Publicidade
As tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras podem produzir um efeito político contrário ao esperado pela Casa Branca e favorecer a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Essa é a avaliação publicada nesta quarta-feira (22) pelo jornal norte-americano The Washington Post, que relaciona a disputa comercial ao cenário da eleição presidencial de 2026.
Na análise do jornal, o episódio fortaleceu o discurso adotado pelo Palácio do Planalto desde o anúncio da medida. Em vez de concentrar o debate nos impactos econômicos das tarifas, a campanha de Lula passou a explorar a narrativa de defesa da soberania nacional diante de uma interferência estrangeira.
O cientista político Thomas Traumann afirmou ao Washington Post que esse contexto pode beneficiar o presidente, especialmente se a oposição for associada ao conflito diplomático.
“As tarifas tornaram-se um trunfo político para Lula. Trump é impopular no Brasil, quase metade do país tem uma visão negativa dos EUA e os brasileiros são extremamente sensíveis à ideia de interferência estrangeira”, disse.
Segundo Traumann, o efeito eleitoral dependerá da capacidade do governo de associar o episódio ao principal adversário de Lula.
“Se Lula conseguir convencer os eleitores de que Flávio Bolsonaro é responsável pelas ações da Casa Branca, isso pode ser suficiente para decidir a eleição a seu favor”, afirmou ao jornal.

PoderData: 51% dizem que governo Lula é melhor que o de Bolsonaro
Percepção favorável ao petista é mais forte entre eleitores do Nordeste e de menor renda

As opções do governo Lula para responder ao tarifaço dos Estados Unidos
Governo evita falar em retaliação imediata, prepara medidas de apoio aos exportadores e mantém negociação aberta com Washington
Disputa pela narrativa
A reportagem destaca que o efeito político das tarifas ainda dependerá de quem o eleitor responsabilizar pela deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirmou ao Washington Post que acontecimentos internacionais costumam produzir impacto eleitoral quando a população identifica um responsável político pelo problema.
“Eventos externos podem remodelar a política quando os eleitores identificam um culpado político claro. Uma vez atribuída a responsabilidade, isso tende a afetar a avaliação dos atores envolvidos. Neste momento, há uma boa chance de que o episódio acabe beneficiando Lula novamente”, declarou.
Continua depois da publicidade
A avaliação coincide com a estratégia adotada pelas campanhas desde o anúncio das tarifas. Enquanto o governo atribui a crise comercial à atuação do grupo político ligado a Jair Bolsonaro nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro tenta responsabilizar a política externa e econômica do governo Lula pelo endurecimento da posição americana.
Mudança no cenário eleitoral
O Washington Post também relaciona a disputa comercial à evolução recente das pesquisas de intenção de voto. Segundo a reportagem, levantamentos de dois meses atrás apontavam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. O jornal afirma, porém, que o cenário mudou nas semanas seguintes em razão de uma sequência de episódios que desgastaram o senador.
“Pesquisas realizadas há dois meses mostravam Flávio Bolsonaro e Lula em empate técnico. No entanto, desde então, denúncias ligando Bolsonaro à maior fraude financeira do Brasil, brigas públicas na família e uma reação negativa devido aos seus vínculos com Trump ajudaram Lula a abrir uma vantagem de até oito pontos percentuais”, escreveu o diário americano.
Continua depois da publicidade
A publicação destaca que o embate em torno das tarifas passou a integrar o centro da disputa presidencial, transformando uma decisão de política comercial dos Estados Unidos em um dos principais temas da pré-campanha no Brasil.