Revoada tucana: PSDB perde todos os seus vereadores em São Paulo e vê crise aumentar

Os oito vereadores tucanos em exercício na Câmara Municipal de São Paulo anunciaram saída do partido após decisão da executiva de não apoiar a reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB)

Fábio Matos

PSDB, que governou o Brasil entre 1995 e 2002, vive a maior crise de sua história (Foto: Divulgação)

Publicidade

A maior crise da história do PSDB subiu de patamar e vive um novo capítulo. Os oito vereadores do partido na Câmara Municipal de São Paulo anunciaram que estão de saída do ninho tucano e pedirão desfiliação da legenda.

A decisão foi tomada em represália ao posicionamento da executiva municipal do PSDB na capital paulista, comandada pelo ex-senador José Aníbal (SP). Na semana passada, o colegiado decidiu, por 9 votos a 2, rechaçar o apoio à candidatura à reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

A medida desagradou a uma corrente significativa do partido na capital, capitaneada por secretários tucanos do atual governo, que defendem o emedebista sob o argumento de que se trata da continuidade da gestão do ex-prefeito Bruno Covas (eleito em 2020, pelo PSDB, e que tinha Nunes como vice em sua chapa). Covas morreu em 2021.

Continua depois da publicidade

Os oito vereadores tucanos que anunciaram saída do partido são Aurélio Nomura (rumo ao PSD), Rute Costa (para o PL), Sandra Santana (para o MDB), Beto Social (para o Podemos), além de Gilson Barreto, Fábio Riva, João Jorge (todos rumo ao MDB) e Xexéu Trípoli (que ainda não definiu seu destino).

O único representante do PSDB que, em tese, ainda pode permanecer no partido é o atual secretário municipal de Assistência Social da gestão Nunes, Carlos Bezerra Júnior, que está licenciado do mandato parlamentar, mas deve retornar à Câmara na próxima semana para disputar a reeleição. Ele ainda não definiu se fica ou sai do PSDB.

De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vereadores e deputados que desejam concorrer a algum cargo nas eleições de 2024 têm até o dia 5 de abril para trocar de partido sem prejuízo de seus mandatos. Se Bezerra Júnior também deixar o PSDB, o partido ficará sem nenhum representante no Parlamento municipal.

Continua depois da publicidade

Antes da decisão do diretório, o grupo favorável a Nunes já havia divulgado uma carta na qual afirmou que a “forma de manter o PSDB de São Paulo em posição de destaque no cenário municipal é declararmos nosso total apoio à reeleição” do atual prefeito.

PSDB entre Tabata e Matarazzo

Ao romper com Ricardo Nunes e rechaçar o apoio ao atual prefeito, o PSDB agora está diante de duas alternativas para o pleito de outubro: apresentar uma candidatura própria ou apoiar a deputada federal Tabata Amaral (PSB), terceira colocada nas pesquisas de intenção de voto.

Apesar da chance de apoio à Tabata, engrossou nas últimas semanas o coro dos que defendem que o PSDB lance um candidato próprio, atraindo de volta ao partido o ex-vereador Andrea Matarazzo. Em 2020, ele foi candidato a prefeito pelo PSD e obteve apenas 1,55% dos votos (82.743). Caso não tenha candidato à prefeitura, será a primeira vez que isso ocorre em São Paulo desde que o PSDB foi fundado.

Continua depois da publicidade

“O PSDB quer recuperar seu protagonismo. Não podemos deixar que usem nossa legenda para negociar acordos políticos aqui ou ali e não termos protagonismo no processo. Temos de falar, nos posicionar e dizer o que o partido pensa que seria importante para a cidade de São Paulo”, afirmou Aníbal, em entrevista ao InfoMoney. “O Andrea Matarazzo não está no partido, mas voltaria para o PSDB. Se for essa [a escolha], eu espero que isso esteja resolvido nos próximos dias, até porque não temos tanto tempo.”

A maior crise da história

Como mostrou reportagem publicada pelo InfoMoneyo PSDB vive a maior crise de seus quase 40 anos de história. Após polarizar com o PT todas as eleições presidenciais entre 1994 e 2014 (venceu 2 e foi derrotado em 4), a legenda perdeu relevância nacional e ficou fora do segundo turno da disputa pelo Palácio do Planalto em 2018. Na ocasião, o ainda tucano Geraldo Alckmin (hoje no PSB e vice-presidente da República) obteve pouco mais de 5 milhões de votos (4,76%), em um discreto quarto lugar.

Em 2022, após uma guerra fratricida entre João Doria (ex-governador de São Paulo) e Eduardo Leite (hoje governador do Rio Grande do Sul), o PSDB nem sequer lançou candidatura própria. O partido apoiou Simone Tebet (MDB), terceira colocada, com 4,9 milhões de votos (4,16%), que hoje ocupa o Ministério do Planejamento e Orçamento no governo Lula.

Continua depois da publicidade

Desde 2018, ano que marcou consolidação de Jair Bolsonaro como maior antagonista do PT, deixaram o partido nomes como Geraldo Alckmin, Arthur Virgílio Neto (ex-líder do PSDB no Senado, ex-ministro de FHC e ex-prefeito de Manaus) e Xico Graziano (fundador da sigla, ligado a FHC e José Serra).

Também se desfiliaram do PSDB os ex-governadores João Doria e Rodrigo Garcia, além do deputado federal Carlos Sampaio (SP) e da senadora Mara Gabrilli (SP), ambos com destino ao PSD de Gilberto Kassab. Cobiçado pelo PL, de Bolsonaro, para disputar a prefeitura de Curitiba, o ex-governador do Paraná e deputado federal Beto Richa esteve a um passo de deixar o partido, mas recuou após ameaças da direção nacional do PSDB de que reivindicaria seu mandato em caso de saída.

Leia também:

Continua depois da publicidade

Entrevista exclusiva: Lula tenta reproduzir políticas que deram errado no passado, diz Eduardo Leite

Fábio Matos

Jornalista formado pela Cásper Líbero, é pós-graduado em marketing político e propaganda eleitoral pela USP. Trabalhou no site da ESPN, pelo qual foi à China para cobrir a Olimpíada de Pequim, em 2008. Teve passagens por Metrópoles, O Antagonista, iG e Terra, cobrindo política e economia. Como assessor de imprensa, atuou na Câmara dos Deputados e no Ministério da Cultura. É autor dos livros “Dias: a Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960” e “20 Jogos Eternos do São Paulo”