BB: explosão da inadimplência em cartões é caso isolado? Como está cenário para setor

Segundo o JPMorgan, o movimento mostra que a piora observada não refletiu uma deterioração generalizada do mercado de cartões, mas um evento específico da carteira do Banco do Brasil

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O mercado teve uma reação negativa ao resultado do segundo trimestre de 2026 (2T26) do Banco do Brasil (BBAS3), com as ações caindo mais de 4% na última quinta-feira.

Um dos números que se apresentaram como mais negativos foi o do cartão de crédito, uma vez que a inadimplência acima de 90 dias praticamente dobrou em apenas três meses.

E a explosão da inadimplência dos cartões continua sendo o principal foco de atenção do mercado após os resultados e a teleconferência da companhia. Embora a administração tenha apresentado explicações para a forte deterioração dos indicadores, analistas ainda veem riscos relevantes para a qualidade dos ativos e para o cumprimento das projeções de lucro.

O JPMorgan chamou atenção para um dado que ajuda a dimensionar o tamanho do problema também para o sistema bancário, apontando que a inadimplência acima de 90 dias dos cartões de crédito no sistema financeiro brasileiro teria melhorado no segundo trimestre se o Banco do Brasil fosse excluído da amostra. Enquanto a inadimplência dos cartões do BB saltou de 7,1% para 14,6%, a taxa do restante do sistema teria caído de 9,3% para 9,1%.

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Para o banco americano, o movimento mostra que a piora observada não refletiu uma deterioração generalizada do mercado de cartões, mas um evento específico da carteira do Banco do Brasil. O aumento de cerca de 750 pontos-base na inadimplência surpreendeu até mesmo analistas que já esperavam pressão sobre os indicadores de crédito da instituição.

Banco aponta agro e mudança em produto de parcelamento

Durante a teleconferência, a administração do banco atribuiu a deterioração dos cartões a dois fatores principais.

O primeiro deles foi a contaminação da carteira por clientes do agronegócio. Segundo o banco, parte dos produtores rurais que enfrentaram dificuldades em operações agrícolas também acabou apresentando piora nos índices de pagamento dos cartões de crédito.

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O segundo fator foi a descontinuidade de uma funcionalidade de parcelamento automático destinada a clientes de menor renda. O produto permitia refinanciamento sem entrada, característica que, segundo o banco, contribuiu para o aumento da inadimplência. A exigência de pagamento inicial voltou a ser implementada e a administração afirmou que já observava sinais de normalização em julho.

Saiba mais: BB (BBAS3): CEO diz que inadimplência do agro ainda é alta, mas MP 1.376 deve ajudar

Além disso, o Banco do Brasil destacou a ampliação da chamada matriz de resiliência, mecanismo que reforça os critérios de concessão de crédito e que passou a cobrir cerca de 31% das originações de pessoas físicas em junho, com meta de atingir 57% até dezembro.

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Renegociação rural pode aliviar provisões

Outro tema importante da teleconferência foi a implementação da Medida Provisória 1.376, que trata da renegociação de dívidas do agronegócio.

Segundo a administração, aproximadamente R$ 100 bilhões da carteira rural poderiam se enquadrar nas novas regras, sendo esperadas renegociações em torno de R$ 30 bilhões. O banco estima que cada R$ 1 bilhão renegociado pode gerar impacto positivo entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões no resultado, tanto pela retomada da apropriação de juros quanto pela redução do custo de crédito.

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A maior parte desses efeitos deve aparecer apenas no quarto trimestre, quando o programa estiver sendo efetivamente implementado.

Guidance mantido, mas com viés negativo

Apesar de manter as projeções para 2026, o Banco do Brasil adotou tom cauteloso.

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Segundo o Goldman Sachs, a administração indicou que espera entregar lucro próximo ao piso da faixa prevista e provisões próximas ao teto do guidance. Além disso, admitiu a possibilidade de um desvio negativo adicional de 5% a 6% em um cenário mais adverso.

Diante desse cenário, o Goldman cortou suas estimativas de lucro recorrente em 9% para 2026 e em 8% para 2027, citando perspectivas mais fracas para margem financeira e provisões mais elevadas. O banco manteve recomendação de venda para as ações e reduziu seu preço-alvo de R$ 19 para R$ 17,50.

Na avaliação dos analistas, a explicação para a deterioração dos cartões ajuda a entender a origem do problema, mas ainda não resolve a principal preocupação do mercado: confirmar se a inadimplência realmente começará a se estabilizar nos próximos meses. Até lá, a qualidade do crédito continua sendo o principal fator de risco para a tese de investimento do Banco do Brasil.

Além da retirada de recursos pelos estrangeiros, a temporada de balanços do segundo trimestre, que chega perto do fim, também desanima o mercado. “Olhando para os bancos, não nos anima muito”, afirma Guto Leite, gestor de renda variável da Franklin Templeton. “A visão que fica das teleconferências e das interações com as companhias para o restante do ano é que o discurso não está muito animador.”

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Investimentos

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.