Recordista mundial no X, Musk “vence” duelo com Moraes na rede e insufla bolsonarismo

Pesquisa da Quaest mostra que Alexandre de Moraes e o STF tiveram 68% de menções negativas no X, ante 32% de Elon Musk; estudo da Bites indica crescimento do "ecossistema" bolsonarista nas redes sociais

Fábio Matos

Elon Musk, CEO da Tesla (Gonzalo Fuentes/Reuters)
Elon Musk, CEO da Tesla (Gonzalo Fuentes/Reuters)

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Recordista mundial em número de seguidores na plataforma, o bilionário Elon Musk, dono do X (antigo Twitter), parece ter levado a melhor sobre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no embate que os dois vêm travando desde o último fim de semana nas redes sociais. Ao menos é o que indica um levantamento divulgado, na terça-feira (9), pela Quaest.

De acordo com a pesquisa, o índice de menções negativas ao ministro e ao STF nas redes sociais chegou à marca de 68% – quase 7 de cada 10 usuários. Os comentários críticos a Musk, por sua vez, alcançaram 32%.

Fora do ambiente do X, o panorama se manteve praticamente inalterado, com uma ligeira redução na avaliação negativa de Moraes (para 63%) e um crescimento do percentual dos que criticam Musk (37%).

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Segundo o monitoramento da Quaest, o duelo virtual entre Musk e Moraes registrou, em média, 865 mil menções diárias, alcançando 72 milhões de usuários por dia. Além do próprio X, o instituto reuniu dados de Facebook, Instagram, X, Google, Wikipedia, YouTube e TikTok, entre a meia-noite de domingo (7) e 13 horas de terça-feira (9).

A pesquisa indica, ainda, que o conteúdo das publicações variou de acordo com o posicionamento político-ideológico dos usuários. Entre aqueles que manifestaram apoio ao dono do X, há predominância nas menções à defesa da “liberdade de expressão” e ao combate à “censura”. A maior parte das mensagens pró-Musk orbitam a esfera de influência dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Já no grupo dos que criticaram o empresário, houve um grande número de menções a ameaças à “soberania nacional”, além de repúdio à “propagação de fake news” e à atuação de “milícias digitais”.

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Bolsonarismo é impulsionado por Musk

Um outro levantamento, realizado pela Bites, também aponta um fortalecimento do grupo mais ligado a Jair Bolsonaro no ambiente virtual a partir dos ataques feitos por Elon Musk contra Alexandre de Moraes.

De acordo com o estudo, o dono do X publicou, em média, 62 posts por dia, totalizando 6.170 tweets desde janeiro deste ano. Até quarta-feira (10), Musk havia publicado 12 mensagens mencionando Moraes (@alexandre), com 314 milhões de visualizações entre os 180 milhões de seguidores do bilionário.

O post sobre o ministro do STF que atingiu o maior número de visualizações somou 57,2 milhões de acessos – é o 36º post mais visualizado no perfil de Musk no período. Desde janeiro, a média de visualizações na conta do empresário é de 25,2 milhões.

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Lideranças políticas próximas de Bolsonaro também tem “surfado na onda” da polêmica entre Musk e Alexandre de Moraes. É o caso do deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS), o mais citado pelo dono X em suas postagens.

Van Hattem ganhou visibilidade nas redes e viu sua base de seguidores aumentar, segundo o levantamento da Bites. Desde sexta-feira (5), o deputado conquistou mais 24 mil adeptos em seus perfis no Twitter, no Facebook e no Instagram.

Entre os partidos políticos, aponta a Bites, o PL de Jair Bolsonaro é o que vem obtendo a maior repercussão até o momento. Foram 257 posts, com um alcance de 3,1 milhões de usuários, ante 170 posts do PT, que tiveram 260 mil interações.

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O duelo entre Musk e Alexandre de Moraes ultrapassou as fronteiras do antigo Twitter. A repercussão de um dos posts do bilionário sobre o assunto resultou no maior pico de atenção ao nome de Musk no Brasil em buscas efetuadas no Google em 20 anos, desde 2004. Em média, há 1 milhão de buscas mensais pelo nome do empresário no Google.

Desde o dia 5 de abril, o embate entre o dono do X e o ministro da Suprema Corte brasileira já foi tema de 1,5 mil sites em inglês, com 4,4 mil reportagens publicadas no total.

Elon Musk é o recordista mundial de seguidores no X, com 180 milhões de adeptos. Em segundo lugar, aparece o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama (132 milhões), seguido pelo cantor Justin Bieber (111 milhões) e pelo jogador de futebol Cristiano Ronaldo (110,9 milhões).

Como começou o “duelo”

A polêmica envolvendo Elon Musk e Alexandre de Moraes começou no sábado (6), quando Musk publicou na plataforma mensagens com uma série de críticas ao magistrado e até ameaçou fechar o escritório do X no Brasil.

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“Em breve, o X publicará tudo o que é exigido por Alexandre de Moraes e como essas solicitações violam a legislação brasileira. Esse juiz traiu descarada e repetidamente a Constituição e o povo do Brasil. Ele deveria renunciar ou sofrer impeachment. Vergonha, Alexandre, vergonha”, escreveu Musk em sua conta oficial.

Antes deste ataque, o bilionário já havia escrito que suspenderia as restrições impostas pela Justiça brasileira a diversos perfis na rede. Ele também acusou Moraes de censurar a plataforma e afirmou que o STF praticava “censura agressiva” no país, o que parecia “violar a lei e a vontade do povo do Brasil”.

A reação de Moraes

Horas depois das mensagens de Musk, Moraes incluiu o dono do X no inquérito das milícias digitais, que tramita no STF e investiga a atuação de grupos supostamente antidemocráticos nas redes.

Em sua decisão, divulgada no domingo (7), Moraes afirma ser “inaceitável que qualquer dos representantes das redes sociais, em especial o ex-Twitter, atual ‘X’, desconheçam a instrumentalização criminosa que vem sendo realizada pelas denominadas milícias digitais, na divulgação, propagação e ampliação de práticas ilícitas nas redes sociais”.

“A conduta do X configura, em tese, não só abuso de poder econômico, por tentar impactar de maneira ilegal a opinião pública mas também flagrante induzimento e instigação à manutenção de diversas condutas criminosas praticadas pelas milícias digitais investigadas”, anotou o ministro.

Na sessão de quarta-feira (10) do STF, Moraes comentou o episódio e fez uma diferenciação entre “liberdade de expressão” e “liberdade de agressão”. “Tenho absoluta convicção de que o Supremo Tribunal Federal, a população brasileira e as pessoas de bem sabem que liberdade de expressão não é liberdade de agressão”, afirmou. “Sabem que liberdade de expressão não é liberdade para a proliferação do ódio, do racismo, da misoginia, da homofobia. Sabem que liberdade de expressão não é liberdade de defesa da tirania. Talvez alguns alienígenas não saibam, mas passaram a aprender e tiveram conhecimento da coragem e da seriedade do Poder Judiciário brasileiro.”

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Fábio Matos

Jornalista formado pela Cásper Líbero, é pós-graduado em marketing político e propaganda eleitoral pela USP. Trabalhou no site da ESPN, pelo qual foi à China para cobrir a Olimpíada de Pequim, em 2008. Teve passagens por Metrópoles, O Antagonista, iG e Terra, cobrindo política e economia. Como assessor de imprensa, atuou na Câmara dos Deputados e no Ministério da Cultura. É autor dos livros “Dias: a Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960” e “20 Jogos Eternos do São Paulo”