O CEO que faliu o Brasil pisou fundo no acelerador

Em sequência à coluna "O CEO que faliu o Brasil", Walter Maciel afirma que o governo aprofundou a expansão dos gastos públicos e empurrou seus efeitos fiscais para o futuro

Walter Maciel

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Vou dizer o que precisa ser dito. Há pouco mais de um ano, eu chamei Luiz Inácio Lula da Silva de o CEO que faliu o Brasil. Muita gente achou exagero.

Hoje eu preciso atualizar o diagnóstico, e desta vez não estou sozinho. Eu disse, naquele momento, que ele era o homem que implementou o projeto que quebrou o país, o que mudou é o que ele fez com essa informação.

Ele olhou para o abismo à frente, sabendo exatamente o que tem lá e decidiu acelerar. Não freou. Não desviou. Olhou para o precipício e pisou fundo. Com todas as letras, e me perdoem a franqueza: ele olhou para o abismo e disse “dane-se”.

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E não sou eu dizendo. Nestas últimas semanas, o BTG dos economistas Mansueto Almeida e Samuel Pessôa cravou que a despesa primária do governo central cresceu 14% em termos reais no primeiro quadrimestre, e chamou o que está acontecendo de reedição da desastrosa Nova Matriz Econômica.

A XP estimou a conta das medidas fiscais e parafiscais em pelo menos R$ 200 bilhões. E o Brazil Journal, que é lido por quem faz o PIB, usou a mesma palavra que eu, como gestor regulado, vou deixar na boca deles: “pedaladas”.

Quando o mercado inteiro diz a mesma coisa no mesmo dia, não é mais opinião. É consenso. E o consenso é sombrio.

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O consenso do mercado sobre a deterioração fiscal

Existe um gráfico que conta essa história melhor do que qualquer discurso. Ele mede o crescimento real do gasto público em cada governo desde Fernando Henrique, e o que ele mostra é uma assinatura.

Os três maiores crescimentos de toda a série carregam o mesmo nome: Lula 1, Lula 2, Lula 3.

No segundo mandato, o gasto cresceu quase 10% ao ano. Mas preste atenção em quem pagou a conta, porque é aqui que está a engenhosidade do esquema. Não foi ele.

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A conta que sempre fica para o sucessor

Lula gastou, e na hora de enfrentar o estrago escolheu uma sucessora que julgava controlar, certo de que voltaria por cima dela. E aqui é preciso ser justo com a história: Dilma não foi vítima de nada. Foi ela quem inaugurou o método que Lula hoje aperfeiçoa.

As pedaladas fiscais de 2014, que o TCU classificou como operação de crédito ilegal e que se tornaram o coração jurídico do impeachment, foram exatamente isto: atrasar de propósito os repasses do Tesouro à Caixa, ao Banco do Brasil e ao BNDES, para que os bancos públicos bancassem os programas do governo com o próprio dinheiro e a despesa sumisse das contas oficiais.

O procurador foi cirúrgico ao descrever a intenção: melhorar artificialmente as contas públicas em ano eleitoral. Leia de novo, porque é a mesma frase que se aplica hoje. Dilma armou a bomba, ganhou a eleição com ela, e foi no colo dela que a bomba explodiu. Veio o impeachment.

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E quem teve que fazer o trabalho sujo, segurar o crescimento real das despesas a níveis próximos de zero, foram Michel Temer e depois o ministro da Economia Paulo Guedes, durante o governo de Jair Bolsonaro.

Olhe o gráfico de novo: depois da explosão de gastos dos governos Lula e Dilma I, Temer e Bolsonaro governaram sob um dos períodos de maior contenção fiscal de toda a série.

Esse é o padrão, e ele é mais frio do que parece. Lula gasta. Outro paga. Lula volta. Não estamos diante de um homem que não entende as consequências.

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Estamos diante de um homem que já viu as consequências acontecerem, que assistiu de camarote ao impeachment da sua própria sucessora, e que descobriu a única coisa que precisava descobrir: que a fatura nunca chega no endereço dele.

Dilma pagou. Temer e Bolsonaro administraram os anos seguintes tentando conter os efeitos. O próximo presidente está sendo preparado para receber essa herança. E pode ser ele mesmo.

A nova versão das “pedaladas”

Agora veja como a conta é escondida, porque é aqui que mora a desonestidade, e é aqui que Lula prova que aprendeu a lição de 2014. Segundo Marcos Mendes, pesquisador do Insper, graças às manobras orçamentárias apenas 4% dessas despesas têm impacto direto no resultado primário. 4%.

Os outros 96% ficam fora dos limites do arcabouço fiscal. Leia de novo: de cada R$ 100 dessa farra, R$ 96 somem do indicador que o governo exibe para dizer que está tudo sob controle. O crédito subsidiado entra na conta financeira e não conta como gasto, mas a dívida bruta engorda do mesmo jeito.

É a pedalada de Dilma, agora industrializada. O BTG calcula que o estoque desse crédito subsidiado cresceu cerca de R$ 275 bilhões, perto de 2% do PIB. É a contabilidade criativa elevada a política de Estado. É a maquiagem antes da foto.

Impostos maiores, dívida maior

E para sustentar tudo isso só existe um caminho: extrair mais. A carga tributária bateu o recorde histórico em 2025, 32,4% do PIB, o maior nível desde que a série existe, com arrecadação federal recorde de quase R$ 2,9 trilhões. E mesmo assim o déficit cresce.

Entenda, porque é a falência da tese inteira: nem a maior tributação da história fecha a conta, porque o gasto corre na frente. O imposto recorde não tapa o buraco. Ele só transfere o oxigênio da economia produtiva para dentro da fogueira.

E o resultado dessa asfixia tem nome e número. Em 2025 o Brasil bateu o recorde histórico de empresas em recuperação judicial: 2.466 companhias, o pior desde que se mede. Havia ainda 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro. As famílias em níveis recordes de endividamento, afundando no rotativo.

E a causa apontada por boa parte dos analistas é a mesma: juros nas alturas, o custo brutal de financiar uma dívida que este governo engorda todo dia. Os juros futuros já estão no maior patamar desde 2015, o ano da crise de Dilma. O mercado não esqueceu o que esse filme significa.

O empresário que fecha as portas, a família que não paga o cartão, o produtor que não rola a safra. Esses são os pagadores. São eles que estão financiando a reeleição.

A estratégia para 2026

Porque é disso que se trata. Tudo o que está sendo feito agora tem um único objetivo, e não é o desenvolvimento, não é o pobre, não é a justiça social. É o poder. É a reeleição.

As próprias casas de análise apontam que parte dessas bondades mira justamente grupos nos quais o PT enfrenta maior resistência eleitoral. Isenção de imposto que custa hoje e se compensa só depois da urna.

Subsídio em combustível e gás que já soma mais de R$ 20 bilhões e vale até dezembro, com o tributo voltando em janeiro. Crédito empurrado para dentro de famílias que já comprometem metade da renda.

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E a bomba mais cínica de todas, a nova tributação de dividendos, desenhada com requinte: retém 10% na fonte sobre o valor total quando a distribuição mensal passa de R$ 50 mil, infla o caixa de 2026, e parte vira crédito que o próximo governo terá que restituir em 2027.

Nessa medida específica, não há programa social direto. Não há pobre na ponta. Há apenas antecipação de caixa. As outras medidas você pode chamar de populismo. Essa é a confissão. O benefício chega antes do voto, a conta chega depois, e a conta nunca é endereçada a quem gastou.

E onde estão os fiscais? Fazendo vista grossa. O TCU chegou a abrir auditoria sobre o uso desses fundos, mas até aqui não produziu uma resposta capaz de interromper a engrenagem. As instituições que deveriam acender o alarme escolheram o silêncio no ano em que ele é mais conveniente.

É a mesma omissão que, lá atrás, deixou as pedaladas crescerem até virarem impeachment.

E o que mais me indigna não é nem a irresponsabilidade. É a indiferença. É um homem que não dá a mínima para a geração que vai herdar essa dívida, não dá a mínima para o pobre que ele usa como bandeira e abandona como estatística, não dá a mínima para o país que ele já quebrou uma vez.

Ele se importa com uma coisa só, e essa coisa tem data: outubro de 2026. Tudo o mais é paisagem.

A dívida brasileira não é uma fatalidade. Não é a guerra lá fora, não é a herança maldita, não é o azar. Ela é uma construção. Tem autor, tem projeto, tem assinatura.

É o monumento que esse projeto de poder ergue toda vez que chega perto do cofre, tijolo por tijolo, e deixa de presente para quem tiver a coragem de governar depois. O legado não são as obras, ou os programas sociais, é o boleto que chega.

Quando a conta volta para quem gastou

E há uma ironia final que esse projeto de poder finge não enxergar. Durante toda a sua história, o segredo do CEO foi um só: gastar e entregar a fatura para o sucessor. Dilma pagou. Temer pagou. Bolsonaro pagou.

Mas existe um único cenário em que essa engrenagem trava, em que o incendiário é obrigado a ficar dentro da casa em chamas. Esse cenário é a reeleição. Se ele vencer em outubro, pela primeira vez será o próprio Lula a herdar a bomba que ele mesmo armou.

Pela primeira vez, o endereço da conta é o mesmo do responsável. E aí não vai ter sucessor para varrer o estrago. Vai ter só ele, e o estrago.

Lembram do Aston Martin do James Bond, na época de Sean Connery? Tinha um botão escondido no câmbio que ejetava o passageiro pelo teto, e o agente seguia dirigindo, intacto, enquanto o problema era arremessado para longe. Foi assim que esse governo dirigiu o Brasil a vida inteira.

Acelera no precipício, aperta o botão, e ejeta o sucessor para que ele caia com o estrago enquanto o motorista escapa. Dilma foi ejetada. Temer foi ejetado. Bolsonaro foi ejetado. O detalhe que ninguém contou a ele é que o botão só funciona quando há um passageiro no banco ao lado.

Se Lula se reeleger, não haverá sucessor para ejetar. Haverá só ele, sozinho no carro, em alta velocidade, em direção ao mesmo abismo de sempre, e desta vez sem o assento de ejeção, porque ele nunca fez, nunca fará e não tem a menor intenção de fazer o ajuste fiscal que seguraria o carro. A conta já chegou.

A única dúvida é se, finalmente, o motorista estará dentro do veículo na hora da batida.

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011