Falas polêmicas

Bolsonaro demite secretário de Cultura que copiou discurso do nazista Joseph Goebbels

Em entrevista a meios de comunicação, Roberto Alvim negou conhecimento da frase de Goebbels, mas disse que concorda com ela

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Roberto Alvim (Reprodução)

O secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, foi exonerado do cargo pelo governo de Jair Bolsonaro na manhã desta sexta-feira (17) após ter provocado uma forte onda de indignação com vídeo na última quinta-feira (16) em que usa frases de um discurso de Joseph Goebbels, ministro responsável pela propaganda nazista no regime de Adolf Hitler.

Bolsonaro comunicou o desligamento de Alvim e afirmou ter repúdio a ideologias totalitárias e genocidas, além de manifestar seu apoio à comunidade judaica.

O vídeo em questão foi publicado para apresentar o “Prêmio Nacional das Artes”, que financiará projetos culturais em sete categorias diferentes, de óperas a histórias em quadrinhos.

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Em determinado trecho da gravação, Alvim diz: “A arte nacional da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada”.

As frases são semelhantes a um discurso feito por Goebbels, o grande ideólogo da propaganda nazista, para diretores teatrais em Berlim, em 1933.

“A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse Goebbels na ocasião.

O trecho está em uma biografia escrita pelo historiador alemão Peter Longerich e publicada no Brasil em 2014, pela editora Objetiva. O restante do discurso de Alvim é marcado pela retórica nacionalista e pela defesa de uma cultura baseada na “pátria”, na “família”, na “coragem do povo” e em sua “profunda ligação com Deus”.

“As virtudes da fé, da lealdade, do autossacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte”, acrescentou o secretário. Em seu perfil no Facebook, Alvim disse que houve apenas uma “coincidência retórica” entre seu pronunciamento e o discurso de Goebbels.

“Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a arte brasileira, e houve uma coincidência com uma frase de um discurso de Goebbels… Não o citei e jamais o faria”, justificou, acrescentando que a “frase em si é perfeita”.

No Twitter, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmou que o secretário de Cultura “passou de todos os limites”. “É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”, ressaltou. Até o guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, criticou Alvim.

Por meio de nota, Davi Alcolumbre, que também é presidente do Congresso Nacional, disse estar no interior do Amapá, participando da retomada do programa Luz para Todos, e que recebeu a notícia do discurso do secretário, o qual classificou como “acintoso, descabido e infeliz pronunciamento de assombrosa inspiração nazista”.

“Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo. É  totalmente inadmissível, nos tempos atuais, termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda: que se valha do cargo que eventualmente ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação e Propaganda de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade”, criticou o senador.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, também se manifestou sobre o assunto. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade e judaica.”

“É cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça”, escreveu o ex-astrólogo no Facebook. Já a Embaixada da Alemanha no Brasil se manifestou, sem citar o caso explicitamente, em uma nota nas redes sociais. “O período do nacional-socialismo é o capítulo mais sombrio da história alemã, trouxe sofrimento infinito à humanidade. A Alemanha mantém sua responsabilidade. Opomo-nos a qualquer tentativa de banalizar ou mesmo glorificar a era do nacional-socialismo”, diz a mensagem.

A Confederação Israelita do Brasil (Conib), em nota, diz considerar “inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário”. “Goebbels foi um dos principais líderes do regime nazista, que empregou a propaganda e a cultura para deturpar corações e mentes dos alemães e dos aliados nazistas a ponto de cometerem o Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa, entre tantas outras vítimas”, diz o texto.

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Em entrevista a meios de comunicação, Roberto Alvim negou conhecimento da frase de Goebbels, mas disse que concorda com ela. O discurso teria sido escrito em um “brainstorming”, segundo ele. A finalização do texto foi, no entanto, do agora ex-secretário.

(Com Ansa Brasil e Agência Brasil)

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