PT evita pauta de costumes e vê caso Master como trunfo em busca do voto evangélico

Temas como aborto e casamento gay ficaram de fora do congresso mais recente da sigla voltado ao público religioso

Agência O Globo

Brasília (DF), 02/02/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da abertura do Ano Judiciário de 2026 do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Brasília (DF), 02/02/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da abertura do Ano Judiciário de 2026 do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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O Partido dos Trabalhadores (PT) optou por deixar de lado pautas de costumes — como aborto e casamento gay — do congresso da legenda voltado ao segmento evangélico. A sigla mira o crescimento do apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta parcela do eleitorado, que esteve majoritariamente com o bolsonarismo nos últimos dois pleitos ao Planalto.

O coordenador nacional do setorial inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, defende que estes são temas em discussão no Congresso Nacional. Segundo ele, há o entendimento de que a gestão de Lula deve, no momento, concentrar esforços em “governar o país”.

— Existem temas centrais para nós, e vamos dialogar com os segmentos religiosos quanto a eles. Pessoas religiosas serão tratadas com respeito pelo PT. Não somos apartados das demandas religiosas. Não é só estratégia, é uma questão de pertencimento — diz Barbosa, que também ressalta a posição da sigla em defesa da ciência.

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A rodada mais recente da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na semana passada, mostra que o senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL) perdeu apoio entre evangélicos, passando de 61% das intenções de voto em um potencial segundo turno contra Lula, em maio, para 52% em junho. O petista teve um resultado inverso: foi de 24% para 31% no segmento.

Barbosa relaciona a alta de Lula no segmento ao desgaste dos evangélicos com o bolsonarismo, sobretudo após a divulgação de mensagens entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Master, nas quais o senador pede dinheiro para o financiamento do filme “Dark horse”.

— Como pode o partido que defende a moral estar envolvido até o pescoço nesse escândalo de corrupção. Também temos os congressos, para dialogarmos da forma mais humana possível. As pessoas estão percebendo que o PT está enraizado nas igrejas. As pessoas estão conhecendo a verdade — diz Gutierres Barbosa.

Carta ao segmento

No início do mês, o PT divulgou uma carta voltada ao eleitorado evangélico na qual cita temas caros ao governo Lula, como programas sociais e a defesa da soberania nacional. O texto, que não toca em pautas controversas como o aborto, foi redigido após o IV Encontro Nacional do Núcleo Evangélico da sigla.

Como parte da estratégia de se aproximar do segmento evangélico, a carta do PT afirma que o presidente Lula sancionou leis que “garantem o direito de livre culto e a criação de igrejas”. Também são citados decretos que reconhecem a música gospel como cultura e patrimônio nacional, além da criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e o Dia Nacional da Marcha para Jesus.

“Os governos do PT nunca se opuseram às igrejas, sempre tiveram uma postura de respeito e de reconhecimento da importância e do papel da Igreja Evangélica”, diz o texto. Na carta, a sigla diz também estimular “a presença ativa das evangélicas e dos evangélicos nos debates públicos, na formulação de propostas e na construção dos caminhos que definirão o futuro do país”. Em outro trecho, o documento diz que o compromisso com “um Brasil mais justo, solidário e inclusivo” não parte “do uso eleitoral da fé” e que “não se deve tirar proveito político de uma coisa sagrada”.

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Na carta, o núcleo evangélico do PT diz defender a “ampliação e aprofundamento” de políticas públicas como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, além de outros programas sociais. O texto afirma ainda que a “defesa da democracia, da justiça social, da reforma agrária, o enfrentamento à fome, a valorização do trabalho, a proteção dos mais vulneráveis fazem parte da mensagem de Jesus”. Também consta no documento a defesa do fim da escala 6×1.

A carta volta-se também para a pauta da segurança pública e diz defender políticas capazes de enfrentar o crime organizado e proteger famílias. É dado destaque ao combate à violência contra a mulher, que é tratado como tema a ser abordado no plano de governo do candidato petista. A carta defende a “ampliação das políticas públicas voltadas a saúde integral da mulher, enfrentamento à violência e que tenha como foco em seu cuidado e acolhimento em relação à sua saúde física e mental”.

O documento também faz menção à defesa da soberania nacional, tema que tem sido uma das apostas do governo Lula para se contrapor ao senador Flávio Bolsonaro e ao governo do presidente americano Donald Trump. “A soberania fortalece a capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino, proteger seus recursos estratégicos e construir um projeto de desenvolvimento comprometido com a justiça social e o bem comum”, diz a carta.

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