PSDB paulistano decide não apoiar Nunes e fica entre Tabata e candidatura própria

Em reunião do diretório municipal, 9 integrantes foram contrários a apoio ao atual prefeito, que contou com apenas 2 votos favoráveis. Decisão deve levar a uma "debandada" de vereadores tucanos na capital

Fábio Matos

José Aníbal, presidente do diretório municipal do PSDB em São Paulo (Foto: Agência Senado)

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O diretório municipal do PSDB de São Paulo afastou, pelo menos por ora, a possibilidade de o partido apoiar a candidatura à reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB) nas eleições de outubro deste ano.

Reunida na noite de sexta-feira (22), a executiva da legenda na capital paulista decidiu, por maioria de votos, que o PSDB não caminhará ao lado do atual prefeito. Em 2020, quando o tucano Bruno Covas (PSDB) foi eleito, Nunes era o vice na chapa. Ele assumiu o posto máximo da maior cidade do país após a morte de Covas, em 2021.

Dos 15 integrantes da executiva do PSDB em São Paulo, apenas 2 votaram favoravelmente ao apoio a Nunes na eleição. Nove membros foram contrários. Três não participaram da reunião, e o presidente do diretório municipal, o ex-senador José Aníbal, só votaria em caso de empate.

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Ao rechaçar o apoio à reeleição de Nunes, o PSDB desagradou a uma corrente significativa do partido na capital, capitaneada por secretários tucanos do atual governo, que defendem o apoio ao atual prefeito sob o argumento de que se trata da continuidade da gestão Covas. Esta é a opção defendida, inclusive, pelo filho do ex-prefeito, Tomás Covas.

Também há forte resistência no Cidadania, parceiro do PSDB em uma federação partidária e que também tem nomes que fazem parte da atual administração municipal.

Na prática, o PSDB agora está diante de duas alternativas para o pleito de outubro: apresentar uma candidatura própria ou apoiar a deputada federal Tabata Amaral (PSB), terceira colocada nas pesquisas de intenção de voto.

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Apesar da chance de apoio à Tabata, engrossou nas últimas semanas o coro dos que defendem que o PSDB lance um candidato próprio, atraindo de volta ao partido o ex-vereador Andrea Matarazzo. Em 2020, ele foi candidato a prefeito pelo PSD e obteve apenas 1,55% dos votos (82.743). Caso não tenha candidato à prefeitura, será a primeira vez que isso ocorre em São Paulo desde que o PSDB foi fundado.

“O PSDB quer recuperar seu protagonismo. Não podemos deixar que usem nossa legenda para negociar acordos políticos aqui ou ali e não termos protagonismo no processo. Temos de falar, nos posicionar e dizer o que o partido pensa que seria importante para a cidade de São Paulo”, afirmou Aníbal, em entrevista ao InfoMoney. “O Andrea Matarazzo não está no partido, mas voltaria para o PSDB. Se for essa [a escolha], eu espero que isso esteja resolvido nos próximos dias, até porque não temos tanto tempo.”

Racha tucano e debandada de vereadores

Antes da decisão do diretório, o grupo favorável a Nunes divulgou uma carta na qual afirma que a “forma de manter o PSDB de São Paulo em posição de destaque no cenário municipal é declararmos nosso total apoio à reeleição” do atual prefeito.

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Com a decisão majoritária do PSDB paulistano de não apoiar Nunes, deve se consumar uma “debandada” de vereadores tucanos na capital. É possível que até seis dos sete parlamentares eleitos pelo PSDB em 2020 deixem a legenda.

Entre as possíveis baixas, estão os vereadores Aurélio Nomura (que deve ir para o PSD) e Fábio Riva, líder do governo Nunes na Câmara Municipal (cujo destino deve ser o MDB). Rute Costa, Beto do Social, Gilson Barreto e Sandra Santana também podem deixar o PSDB. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vereadores e deputados que desejam concorrer a algum cargo nas eleições de 2024 têm até o dia 5 de abril para trocar de partido sem prejuízo de seus mandatos.

A maior crise da história

Como mostrou reportagem publicada pelo InfoMoney no fim de semana, o PSDB vive a maior crise de seus quase 40 anos de história. Após polarizar com o PT todas as eleições presidenciais entre 1994 e 2014 (venceu 2 e foi derrotado em 4), a legenda perdeu relevância nacional e ficou fora do segundo turno da disputa pelo Palácio do Planalto em 2018. Na ocasião, o ainda tucano Geraldo Alckmin (hoje no PSB e vice-presidente da República) obteve pouco mais de 5 milhões de votos (4,76%), em um discreto quarto lugar.

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Em 2022, após uma guerra fratricida entre João Doria (ex-governador de São Paulo) e Eduardo Leite (hoje governador do Rio Grande do Sul), o PSDB nem sequer lançou candidatura própria. O partido apoiou Simone Tebet (MDB), terceira colocada, com 4,9 milhões de votos (4,16%), que hoje ocupa o Ministério do Planejamento e Orçamento no governo Lula.

Desde 2018, ano que marcou consolidação de Jair Bolsonaro como maior antagonista do PT, deixaram o partido nomes como Geraldo Alckmin, Arthur Virgílio Neto (ex-líder do PSDB no Senado, ex-ministro de FHC e ex-prefeito de Manaus) e Xico Graziano (fundador da sigla, ligado a FHC e José Serra).

Também se desfiliaram do PSDB os ex-governadores João Doria e Rodrigo Garcia, além do deputado federal Carlos Sampaio (SP) e da senadora Mara Gabrilli (SP), ambos com destino ao PSD de Gilberto Kassab. Cobiçado pelo PL, de Bolsonaro, para disputar a prefeitura de Curitiba, o ex-governador do Paraná e deputado federal Beto Richa esteve a um passo de deixar o partido, mas recuou após ameaças da direção nacional do PSDB de que reivindicaria seu mandato em caso de saída.

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Fábio Matos

Jornalista formado pela Cásper Líbero, é pós-graduado em marketing político e propaganda eleitoral pela USP. Trabalhou no site da ESPN, pelo qual foi à China para cobrir a Olimpíada de Pequim, em 2008. Teve passagens por Metrópoles, O Antagonista, iG e Terra, cobrindo política e economia. Como assessor de imprensa, atuou na Câmara dos Deputados e no Ministério da Cultura. É autor dos livros “Dias: a Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960” e “20 Jogos Eternos do São Paulo”