PCC e CV terroristas criam cenário de “enfrentamento entre Estados”, diz cientista

Para Bruno Soller, enquadrar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas muda a lógica do combate e aproxima o país de uma estratégia defendida por Donald Trump

Marina Verenicz

Mapa de Risco - Reprodução
Mapa de Risco - Reprodução

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A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas vai além do combate ao crime organizado.

Na prática, ela insere o Brasil em uma agenda geopolítica que vem sendo construída por Washington e cujo objetivo é ampliar o enfrentamento a grupos criminosos na América Latina por meio de instrumentos tradicionalmente reservados ao combate ao terrorismo.

A avaliação foi feita pelo cientista político Bruno Soller, durante participação do Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, que tratou das eleições na Colômbia, onde o tema da segurança pública domina o debate eleitoral.

A medida, anunciada pelo governo de Donald Trump, ocorre em um momento em que a segurança pública avança para o topo das preocupações dos eleitores em diversos países da América Latina. Mais do que uma discussão jurídica, a classificação das facções brasileiras passa a influenciar o debate político interno e amplia a pressão sobre o governo brasileiro para definir como pretende lidar com o tema.

Soller observou que a ofensiva americana contra organizações criminosas já vinha sendo articulada há meses e não se limitava ao Brasil.

“O Trump tem dito em todos os lugares que ele vai fazer um enfrentamento contra o crime organizado. Falou isso no México, contra os cartéis mexicanos, falou isso na Colômbia, contra as FARC e os novos cartéis colombianos. Inclusive colocando na mesma altura de Al-Qaeda e de outros grupos terroristas. E uma das discussões que ele tem tido com o Lula é justamente sobre colocar ou não organizações criminosas brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, também nesse rol de organizações terroristas.”

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A decisão dos EUA transforma em realidade uma agenda que vinha sendo defendida pela Casa Branca em toda a América Latina. O movimento aproxima o tratamento dado às facções brasileiras daquele adotado para organizações consideradas ameaças à segurança internacional, ampliando o alcance político e diplomático do tema.

A principal mudança, segundo Soller, está na forma como o crime organizado passa a ser interpretado pelos Estados.

Tradicionalmente, facções criminosas são tratadas como um problema de segurança pública e repressão policial. Ao serem enquadradas como organizações terroristas, passam a integrar uma lógica mais próxima da segurança nacional e das relações internacionais.

“Isso muda a classificação do ponto de vista do combate. Quando você está falando que é uma organização terrorista, é praticamente um enfrentamento entre Estados. É o que acontece com a visão que você tem do Hamas hoje, em que você teve uma guerra de um Estado contra uma organização. É um pouco nesse sentido.”

A declaração ajuda a explicar por que a medida despertou preocupação em Brasília. O enquadramento amplia as possibilidades de cooperação internacional, cria novas pressões diplomáticas e fortalece discursos que defendem respostas mais duras ao avanço das facções.

Uma agenda que atravessa fronteiras

A discussão não surgiu no Brasil. Durante a análise das eleições colombianas, Soller destacou que a segurança pública se tornou um dos principais temas políticos da América Latina, impulsionada pelo crescimento do crime organizado, pela sensação de impunidade e pelo desgaste das instituições em diversos países.

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Na avaliação do cientista político, o debate atual reproduz um fenômeno regional em que governos e candidatos são pressionados a apresentar respostas mais contundentes para problemas relacionados à violência.

“As pessoas querem alguma resposta à questão da segurança pública. Essa resposta passa não só pelo enfrentamento militar da segurança pública, mas pelo enfrentamento jurídico da segurança pública. Há um senso de injustiça nesses países, há um senso de impunidade nesses países, e é para esse caminho que a gente vai ter confrontos de posicionamento nas eleições brasileiras.”

A ascensão do tema ajuda a explicar o crescimento de lideranças que transformaram a segurança em uma de suas principais bandeiras eleitorais, como ocorreu recentemente em países como El Salvador e Argentina.

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O impacto sobre a política brasileira

No Brasil, a decisão dos Estados Unidos tende a reforçar uma pauta já explorada por setores da oposição e por pré-candidatos que defendem o endurecimento das políticas de combate ao crime.

Soller cita diretamente nomes como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o senador Flávio Bolsonaro, que vêm associando suas propostas eleitorais à defesa de medidas mais rigorosas na área de segurança.

“Uma das candidaturas à Presidência da República do Ronaldo Caiado é inteira calcada na pauta da segurança pública. Até porque ele fez um trabalho de sucesso em Goiás. E a gente vê o Flávio Bolsonaro também falando em diminuição da maioridade penal, que é o que está sendo discutido na Argentina. Existe uma conexão ali.”

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Ao mesmo tempo, o governo Lula busca enfatizar ações de inteligência, combate financeiro às organizações criminosas e cooperação institucional. O desafio é que parte significativa do eleitorado associa segurança pública a questões mais imediatas, como violência urbana, roubos e sensação de insegurança.

A influência de Washington no debate de 2026

A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas mostra como uma agenda formulada em Washington passou a influenciar diretamente o debate político brasileiro.

Embora a política de segurança continue sendo uma atribuição dos governos nacionais, o avanço da estratégia americana tende a ampliar a pressão sobre candidatos e autoridades brasileiras para que apresentem posições mais claras sobre o combate ao crime organizado.

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Na avaliação de Soller, a tendência é que o tema permaneça no centro da disputa eleitoral. “Enquanto ficar se prometendo discussão só e não resolução, o tema segurança pública vai estar em alta nessa eleição. E este é um problema para o governo Lula.”