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Por que o Brasil não pode interromper a maratona para amarrar o tênis

"Voltar para a época do Guido Mantega é tudo que a gente não quer e não precisa"

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Imagine um atleta correndo uma maratona. Depois de 40 quilômetros de esforço, suor, dores e cansaço, ele já consegue avistar a linha de chegada, mas, em vez de manter o foco para terminar a prova e correr para o abraço, ele resolve parar para amarrar os tênis. 

Na visão do gestor Guilherme Abbud, da Persevera Asset, esse atleta é o Brasil e a maratona é a transformação do ambiente econômico e fiscal do país. Estamos muito perto da mudança completa, mas com a “patacoada” do orçamento da Renda Cidadã, paramos para amarrar o tênis.

O Renda Cidadã foi apresentado nesta segunda-feira pela equipe econômica e o mercado expressou sua opinião sobre ele derrubando o Ibovespa em 2,41% em um dia (enquanto o S&P 500 caiu 0,29%) e valorizando o dólar em 1,79%. A repercussão permanece negativa nesta terça.

O novo programa seria uma espécie de impulso no Bolsa Família (que já está no orçamento do governo). O que o mercado viu de tão ruim na proposta do governo é a origem do dinheiro. Segundo o anúncio da equipe econômica, o programa será financiado com dinheiro que seria usado no pagamento de precatórios federais e com recursos do Fundeb (fundo federal de educação básica). 

Ou seja: nada seria cortado, dívidas existentes não seriam pagas e o teto de gastos poderia ser furado, já que despesas com o Fundeb não são consideradas na hora de estabelecer o limite máximo de despesas do governo.

“O que aconteceu ontem era absolutamente evitável”, diz Abbud. “O Brasil tem R$ 6 trilhões de PIB e dívida de R$ 5 trilhões. Hoje se discute R$ 30 bi a R$ 40 bi do Renda Cidadã… A medida não é muito grande proporcionalmente”, afirma o gestor. 

“O problema é a forma como foi feito. Estica daqui, puxa dali, de um jeito que não pega o teto de gastos… Aí realmente o mercado fica inseguro. O Brasil é um país de dívida grande, de muitos problemas, lutando para ser viável. Isso dá um frio no esqueleto. Será que voltamos para a época do Arno Agustin e do Guido Mantega? É tudo que a gente não quer e não precisa”, completa.

O Brasil corre o risco de voltar à era da contabilidade criativa? Na opinião do próprio Abbud, não. “Não são os primeiros R$ 40 bi de R$ 500 bi. O Bolsonaro quer esses R$ 40 bi para o Renda Cidadã apenas. Dá para achar no orçamento, tem solução”, diz. “O que não tem é solução indolor”. 

E a Selic?

Em um passado recente (fevereiro deste ano), Abbud e a Persevera apresentaram sua tese de Selic a 3% ao ano. Eles estavam sozinhos nessa. Na época, a taxa básica de juros estava em 4,5% ao ano e o consenso do mercado era de que ela chegaria no máximo a 4,25% ao ano.

Hoje a taxa está em 2% ao ano e, na opinião de Abbud, deve cair ainda mais, mas a partir do ano que vem, e ficar “muito próximo de zero”.

“O argumento de que só países desenvolvidos podem ter juros baixos não é verdadeiro. Hoje temos 16 emergentes com taxa abaixo de 1% ao ano”, diz o gestor. “O outro argumento, de que países com mais risco devem manter juros altos, também não é verdadeiro, segundo Abbud. O effective lower bound (limite inferior efetivo) não se observa no nível da Selic. Quanto é o risco-país de um dia? É cinco ou dez pontos-base. Então, teoricamente, o Brasil poderia baixar [a Selic] até 0,5%. O Banco Central, portanto, pode sim manter o juro baixo e o mercado se encarrega de, na curva, manter o diferencial de juros condizentes com o risco do país”, completa. 

É claro que o fato de o Brasil não precisar manter os juros altos não significa necessariamente que eles vão cair ainda mais.

Mas Abbud vê bons motivos para isso. “O Brasil vai precisar de mais estímulos. As pessoas físicas e pequenas e médias empresas ainda estão endividadas, ainda não digeriram o endividamento daquele ciclo de consumo do passado. Os Estados Unidos precisaram de 12 anos de juros baixo por isso. Pode parecer esquisito, mas do ponto de vista de fundamentos, o caminho está dado”, resume.