Quais as 10 principais questões para entender os rumos da economia dos EUA?

Briga política é importante para compreensão do atual momento da maior economia mundial; chances de recessão são altas

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SÃO PAULO – Recessão. Esse é o grande temor que atinge os investidores quando o assunto é a maior economia mundial, os Estados Unidos. Embora o Federal Reserve já tenha sinalizado sua descrença em um quadro recessivo no país, essa não é a visão predominante no mercado.

O investidor que quiser minimizar suas perdas durante o período de incerteza, ou até ganhar com as mesmas, tem de estar atento ao noticiário, aos dados e acontecimentos, para tomar sua melhor decisão. Assim, 10 fatores são primordiais para conseguir compreender esse movimento:

1 – Risco de recessão
Os riscos recessivos estão altos, afirmam economistas e analistas. A situação é negativa e a soma dos fatores produz chances de recessão significativas, porém, ainda longe de serem consensuais entre aqueles envolvidos com economia diariamente, contudo, têm aumentado recentemente.

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“Hoje as chances de uma recessão são maiores atualmente do que dois meses atrás e alcançam 20%. É um risco alto”, lembra Rossano Oltramari, analista-chefe de investimentos da XP Investimentos. “Atualmente esse risco se encontra em 60%”, afirma Antonio César Amarante, economista-chefe da Senso Corretora, com uma visão um pouco mais pessimista que Oltramari.

Amarante mostrou confiança em uma recuperação da economia norte-americana. “Confiamos na volta por cima da economia dos Estados Unidos”, disse. Já para Michael Hanson, Neil Dutta e Ethan Harris, do Bank of America Merrill Lynch, um double dip (recessão pós recuperação) tem possibilidade de 40%, mas também depende do cenário externo, como o europeu

2 – Briga política
A situação econômica não é a única a se apresentar como ruim no momento. A política norte-americana também tem tido suas implicações, com um radicalismo cada vez mais presente entre os dois espectros políticos que tradicionalmente dominam o cenário norte-americano: democratas e republicanos. “Isso tem impedido uma recuperação, os políticos têm que agir em prol dos norte-americanos, mas parecem estar focados apenas nas eleições”, lembra Amarante. Para ele, essa é a principal questão a ser observada por lá.

Fora uma deterioração política que colocara o país em uma grave crise no final de julho, quando a demora para elevar o teto da dívida fizera o país quase passar por um calote. Mesmo com a elevação do teto da dívida, no dia 2 de agosto, o gosto deixado no mercado não foi positivo, culminando no corte do rating de dívida soberana dos Estados Unidos pela agência Standard & Poor’s. 

3 – Mercado de trabalho
Holofotes continuam voltados para o mercado de trabalho dos Estados Unidos, da qual a recuperação norte-americana é fortemente dependente. “O grande problema norte-americano é o desemprego”, afirma Oltramari. O Fed tem, por sua vez, condicionado o bom desempenho da economia à isso, e a dificuldade de reduzir tem desapontado a autoridade norte-americana.

“A taxa de desemprego está em níveis assustadores”, afirma Amarante, lembrando que no início de agosto ela se situava em 9,1%, índice muito elevado para um país que antes da crise de 2008 apresentava taxas que beiravam os 5%. “Isso tem de ser atacado”, completa. O Fomc (Federal Open Market Committee) parece concordar com isso, mas a medida para estimular a economia ainda não foi encontrada pelo comitê. Oltramari lembra que os investidores tem de estar bastante atentos a isso. 

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4 – Indicadores econômicos
Outros dados também têm de ser observados por aqueles que querem tomar proveito da situação. Oltramari lembra do consumo, do qual a economia norte-americana é dependente. “Desde 2008 as pessoas têm consumido menos. E grande parte do PIB (Produto Interno Bruto) é dependente disso”, afirma, atrelando uma aumento do consumo com uma recuperação da economia. 

Já outro ponto a ser observado são os preços do petróleo, lembra Amarante. “Isso serve para que você determine a qualidade de melhora ou não. Atualmente, os elevados preços têm pressionado uma melhora”, disse. Outros dados podem ser observados, lembra os economistas do BofA, embora muitos deles apontem para divergentes. 

5 – Situação dos Estados
Para adicionar complexidade à situação, os vários estados norte-americanos não estão em situação homogênea. Alguns apresentam condições de endividamento melhores ou piores e taxas de desemprego maiores ou menores. Contudo, Amarante é enfático ao afirmar que espera que as agências de classificação de risco reavaliem os ratings de alguns estados.

“Apenas alguns estados tem rating triple AAA”, lembra o economista. Os outros, como a Califórnia, cuja economia é tão relevante que se fosse um país seria uma das maiores economias do mundo, que amarga, pela S&P, o rating A-. Além disso, chama a atenção o alto desemprego em alguns estados norte-americanos, como a própria Califórnia, com 12% de desemprego.

Há uma dificuldade inerente de estabilizar a economia norte-americana como um todo. “Eles devem ter de se adaptar a novas diretrizes e deverão haver cortes no governo federal, complicando a situação”, finaliza Amarante.

6 – Déficit no orçamento
Esses cortes devem ser realizados para reduzir os déficits no orçamento norte-americano, mas ainda há muito a ser feito. Essa é uma questão que continua a preocupar os investidores. Observar a questão, principalmente próximo de um ano eleitoral, é fundamental. Com isso, estímulos ainda são mais difíceis de serem aprovados, já que iriam contra o objetivo de redução.

Uma cifra astronômica, como US$ 129,4 bilhões – o déficit de julho – não é fácil de reduzir, e isso paraliza o que o governo do país pode fazer para sanar os seus problemas. Para melhorar, Amarante propõe uma taxação maior aos mais ricos. “Se isso ocorrer, vai haver uma recuperação mais rápida”, disse. 

7 – Saúde dos bancos
A habilidade do governo de “salvar” o que precisa ser salvo diminuiria, nessa situação. Os bancos, um setor delicado, não poderiam ser mais ajudados caso se seja necessário. Contudo, seriam eles que deveriam ser salvos? Oltramari garante que não. “Os bancos norte-americanos estão saudáveis, estão líquidos”, afirma o analista da XP Investimentos. 

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Não seria de surpreender, porém, se essa situação mudasse em breve, lembra Amarante. “Os bancos dos Estados Unidos estão muito ligados aos títulos europeus. A possibilidade de que quebrem depende da Europa. E eles não podem depender do governo federal como ultimamente”, aponta. A crise de 2008 teve de ter uma interferência direta, para ser sanada, o mesmo não seria possível atualmente, lembra. 

8 – Política monetária
As más notícias, porém, acabam por aí. A política monetária, atualmente, se mostra como uma das coisas mais estáveis atualmente. O próprio Fed garantiu a manutenção da taxa de juros em patamares historicamente baixos até meados de 2013, quando, acredita a instituição, o panorama já vai ter alterado substancialmente a ponto de elevar a taxa. 

Além disso, a expectativa é de que hajam novos programas de estímulo monetário no país, tanto nos moldes dos Quantative Easings já realizados, quanto aumentar a maturação de seus títulos, um programa que já havia sido mencionado pelo mercado anteriormente. 

9 – Yields dos Treasuries
Os títulos do país continuam a apresentar taxas de rendimento baixos, já que os EUA ainda continuam a ser vistos como o maior porto seguro mundial. “Não tem mercado com tanta liquidez”, lembra Amarante. Contudo, os yields também são indicativo de uma crise, uma corrida por um investimento seguro.

O economista fica tranquilo a esse respeito. “Os outros países tem investido em títulos norte-americanos, tentando ajudar o país. O mundo tem dificuldade de encontrar portos seguros para alocar seus recursos”, finaliza. Isso tem garantido o sucesso dos leilões de títulos públicos, que têm tido demanda muito maior do que a oferta. 

10 – Pressões inflacionárias
Se a taxa de juros está em patamares baixos, a expectativa é que a inflação esteja em patamar elevado. Não é o que tem acontecido ultimamente. E mesmo que a inflação esteja em níveis altos, a perspectiva é que ela volte a cair. “As pressões inflacionarias não deverão permanecer no longo prazo. Além disso, a perspetiva é de que haverá uma queda no preço das commodities, o que ajudará na pressão norte-americana”, lembra Amarante. 

Oltramari concorda com essa visão. “A inflação não é um perigo”, finaliza. O risco acerca da economia norte-americana é real e preocupa os investidores, economistas e analistas. Mas não é um fenômeno sem causas, explicações ou impossível de entender. Sendo assim, é também, uma boa oportunidade.