BRF (BRFS3) levanta R$ 5,4 bilhões em follow-on e vê alívio na alavancagem

Dona da Sadia ganha reforço de capital em momento de perspectiva de retomada do consumo e diminui pressões para venda de ativos

Rikardy Tooge

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A BRF (BRFS3) levantou R$ 5,4 bilhões no principal follow-on realizado no país este ano até agora. Nesta quinta-feira (13), a dona das marcas Sadia e Perdigão informou que a demanda pela oferta foi 20% maior que a prevista e emitiu 600 milhões de ações a R$ 9 por papel, valor 5,7% menor que o do fechamento (R$ 9,54) nas negociações da B3.

Os recursos trazem alívio à estrutura de capital da BRF, frente recorrente de preocupação no mercado. Com o follow-on, a empresa estima recuo de 1,3 vez em sua alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda). No fim do primeiro trimestre do ano, o índice estava em 3,35 vezes.

“O follow-on demonstrou a confiança do mercado e trouxe um investidor estratégico ao negócio”, afirmou Miguel Gularte, CEO da BRF, ao InfoMoney.

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Com a demanda extra na operação, a acionista de referência Marfrig (MRFG3) permaneceu com 33,3% do capital da dona da Sadia, ante uma expectativa do mercado de que a empresa fundada e controlada por Marcos Molina montasse uma posição acima de um terço do capital.

O fundo soberano da Arábia Saudita para a segurança alimentar, Salic, ficou com 10,7% de participação. Ao todo, Marfrig e Salic colocaram R$ 3,42 bilhões na operação. A Previ, outra acionista relevante, acompanhou a oferta.

O ‘day after’

O follow-on demonstrou mais uma vez que o mercado, em especial o chairman Marcos Molina, confia no turnaround da dona da Sadia. Foi a segunda oferta subsequente da BRF desde que Molina passou a investir na empresa, em meados de 2021.

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“Temos uma empresa pacificada e pronta para colher os frutos de nossa estratégia operacional”, reforçou Gularte, antigo CEO da Marfrig e que assumiu a BRF no fim de agosto do ano passado. No plano de voo da dona da Sadia, a diretoria tem priorizado gestão de estoques e eficiência na execução comercial.

Desde o fim do terceiro trimestre de 2022, a BRF tem defendido uma postura “back to basics”, tentando melhorar suas margens. No primeiro trimestre deste ano, a empresa ampliou sua receita em 9,4%, para R$ 13,2 bilhões. Mesmo assim, registrou prejuízo líquido de R$ 1,02 bilhão e dívida líquida de R$ 15,3 bilhões.

O CFO da BRF, Fábio Mariano, destacou que a empresa, além de diminuir a alavancagem, reduz sua despesa financeira com juros a partir de agora. Outro ganho operacional é a retomada gradual das margens com o recuo nos preços dos grãos, em especial de soja e milho.

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A perspectiva de queda na Selic a partir de agosto reforça o horizonte positivo. “Isso estimula o consumo dos nossos produtos”, lembrou Mariano.

Miguel Gularte, CEO da BRF (Divulgação)
Miguel Gularte, CEO da BRF: follow-on foi o segundo maior da história no mundo para uma empresa de alimentos (Divulgação)

Fábio Mariano reforçou, ainda, que a injeção de recursos confere maior poder de barganha à BRF no plano de desinvestimentos anunciado no início deste ano, com o qual o mercado estima ser possível levantar outros R$ 4 bilhões.

A venda da divisão de pet food, visto como principal ativo do plano, segue em curso com um processo de concorrência na fase de due diligence – o número de interessados que estão nesta etapa não foi divulgado. A tendência é que o negócio seja fechado no decorrer deste terceiro trimestre, com o sell side estimando um potencial de R$ 2 bilhões na transação.

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A questão Salic

Como foi anunciado no fim de maio, a acionista de referência Marfrig e o fundo soberano da Arábia Saudita para alimentação, Salic, ancoraram a oferta. O investidor estrangeiro é considerado estratégico para a BRF, por ser o mercado saudita muito importante para as vendas de carne de frango da empresa, uma das maiores exportadoras da proteína no mundo.

Mas a entrada do Salic no negócio não pode ser considerada trivial, uma vez que o fundo é sócio relevante da Minerva Foods (BEEF3), concorrente direta da Marfrig no mercado de carne bovina.

“Eu não posso falar por eles [Salic], mas toda a comunicação ao mercado sobre a participação da Salic foi muito clara”, argumentou Miguel Gularte. Os sauditas não solicitaram participação no conselho da BRF e sinalizam que terão uma atuação passiva no negócio.

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Para um analista que acompanha a BRF, o fundo Salic tem como premissa a segurança alimentar e faltava em seu portfólio um investimento em carne de frango, uma proteína que o país quer garantir o fornecimento. “A BRF tem marca forte na Arábia Saudita e uma operação estabelecida por lá. Talvez o valuation fizesse sentido para entrar no negócio, já que a lógica deles é estratégica e de longo prazo”, afirmou.

Sobre um possível conflito em relação à Minerva, o analista entende que é possível viver em harmonia. “É uma sociedade [Minerva e Salic] forte e que tem caminhado bem nos últimos anos, inclusive com uma joint venture na Austrália. Até hoje, eu não vi nenhum ativo que o Salic tenha saído”, disse.

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br