PF vê “mesada” de Vorcaro a Ciro Nogueira e uso do mandato em favor do Master

Conversas apreendidas indicam repasses mensais ao senador e atuação em proposta que ampliaria negócios do banco investigado

Marina Verenicz

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Mensagens obtidas pela Polícia Federal nos celulares de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, colocaram o senador Ciro Nogueira (PP-PI) no centro de uma nova frente da Operação Compliance Zero.

Segundo documentos revelados pelo g1, investigadores identificaram indícios de pagamentos mensais recorrentes ao parlamentar e suspeitam de uso do mandato para beneficiar interesses do banco.

As conversas fazem parte da quinta fase da operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação apura um esquema bilionário envolvendo supostas fraudes financeiras, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e manipulação de mercado ligados ao Banco Master.

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O foco mais recente da PF recai sobre a relação entre empresas da família Vorcaro e a CNLF Empreendimentos, veículo patrimonial ligado à família de Ciro Nogueira. Segundo os investigadores, mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seu primo e operador financeiro, Felipe Vorcaro, descrevem uma estrutura de repasses periódicos associada à chamada “parceria BRGD/CNLF”.

Em um dos diálogos citados pela investigação, Felipe relata dificuldades para manter os pagamentos diante do aumento dos valores destinados ao “parceiro brgd”. Em outra conversa, Daniel cobra atrasos nos repasses destinados a “Ciro”. A resposta do operador chamou atenção dos investigadores: “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, sugerindo negociações sobre o valor mensal das transferências.

A PF suspeita que os pagamentos estariam associados a interesses legislativos do Banco Master dentro do Congresso Nacional. Um dos principais pontos analisados envolve a emenda nº 11 à PEC 65/2023, apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024.

A proposta ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por depositante. Segundo a investigação, o texto teria sido produzido pela própria assessoria do Banco Master e entregue ao senador.

Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro reforçam a suspeita dos investigadores. Após a apresentação da emenda, o banqueiro teria afirmado que a proposta “saiu exatamente como mandei”. Integrantes do banco também teriam calculado internamente que a mudança poderia “sextuplicar” os negócios da instituição.

Além da atuação parlamentar, a PF apura operações societárias consideradas suspeitas. Uma delas envolve a compra de 30% da Green Investimentos S.A. pela CNLF Empreendimentos por R$ 1 milhão. A empresa é formalmente administrada por Raimundo Neto, irmão do senador.

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As provas reunidas pela investigação levaram o STF a determinar medidas cautelares contra empresas e pessoas ligadas ao caso. A operação também mira Felipe Vorcaro, apontado pelos investigadores como operador financeiro do esquema.

A Operação Compliance Zero ganhou escala após a PF identificar supostas emissões de títulos de crédito falsos e estruturas financeiras sem mecanismos adequados de controle interno. O nome da operação faz referência justamente à ausência de sistemas de compliance capazes de evitar práticas ilícitas dentro das instituições investigadas.