“De volta ao básico”: BRF (BRFS3) projeta 2023 mais pragmático; mercado vê resultado “neutro”, mas ações desabam

Novo CEO fala em mais assertividade na gestão e que a companhia "não pode ignorar o passado"; papéis recuam mais de 8% nesta quinta-feira

Rikardy Tooge

Unidade da BRF em Chapecó (SC) (Divulgação)

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A nova gestão da BRF (BRFS3) projeta que o próximo ano pode marcar o turnaround tão esperado pelo mercado. A estratégia para 2023 é melhorar a execução comercial e ser mais pragmático no gerenciamento de toda operação, de acordo com Miguel Gularte, o CEO da dona da Sadia e Perdigão, que assumiu há pouco mais de 45 dias.

“Eu digo que nosso plano é um ‘back to the basics‘, nós temos indicadores consistentes e bons benchmarks, agora temos que saber utilizá-los e ter agilidade para implementar. Não adianta ter um plano, é preciso saber executá-lo”, disse o executivo, durante teleconferência com analistas nesta quinta-feira (10).

Embora não tenha detalhado a estratégia que pretende imprimir na companhia, Gularte indica que haverá “ajustes finos” em todas as áreas da empresa, desde a operação de campo, passando pela fábrica e logística, até a prateleira.

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Miguel Gularte assumiu a dona da Sadia no fim de agosto com a missão de melhorar os resultados da companhia, que agora amarga três trimestre seguidos de prejuízos. Vindo da Marfrig (MRFG3), empresa que hoje controla a BRF, um dos seus principais desafios é segurar a queima de caixa da companhia.

“Não podemos ignorar os problemas que existiram. Para construir um bom futuro é preciso ter a sabedoria de aprender com o passado, eu tenho 42 anos de experiência e já vivi essa situação outras vezes. Sei como fazer”, exaltou Gularte.

Na véspera, a BRF reportou prejuízo líquido de R$ 136,8 milhões, 50% menor do que o registrado em igual período de 2021. Já o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) foi de R$ 1,32 bilhão, uma queda de 6,3%. A margem Ebitda foi de 9,4%, com queda de 2 pontos percentuais. A receita líquida somou R$ 14,1 bilhões, alta de 13,4% em comparação com o mesmo período do ano passado.

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Alavancagem no radar

Atualmente, a empresa apresenta uma alavancagem de 3,26 vezes a dívida líquida pelo Ebitda, ante 3,06 vezes de igual período de 2021 – vale destacar que o índice aumentou mesmo com a BRF captando R$ 5,4 bilhões em um follow-on realizado fevereiro. O CFO da companhia, Fábio Mariano, afirmou que a alta do dólar no trimestre prejudicou os indicadores de endividamento, uma vez que 50% dos compromissos da BRF são na moeda americana.

Para o Credit Suisse, porém, o resultado do último trimestre indicou um processo de desaceleração dos gastos. “Finalmente a BRF conseguiu quase neutralizar seu consumo de caixa, mesmo com um alto nível de investimento”, afirmou o analista Victor Saragiotto, em relatório. “O último resultado não foi brilhante. As expectativas do mercado apontaram para uma melhora do Ebitda ao longo do ano – expectativa que foi frustrada pelos números do 3T22. Isso parece reforçar que não há ‘bala de prata’ no processo de trazer os resultados da BRF para um nível mais alto”.

O Itaú BBA disse que o resultado veio abaixo de suas expectativas, mas em linha com o consenso dos analistas. Os analistas Gustavo Troyano, Renan Moura e Victor Gaspar apontaram que os negócios internacionais da BRF foram destaque, enquanto as vendas no mercado interno apresentaram recuperação mais lenta que o esperado. “Continuamos a ver o Brasil como o ponto baixo da tese de investimento no curto prazo”, reforçaram.

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Fábio Mariano lembrou que há um cenário econômico desafiador no mundo para o próximo ano, o que exigirá um cuidado ainda maior nos gastos da BRF. “Nossa alocação de capital precisa ser criteriosa, mas não vamos deixar as oportunidades passarem”, afirmou.

Plano de ação

Miguel Gularte reforçou que sua primeira medida como CEO da BRF foi trabalhar em um plano de ação e de diagnóstico dos problemas da companhia. Disse ainda que a gestão está focada em mapear todos seus níveis operacionais para melhorar a entrega de resultados. “Temos indicadores sólidos, agora precisamos trabalhar para atuar de forma correta”.

O executivo também apontou a necessidade de que as estratégias do management cheguem até a ponta da cadeia. “Qualquer 100 gramas perdida na nossa produção faz diferença. Abatemos 1,5 bilhão de frangos e 10 milhões de suínos, uma melhora de 1% faz muita diferença”.

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O CEO destacou que o plano de ajustes na dona da Sadia não demandará mais investimentos do que o habitual e crê que os ganhos de eficiência que deverão ocorrer tendem a não comprometer o desempenho financeiro da companhia. “Temos que capitalizar oportunidades no próximo ano”, reforçou.

O Credit Suisse disse estar “curioso” para ver o desempenho da nova gestão e o que vai ser prometido ao mercado. “Acreditamos que haverá uma melhoria gradual e lenta nas operações, refletindo nas margens e no fluxo de caixa”, acrescentou o banco suíço, que manteve sua recomendação de outperform (equivalente à compra), com preço-alvo de R$ 22 – representando um upside de quase 96% frente a cotação atual. Já o BBA mantém recomendação neutra para o papel, com alvo em R$ 17, um upside de 52%.

BRF desaba na B3

Nesta quinta-feira, a BRF opera em forte baixa na Bolsa. As ações da companhia fecharam a quinta-feira com queda de 8,18%, a R$ 11, seguindo também o mal estar generalizado do mercado brasileiro. No ano, os papéis recuam cerca de 50%.

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br