Audiência Pública

“Vamos ter em 20 anos uma transição que a França teve em 120”, diz Marcos Lisboa a deputados

Ao final de sua exposição, o economista disse que o Brasil enfrenta o desafio do "país que ficou velho antes de ficar rico" e que são necessárias iniciativas que contribuam na criação de um sistema previdenciário saudável e compatível com a transição demográfica em curso

SÃO PAULO – Em meio a um polêmico debate que se alonga sobre a existência ou não de um déficit na Previdência hoje no Brasil, o economista e presidente do Insper Marcos Lisboa chamou atenção às perspectivas para a Seguridade Social no país ao longo dos próximos anos. Em audiência pública que ocorre na tarde desta terça-feira (28), em comissão especial na Câmara dos Deputados, o ex-secretário de Política Econômica da Fazenda na gestão Antônio Palocci (governo Lula) disse a deputados que a reforma tenta atacar uma “trajetória insustentável” das despesas previdenciárias à medida em que as características demográficas da população brasileira mudam.

“O problema da Previdência não é se ela tem um déficit hoje ou não”, afirmou o economista deixando de lado uma das diversas polêmicas que circulam o debate. “O que está por trás desse debate é a impressionante transição demográfica pela qual o Brasil está passando. Vamos ter uma transição em 20 anos o que a França teve em 120 anos. O Brasil vai começar a encolher na próxima década. Já tivemos nove trabalhadores para cada aposentado. Vamos ter um pouco mais do que dois para um”, complementou.

Ao longo de um discurso que durou cerca de vinte minutos, Lisboa comparou o modelo brasileiro de Previdência com o de outros países e salientou diferenças que considera distorções responsáveis por agravar a trajetória de desequilíbrio das despesas nesta área. Entre tais elementos aparecem a questão da idade mínima para a aposentadoria, hoje inexistente e que segundo ele beneficia as faixas de maior renda dos trabalhadores, assim como a grande quantidade de regimes especiais por profissão.

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Ao final de sua exposição, o economista disse que o Brasil enfrenta o desafio do “país que ficou velho antes de ficar rico” e que são necessárias iniciativas que contribuam na criação de um sistema previdenciário saudável e compatível com a transição demográfica em curso, assim como se discuta o problema da produtividade no país. Lisboa também chamou atenção para as respostas positivas dadas pelo mercado com as reformas adotadas pelo governo Michel Temer e indicadores econômicos que, na sua avaliação, mostram uma interrupção na piora do quadro nacional. Apesar disso, o economista diz que, para que haja melhora, é preciso dar continuidade à agenda fiscal sob o risco de um cenário visto em 2015 se repita. Na ocasião, houve expectativas do mercado por evolução em uma agenda de reformas no governo Dilma Rousseff — com o então ministro da Fazenda Joaquim Levy –, frustradas ao longo do tempo.