Eleições 2022

Sem espaço à esquerda e ameaçado por “voto útil”, Ciro vive encruzilhada eleitoral

Terceiro colocado nas pesquisas sobe o tom contra Lula, mas estratégia é contestada por especialistas; PDT promete manter candidatura

Por  Fábio Matos -

Forjado no embate político ao longo das últimas quatro décadas e muito conhecido pelos brasileiros, Ciro Gomes vive um momento decisivo em sua quarta campanha presidencial. Terceiro colocado na corrida eleitoral, com 9% das intenções de voto de acordo com a pesquisa do Ipespe divulgada no dia 3, muito atrás dos favoritos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), o pré-candidato do PDT ao Planalto enfrenta dificuldades para avançar sobre uma fatia do eleitorado em grande parte já capturada pelo líder petista.

Nos últimos meses, integrantes do PT vêm trabalhando nos bastidores para costurar o apoio do PDT a Lula ainda no primeiro turno, o que aumentaria, teoricamente, as chances de vitória do ex-presidente já em 2 de outubro. A direção pedetista, no entanto, refuta a tese do “voto útil” contra Bolsonaro e insiste em manter Ciro no jogo.

Com uma vasta trajetória na vida pública – foi deputado estadual e federal, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda de Itamar Franco e da Integração Nacional no primeiro mandato de Lula –, Ciro parece viver uma relação de amor e ódio com a esquerda petista.

Além de ter participado do primeiro escalão do governo Lula, fez campanha para Dilma Rousseff no Ceará, sua base eleitoral. Em 2016, mesmo com críticas à gestão da então presidente, foi contra o impeachment, que classificou como “golpe”. Ciro, que é advogado, criticou o ex-juiz Sergio Moro por sua atuação nos julgamentos que levaram Lula à prisão, em 2018.

Por outro lado, a militância petista jamais o perdoou por ter embarcado para a Europa depois do primeiro turno da eleição de 2018, em vez de mergulhar na campanha de Fernando Haddad (PT) contra Bolsonaro. Ciro, que teve mais de 13 milhões de votos (cerca de 12%) e terminou em terceiro lugar, voltou de viagem às vésperas da votação e declarou apoio crítico ao candidato do PT, que acabou derrotado.

Nas últimas semanas, o ex-ministro vem subindo o tom contra Lula em entrevistas e postagens nas redes sociais. Trechos de vídeos com ataques do pré-candidato ao petista viralizaram em grupos bolsonaristas no WhatsApp.

Cada um no seu quadrado

“O problema do Ciro é a estrutura da eleição. Ele é um candidato de centro-esquerda que compete com um ex-presidente no mesmo campo do espectro político-ideológico e que tem uma avaliação retrospectiva muito positiva”, analisa o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, em entrevista ao InfoMoney.

“Cada candidato disputa, basicamente, os votos do seu quadrante ideológico. Não adianta fazer piruetas de um lado para o outro, querer se posicionar ora à esquerda, ora à direita. Esses malabarismos de posicionamento são infrutíferos”, afirma.

Segundo Bruno Soller, estrategista eleitoral e especialista em comunicação política pela George Washington University, a opção da campanha de Ciro pelo confronto com Lula é “completamente errada”.

“O eleitor dele gosta do Lula. O segundo voto do eleitor do Ciro é o Lula. E o segundo voto do eleitor do Lula é o Ciro. Ele não pode brigar diretamente com o Lula. A disputa dele é tentar convencer essas pessoas, tentar trazer esses eleitores, e não desqualificar o Lula”, explica. “A cada momento em que ele se distancia do eleitorado que gosta do Lula, vai se isolando cada vez mais e tem cada vez menos possibilidade de ganhar voto.”

Um exemplo emblemático do caminho escolhido por Ciro é o “debate” para o qual o pré-candidato convidou o comediante Gregório Duvivier – que se transformou em bate-boca no YouTube. A ideia era rebater piadas e críticas feitas por Duvivier a Ciro durante um programa humorístico, no qual o apresentador pediu a seus seguidores que votassem em Lula.

Em 2018, Gregório manifestou apoio a Ciro no primeiro turno. “Ciro teve a chance de falar com um eleitor que já votou nele e hoje vota no Lula. Mas preferiu partir para o enfrentamento. Deveria fazer o contrário, acolher esse eleitor”, aponta Soller.

De acordo com os analistas consultados pelo InfoMoney, as chances de Ciro chegar ao segundo turno são pequenas. “Não é impossível, mas é difícil que ele venha a crescer substancialmente. Ciro já é muito conhecido por boa parte do eleitorado brasileiro. Nesses casos, as intenções de voto já dão conta da opinião razoavelmente consolidada das pessoas a respeito dos candidatos. É diferente de alguém que tem um grau de conhecimento reduzido e alimenta a esperança de crescer”, diz Lavareda.

Soller explica que Ciro corre na raia “vermelha” e disputa com Lula uma vaga no segundo turno por esse campo – e não pelo lado “azul”, ocupado pelo PSDB entre 1994 e 2014 e dominado por Bolsonaro a partir de 2018.

“A maior dificuldade do Ciro é onde ele está posicionado. As candidaturas da chamada terceira via [como Simone Tebet, do MDB] dialogam muito mais com o eleitor que poderia votar no Bolsonaro do que no Lula. O Ciro, não. Ele está no outro flanco, por toda a história e pela construção da persona política dele, e tem como adversário direto o próprio Lula”, afirma. “Ciro precisaria construir uma candidatura que superasse Lula nesse flanco. É muito difícil fazer uma transposição para o outro lado.”

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, ex-ministro do Trabalho nos governos Lula e Dilma, entende que ainda é cedo para cravar que a disputa presidencial ficará restrita a Lula e Bolsonaro. “A experiência nos deixa claro que cada eleição tem suas características, suas diferenças. Não acredito que este quadro se mantenha com a inflação galopante, o desemprego e um governo que não tem o que mostrar. Tanto Lula quanto Bolsonaro estão no teto. Temos muito a crescer”, afirmou ao InfoMoney.

Discurso semelhante foi repetido à reportagem pelo pré-candidato do PDT ao Senado por São Paulo, Aldo Rebelo – também ex-ministro dos governos petistas –, para quem “os processos eleitorais no Brasil são muito voláteis” e “nunca terminam do jeito que começam”.

“O eleitor só vai cuidar de escolher mesmo o seu candidato quando a eleição se aproximar do seu desfecho”, aposta. “É uma eleição que está sendo marcada pela rejeição. [Lula e Bolsonaro] Vão trabalhar para ampliar a rejeição um do outro. A resultante é que a rejeição de ambos acaba aumentando.”

Ex-militante do PDT e candidato a deputado estadual em 2018 e a vereador em 2020, Gabriel Cassiano, também ouvido pelo InfoMoney, migrou para o PSB e hoje defende a união da esquerda em torno da chapa formada por Lula e pelo ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin.

“A partir do momento em que Lula retomou os direitos políticos e o Bolsonaro já estava preparando a escalada de uma intentona golpista, falei para o Ciro que ele não teria chance, que essa polarização seria muito difícil de ser rompida”, relata.

Para Cassiano, o enfrentamento de Ciro ao PT é “um equívoco e uma contradição”. “Ele perdeu essa militância progressista. Na verdade, agora só está semeando o antipetismo e perdendo eleitores que eram dele”, opina. “Em prol do Brasil, ele deveria ter recuado e apoiado Lula. Naquela época, muito antes da entrada do Alckmin no PSB, eu achava que Ciro deveria ser o vice do Lula. Seria o seu sucessor natural.”

PDT resiste a “aborto eleitoral”

Apesar da pressão de lideranças do PT e até de alguns parlamentares da bancada do PDT na Câmara, Carlos Lupi assegura que Ciro não desistirá da campanha. “Nosso partido resiste e resistirá a qualquer tentativa de interferência nas nossas decisões, que já foram tomadas. Ciro representa um projeto para o país. Ele foi o único até o momento que apresentou um projeto com início, meio e fim”, afirmou. “Nunca ninguém do PT me fez qualquer tipo de pressão sobre isso. Acredito que seja uma iniciativa de quem não sabe como agimos”, garante.

Rebelo, por sua vez, avalia que o desejo de petistas de tirar Ciro do páreo mostra que o postulante do PDT ao Planalto é um nome competitivo. “É uma tentativa de fazer uma espécie de aborto eleitoral da nossa candidatura”, critica o ex-presidente da Câmara dos Deputados (2005-2007). “Para evitar que essa alternativa desabroche, desejam eliminá-la. Se eles tivessem certeza de que a candidatura do Ciro não teria futuro e permaneceria nesse patamar, por que fazem tanto esforço para retirá-la?”, indaga Rebelo.

Uma eventual desistência de Ciro da corrida eleitoral, segundo Bruno Soller, poderia despejar no cesto lulista uma quantidade expressiva de votos. “Beneficiaria o Lula, evidentemente. Nesse caso, a grande maioria dos eleitores do Ciro, quando olhasse o cenário, provavelmente iria para o Lula”, calcula.

“No Brasil, há uma expectativa de que talvez ocorra um segundo turno no primeiro. Como não há outras candidaturas que se viabilizem, a tendência é que haja uma polarização direta entre Lula e Bolsonaro. Mas ainda tem muita coisa pela frente. Quatro meses em política é uma eternidade”, ressalta.

Apesar das declarações peremptórias de Lupi, Gabriel Cassiano aposta em outro desfecho e faz um vaticínio: “A candidatura do Ciro não chega até julho. Acho que o PDT vai acabar desistindo dele”. Alheio às especulações, Ciro fez um libelo em defesa de sua candidatura e voltou a criticar Lula em uma série de mensagens publicadas em seu perfil no Twitter, no dia 31 de maio.

“Não há força humana capaz de abalar a disciplinada decisão que eu tenho de dar ao povo brasileiro uma alternativa”, escreveu. As convenções partidárias, que definirão formalmente os nomes dos candidatos, serão realizadas entre os dias 20 de julho e 5 de agosto. Ao fim e ao cabo, o caminho a ser trilhado por Ciro Gomes em meio à encruzilhada pode decidir os rumos da eleição.

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