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O Governo Federal anunciou nesta segunda-feira (4) o “Novo Desenrola”, um programa de renegociação de crédito que visa reduzir o endividamento das famílias no Brasil, com potencial de impacto também sobre o mercado de ações.
O programa tem como alvo empréstimos inadimplentes de: i) consumidores de baixa renda (principalmente cartões de crédito, empréstimos sem garantia e cheque especial), ii) estudantes e iii) pequenas empresas/produtores rurais. A iniciativa combina descontos na dívida, garantias governamentais e teto para as taxas de juros. As garantias fornecidas pelo governo podem alavancar de R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões em renegociações, o equivalente a cerca de 40% do crédito inadimplente de consumidores e PMEs no Brasil.
Trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos (R$ 8.105) poderão usar até 20% do saldo disponível do FGTS para quitar dívidas renegociadas. O governo estima até R$ 8,2 bilhões em possíveis saques do FGTS sob a iniciativa. O programa tem como foco créditos ao consumidor em atraso e terá duração de 90 dias, com renegociações realizadas diretamente pelos bancos, respaldadas pelo FGO, além de prever restrições às apostas online para os participantes.
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Analistas destacam impactos especialmente em bancos e construtoras.
Danilo Coelho, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School, destaca que o programa deve impactar a inadimplência, já que os devedores podem não alterar seus hábitos financeiros, permanecendo endividados. Contudo, o uso do FGTS é limitado a 20% do saldo devedor. O restante da dívida será renegociado com juros menores do que os originalmente praticados, refletindo o menor risco percebido pelos bancos.
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Enquanto isso, as ações de construtoras sofreram nas últimas sessões em reação ao programa. O FGTS é uma importante fonte de financiamento do setor imobiliário e o “Novo Desenrola” pode afetar outras fontes. Porém, esse não foi o único fator de pressão sobre o setor — os papéis também são impactados pela inflação de custos.
Bancos: alívio, mas não solução
Para o Bank of America (BofA), o novo programa de renegociação de dívidas anunciado pelo governo deve oferecer um alívio imediato para os bancos brasileiros, mas está longe de representar uma solução estrutural para os problemas do mercado de crédito no país.
Segundo o banco, a iniciativa pode viabilizar a renegociação de R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões em contratos inadimplentes, o equivalente a cerca de 40% do crédito vencido entre consumidores e pequenas empresas no Brasil. A expectativa é de melhora nos índices de inadimplência (NPL) e redução das necessidades de provisão já no curto prazo, especialmente ao longo de 2026.
Apesar do impacto positivo inicial, o BofA é cauteloso ao avaliar os efeitos de longo prazo do programa. A análise destaca que a experiência do Desenrola anterior mostrou um efeito apenas pontual sobre os níveis de inadimplência, com rápida deterioração após o encerramento da iniciativa. O diagnóstico central continua sendo o mesmo: o problema do crédito no Brasil não é o estoque de dívidas vencidas, mas a baixa capacidade de pagamento, pressionada por juros elevados e pela predominância de linhas de curto prazo e alto custo, como cartão de crédito e empréstimos sem garantia.
Dentro do setor bancário, a casa destaca que instituições com maior exposição a clientes de baixa renda devem se beneficiar mais do programa. Nubank (BDR: ROXO34), PicPay e Bradesco (BBDC4) aparecem como os principais ganhadores no curto prazo, devido à redução esperada na inadimplência e na pressão por provisões. Por outro lado, o banco reforça que, sem uma queda estrutural das taxas de juros, o mercado de crédito brasileiro deve continuar enfrentando desafios recorrentes, mesmo com iniciativas pontuais de renegociação patrocinadas pelo governo.
Antes da medida ser anunciada, o JPMorgan também ressaltou que o Nubank aparece como um dos principais beneficiários, dado seu posicionamento relevante nesse segmento, podendo recuperar entre R$ 700 milhões e R$ 1,5 bilhão antes de impostos.
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Na visão do banco, embora o Desenrola 2.0 não resolva estruturalmente o problema de endividamento das famílias e possa até incentivar a inadimplência no futuro, o JPMorgan considera a iniciativa levemente positiva, já que as instituições financeiras podem recuperar parte dos créditos, aumentar receitas contábeis e suavizar preocupações com o ciclo de crédito.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, aponta que o impacto será maior nas financeiras de menor porte, uma vez que bancos maiores têm maior capacidade de diluir a inadimplência, alocando-a em provisões para devedores duvidosos. Apesar disso, instituições menores também poderão renegociar dívidas.
Para Lucas Viegas, vice-presidente e Senior Analyst da Moody’s Ratings, o programa apoia uma normalização gradual da qualidade dos ativos no segmento de varejo.
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“O benefício para os resultados dos bancos tende a ser moderado e desigual, pois dependerá da quantidade de pessoas com dívidas que serão elegíveis para aderir ao programa e se a renegociação de empréstimos resultará em um fluxo sustentado de pagamentos ao longo do tempo”, diz a Moody’s.
Construtoras: risco de precedente
Para as construtoras, o impacto ocorre porque trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos (R$ 8.105) poderão usar até 20% do saldo disponível do FGTS para quitar dívidas renegociadas, o que pode gerar até R$ 8,2 bilhões em saques do fundo sob a iniciativa.
Na visão do Bradesco BBI, embora medidas que pressionam a liquidez do FGTS sejam estruturalmente negativas, o impacto agora anunciado — de aproximadamente R$ 8,2 bilhões — parece administrável em relação ao orçamento habitacional do fundo (R$ 145 bilhões) e ao seu colchão de liquidez.
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“O principal risco continua sendo o precedente, já que iniciativas recorrentes podem enfraquecer gradualmente a flexibilidade financeira do FGTS, justificando monitoramento contínuo”, avalia. As ações de Cury (CURY3), Cyrela (CYRE3) e MRV (MRVE3) tiveram quedas expressivas nas últimas sessões, com o mercado repercutindo a medida.
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Cabe destacar que, segundo o Itaú BBA, em um cenário de custos de construção em alta e margens pressionadas, o FGTS ganha protagonismo como principal amortecedor de riscos para o segmento de habitação popular no Brasil. De acordo com a análise do banco, a capacidade de financiamento do fundo e os ajustes recentes no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) devem ser determinantes para manter a demanda, preservar preços e limitar o impacto da inflação sobre a rentabilidade das construtoras de baixa renda.
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Na visão do Itaú BBA, empresas com maior exposição ao MCMV e maior dependência do FGTS, como Direcional (DIRR3), Tenda (TEND3), Cury (CURY3), Plano&Plano (PLPL3) e MRV (MRVE3), devem enfrentar pressões distintas, mas todas se beneficiam do suporte estrutural do fundo. A análise ressalta que, sem o FGTS, boa parte do mercado de baixa renda seria inviável em um ambiente de juros elevados, já que financiamentos pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) ou linhas privadas tornariam as prestações proibitivas para esse público.