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Florian Bartunek: “20 anos em 2 meses”, o ESG crescerá mais rápido do que todos imaginam

Colunista Convidado: Florian Bartunek é fundador e gestor da Constellation Asset (com R$ 12 bi em ativos sob gestão) e co-autor dos livros Fora da Curva

Florian Bartunek
Florian Bartunek, da Constellation

Colunista Convidado: Florian Bartunek é fundador e gestor da Constellation Asset (responsável por R$ 12 bilhões em ativos sob gestão) e co-autor dos livros da série “Fora da Curva”

Temos visto um crescimento forte na preocupação com ESG (sigla em inglês para Ambiente, Social e Governança). Mas daqui alguns anos, acredito que a sigla ESG vai sumir: não porque o assunto morrerá, longe disso, mas sim porque será uma coisa normal do nosso dia-a-dia. É tipo freio ABS: no passado, freio ABS era divulgado como um grande diferencial em um carro, mas essa preocupação tornou-se tão óbvia que hoje todos os carros têm freio ABS.

Isso não só vai acontecer como eu acredito que a adoção vai ser uma das coisas mais rápidas do mercado brasileiro. Nos últimos 2 meses se criou mais interesse no tema do que nos últimos 2 anos. Atualmente temos todos os nossos R$ 12 bilhões aplicados seguindo métodos de ESG. Outras casas de ações, como JGP e Fama, seguem a mesma filosofia. Hoje somos 3, mas daqui um ano, seremos 30. Daqui dois anos, seremos 100 e daqui três anos, todos.

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Uma hora, isso será tão normal que ninguém vai lembrar que em julho de 2020 estávamos conversando sobre isso.

Por que eu acredito que o mercado vai aderir ao ESG?

1º: Porque isso funciona. Empresas com boas métricas de ESG performam melhor do que empresas sem métricas. Fizemos um “backtesting” de 5 anos atrás pra cá e as empresas ESG tiveram 14% a mais de retorno do que as não-ESG. Isso vai provocar um efeito no “múltiplo” das empresas: aquelas com boas métricas de ESG – e que performarão melhor por isso – vão ficar mais caras, ao passo que o resto ficará mais barato. Mas não é aquele “caro” que você vai querer ficar de fora nem o “barato” que vai te fazer sentir vontade de comprar.

2º: Porque é a coisa certa a fazer. Você terá uma vida melhor e vai gerar consequências melhores para o mundo ao se relacionar com pessoas melhores, que têm uma melhor visão de mundo. O mundo fica mais prazeroso. Para mim, como investidor, é mais gratificante ligar ou visitar uma empresa como a Weg, Localiza, Natura ou Totvs do que empresas que acham que o tema é irrelevante.

3º: Porque vai ter demanda dos clientes. Como os retornos serão melhores, clientes vão se interessar, então muitos gestores vão ter que estudar o tema. Mesmo que o gestor não concorde ou não aplique o ESG, ele terá que dar explicações aos seus clientes. As novas gerações das famílias são muito mais engajadas no tema e tem cada vez mais influência nas decisões de investimento, o que é uma excelente notícia.

Uma vez que você entra no tema, você não sai mais. É algo assustador, temos menos tempo do que pensamos, mas um desafio interessantíssimo: você está deixando de ser parte do problema para tentar ser parte da solução.

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Como fazemos ESG na Constellation

Nós, como investidores, sempre olhamos para o “G” (governança). Ela sempre foi muito importante no mercado financeiro mundial – e principalmente no Brasil. Há 30 anos que eu olho para questões ligadas aos direito de votos dos minoritários, estrutura societária etc.

Já o “S” (social) é relativamente recente. Cobrimos ele por 3 óticas: cliente, colaborador e comunidade.

Cliente: se você tratar mal, vai perdê-lo. Antes, empresas monopolistas podiam “tratar mal” o cliente pois este não tinha alternativas. Mas hoje, com a queda das barreiras de entradas pela inovação tecnológica, existem alternativas muitas vezes melhores e mais baratas. Se antes o taxista podia tratar mal o passageiro, hoje ele tem a concorrência do Uber; se a TV a cabo fazia a “pegadinha da assinatura” com o cliente, hoje o Netflix te dá acesso a vários conteúdos e com uma facilidade muito maior de assinar ou cancelar. No final do dia, você quer ser sócio de uma empresa que te engana ou que te dá liberdade de escolha?

A Renner sempre foi conhecida como encantadora de clientes. A Localiza também tenta encantar o cliente. É mais difícil combate-las pois os clientes são encantados.

Colaboradores: No início dos anos 90, os jovens as vezes eram tratados com desdém no mercado financeiro. Era a cultura da época. Hoje em dia se você manter essas práticas do passado, você vai perder esse jovem e não vai contratar mais ninguém, vai ser conhecido como “o banco/asset dos babacas”. Se você não tratar bem seus colaboradores, você perderá essa vantagem.

O Nubank é um exemplo de uma empresa tradicionalmente inclusiva. Isso faz o Nubank ter uma vantagem comparativa em relação aos seus concorrentes, e ter um colaborador bem tratado e feliz resultará num melhor tratamento do cliente. Você percebe isso na linha telefônica: se o vendedor é bem tratado e está feliz, vai tratar melhor o cliente.

Hoje em dia, ao entrevistar um estagiário ou um jovem para uma vaga, você perceberá que ele não só será entrevistado como também será “entrevistador”. E esse você não estiver de acordo com os padrões que ele acredita, então ele não vai querer trabalhar contigo.

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Comunidade. Vivemos em comunidade, o que significa que não adianta ter uma casa bonita se o seu bairro está degradando, ou não adianta sua empresa estar lucrando se a sua cidade está piorando. É muito difícil existirem empresas ricas em países pobres de uma maneira perene. Você tem que se preocupar com o seu entorno e isso faz toda diferença na percepção dos seus stakeholders. Tratar bem os clientes, funcionários e comunidade reverbera positivamente na missão da sua companhia.

O “E” (Envinorment, ou Ambiental) é novo para nós mas todos os setores vão ser afetados pela mudança climática. Não tem jeito. Você pode ser parte do problema ou parte da solução. Quem for parte do problema vai ter vida dura (mais regulação e taxação) e curta (com o perdão do trocadilho), quem for parte da solução terá um futuro brilhante. Como investidores procuramos empresas que são parte da solução e evitamos empresas que são parte do problema.

Todas as empresas precisam saber o seu impacto no meio ambiente, medir o seu foot print (pegada de carbono) e precisam ter uma atitude em relação a isso.

A letra “E” é a parte mais difícil para o investidor. A Governança você vê nas regras da companhia e no histórico dos colaboradores; o Social você percebe conversando com os funcionários e clientes. Agora, a parte ambiental é muito claro em alguns setores (petróleo, companhias aéreas) e menos material para outras. Uma produtora de commodity tem muito mais relevância no impacto ambiental do que uma empresa do mercado financeiro geralmente.

Só que existem empresas que são fundamentais para a humanidade mas que geram impacto, e uma coisa precisa ser feita. Você não pode fechar a Petrobras hoje, mas pensando daqui uns 5 ou 10 anos alguma coisa precisa ser feita no modelo de negócio da companhia.

A crise do Covid deixou claro que a questão de meio ambiente está totalmente interligada com o setor de saúde. Essa pandemia foi uma crise da natureza e que nos pegou de surpresa. Agora, não poderemos dizer que a crise ambiental nos pegará de surpresa. A crise do meio ambiente vai acontecer e será uma grande crise, então temos que tomar medidas preventivas.

ESG ao alcance de todos

Esta é uma questão complexa até mesmo para nós, investidores profissionais. Está sendo quase como voltar para a escola ou para a faculdade. Se um investidor pessoa física quiser se aprofundar no tema, nós colocamos no nosso site todas as métricas ESG que usamos. Fizemos isso porque essa questão do ESG não é nossa, é do Brasil e do mundo, então quanto mais investidores usarem isso, melhor será pra todos nós.

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Lá tem toda nossa metodologia e como coloca em prática. Tem critérios mais importantes para uma indústria e menos para outra e a partir daí damos uma nota para cada companhia. Esta nota que determinará quais serão as companhias investíveis ou não.

ESG não é moda e o aquecimento global não é uma fábula. Quem não se engajar vai ficar para trás.

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