Pix em Garantia ficou para depois. A culpa é do Tarifaço dos EUA?

Apesar do ruído político criado pela narrativa norte-americana, a explicação para o atraso do Pix em Garantia parece estar mais próxima dos desafios tecnológicos e regulatórios do que de qualquer pressão externa

Maria Luiza Dourado

Sede do Banco Central, em Brasília
26 de dezembro de 2024
REUTERS/Ueslei Marcelino
Sede do Banco Central, em Brasília 26 de dezembro de 2024 REUTERS/Ueslei Marcelino

Publicidade

Prometido pelo Banco Central como uma das próximas grandes evoluções do Pix, o “Pix em Garantia” era esperado pelo mercado para 2026. Agora, aparece apenas na agenda de longo prazo da autoridade monetária, prevista para 2027 em diante. Em meio à investigação aberta pelos Estados Unidos contra práticas comerciais brasileiras e às críticas ao Pix feitas por autoridades americanas, surgiu uma dúvida inevitável: o Brasil estaria desacelerando a agenda do Pix para evitar atritos com Washington?

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo InfoMoney, a resposta é não. Embora o sistema de pagamentos instantâneos tenha se tornado um dos símbolos da disputa política entre Brasil e Estados Unidos, executivos do setor de pagamentos afirmam que o adiamento do Pix em Garantia tem explicações mais concretas: a complexidade técnica do projeto, a necessidade de construir uma nova infraestrutura para crédito e recebíveis e a crescente prioridade dada à segurança do sistema financeiro.

O Pix em Garantia permitirá que empresas utilizem recebíveis futuros gerados por operações Pix como garantia para obtenção de crédito, de forma semelhante ao que acontece hoje com recebíveis de cartão. A expectativa é reduzir o custo do crédito para empresas, especialmente pequenos e médios negócios. Para isso, porém, será necessário criar toda uma infraestrutura de registro, validação e controle desses recebíveis, o que ajuda a explicar por que o projeto vem avançando mais lentamente do que outras evoluções do ecossistema Pix.

Leia mais Pix, desmatamento, etanol e corrupção: os argumentos dos EUA para impor novas tarifas

Em junho de 2025, o Banco Central projetava que o Pix em Garantia entraria em operação em 2026. Já na apresentação mais recente do Fórum Pix, divulgada em março deste ano, o Pix em Garantia aparece apenas na agenda de 2027, ao lado de projetos como Pix Internacional e novas evoluções do Pix Automático. Enquanto isso, iniciativas como Split Tributário, Cobrança Híbrida, Conta-Salário, MED 2.0 e medidas de combate a fraudes ganharam prioridade na agenda regulatória.

Para Ralf Germer, CEO e cofundador da PagBrasil, o adiamento não tem relação com a recente escalada das tensões comerciais entre Brasil e EUA e sim com as jornadas de pagamento sem redirecionamento, que consumiram uma parcela importante dos recursos disponíveis do BC. “São projetos super complexos. Para o usuário é super fácil, mas tudo o que tem por trás é muito complexo e demora para funcionar”.

Em vez de uma agenda estática, o que aparece na frente da autoridade monetária é uma fila de prioridades: MED 2.0 – a atualização do nova versão do Mecanismo Especial de Devolução criado pelo Banco Central – prevenção a fraudes, Split Tributário, Cobrança Híbrida e regulamentação dos intermediários do Pix.

Leia mais: Quanto valeria o Pix se fosse empresa? Exercício aponta valor trilionário

O peso crescente da segurança

Outro fator apontado pelo executivo é a crescente preocupação do mercado financeiro com fraudes e ataques cibernéticos. “E ainda por cima tivemos, no ano passado e nesse ano, um prbblema com hackers que invadiram os sistemas de bancos e sistemas que conectavam os bancos ao Banco Central. Então, o BC está ocupado com outras coisas.”

Continua depois da publicidade

Em julho de 2025, a C&M Software, uma empresa que conecta instituições financeiras aos sistemas do Banco Central, foi alvo de um ataque que permitiu acesso indevido a contas-reserva de instituições financeiras. Dias depois, investigações apontaram prejuízos potencialmente bilionários e o envolvimento de credenciais utilizadas de forma fraudulenta por criminosos.

Nos meses seguintes, novos ataques voltaram a atingir empresas que fazem a conexão entre instituições financeiras e a infraestrutura do BC, levando o regulador a reforçar os mecanismos de supervisão e segurança do ecossistema.

Segundo Germer, a ascensão da inteligência artificial também contribui para mudar as prioridades do setor. “Os riscos aumentam muito, porque hackers e fraudadores também usam IA”.

Continua depois da publicidade

A própria agenda do Fórum Pix evidencia essa preocupação, elencando como prioridades o desenvolvimento de indicadores de probabilidade de fraude baseados em machine learning, novas regras de classificação de fraudes, aperfeiçoamento do bloqueio cautelar e evolução do MED 2.0.

Por que o Pix em Garantia é tão difícil de construir?

Hoje, o Pix foi desenhado para liquidar uma transação instantaneamente. Já o Pix em Garantia exigiria algo diferente: criar recebíveis futuros que possam ser utilizados como garantia em operações de crédito.

“O Pix foi construído para ser uma compensação imediata, o pagamento imediato. Para você poder fazer o Pix em Garantia, o primeiro passo é criar essa modalidade onde o Pix vai realmente gerar um compromisso futuro. Hoje já tem isso criado do lado dos cartões. Seria preciso criar isso do lado do Pix”, Rodrigo Rodrigues, COO e cofundador da Akua.

Continua depois da publicidade

Segundo Rodrigues, esse novo modelo exigiria mecanismos que permitam registrar os recebíveis, verificar sua titularidade e impedir que o mesmo ativo seja oferecido simultaneamente como garantia em operações diferentes. “Não envolve só os bancos e adquirentes, mas também registradoras, Núclea, Cerc e a própria B3”, completa.

O Brasil recuaria diante da pressão americana?

Para Germer, essa hipótese não parece compatível nem com a trajetória do Pix nem com a postura histórica do país. “Eu não vejo nenhum indício que esse seja o caso. O Brasil, até hoje, nunca se curvou à pressão política dos Estados Unidos. E espero que não faça isso”.

Interromper a evolução do Pix, na visão de Germer, seria um erro estratégico justamente quando sistemas de pagamentos instantâneos avançam em diversas partes do mundo – na América Latina, Europa e Ásia para defender que o movimento observado no Brasil está longe de ser isolado.

Continua depois da publicidade

Na visão do executivo, o Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento e passou a funcionar como infraestrutura financeira básica, sobre a qual empresas privadas podem construir novos produtos e serviços. “Uma empresa como a Mastercard ou a Visa pode se conectar ao Pix e usar. É uma infraestrutura financeira”, completou.

O InfoMoney perguntou ao BC se a autoridade monetária promoveu alguma mudança na sua agenda em respostas à pressão externa norte-americana. O BC não havia respondido até o momento da publicação. O espaço segue aberto.

O que está na agenda do Banco Central para o Pix?

Em março de 2026, durante o Fórum Pix, o BC compartilhou as seguintes listas de prioridades:

Prioridades para 2026

Agenda de longo prazo (2027 em diante)

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.