander também serviram de termômetro para o que o mercado esperava do Banco do Brasil, especialmente no segmento rural — que responde por cerca de 32% da carteira ampliada do banco.
No caso do Banco do Brasil, o próprio vice-presidente de Gestão Financeira, Geovanne Tobias, adiantou que as provisões deverão ficar na ponta alta das estimativas do banco para o ano, enquanto o lucro deve ficar na ponta baixa.
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O resultado do BB encerrou uma temporada de na qual as instituições financeiras como um todo vêm enfrentando desafios relacionados à inadimplência, reflexo dos juros elevados no Brasil — um cenário que também tem prejudicado o desempenho financeiro de companhias de outros setores da economia.
(com Reuters)
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