Análise

Paulo Guedes teve vitórias técnicas e tropeços políticos na CCJ, dizem analistas

Quatro especialistas comentam o saldo do primeiro grande teste do ministro na Câmara dos Deputados

SÃO PAULO – A participação do ministro Paulo Guedes (Economia) em audiência pública realizada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da Câmara dos Deputados na última quarta-feira (4) teve bons momentos de defesa técnica da reforma política e uma nova exposição de vulnerabilidades políticas do governo Jair Bolsonaro no Congresso Nacional.

É o que avaliam analistas políticos sobre a sessão que durou mais de seis horas e foi encerrada com uma nova confusão entre o ministro e a oposição, após o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) chamá-lo de “tigrão” para cortar benefícios de pobres e “tchutchuca” para tirar privilégios.

Por um lado, dizem os especialistas, o ministro teve bons momentos na exposição de justificativas para a necessidade de se alterar o atual sistema de aposentadorias e na defesa do modelo proposto pela equipe econômica.

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Por outro, a falta de compromisso de parlamentares para proteger Guedes de ataques ressaltou a fragilidade da base do governo no parlamento, desafio ainda a ser superado ao longo da complexa tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição).

Veja os apontamentos de 4 analistas políticos sobre o evento:

Richard Back, chefe de análise política da XP Investimentos
O tumulto que marcou o fim da participação do ministro Paulo Guedes na CCJ da Câmara ontem mostrou que o governo não tem uma tropa de choque para fazer frente às manobras da oposição, mas também não teve resultado negativo ou positivo para a contagem de votos da aprovação da reforma da Previdência. Os dois lados passaram seus recados.

É normal ministros serem duramente atacados nestas sabatinas, especialmente na Câmara. O centrão não ir é reflexo do acordo que recém começa a ser alinhavado entre governo e Câmara. Como ainda não há base formal, não há portanto quem defenda Guedes ou qualquer outro ministro do governo.

O fato de os parlamentares do centrão não terem atacado o ministro na CCJ é sinal de uma boa vontade diante do início de esforço do governo em buscar um caminho para uma articulação política.

Não é muito adequado observar a participação de Guedes como vitória ou derrota. No mercado, no que interessa, que são os votos para a reforma da Previdência, não houve nenhuma alteração. O PT não ganhou votos, e Paulo Guedes, por mais que tenha tido momentos positivos, também não ganhou votos.

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Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores
Ao encerrar a sua participação na primeira audiência na Câmara aos berros com um parlamentar, Paulo Guedes jogou água no moinho dos que acham que ele não tem condições de assumir o papel de principal articulador da reforma da previdência junto ao Congresso.

Se Guedes fosse apenas o Ministro da Fazenda, a exasperação com o petista e com outros deputados da oposição causaria menos barulho e questionamentos a respeito do futuro da reforma da previdência.

Enfim, o desempenho de Guedes na CCJ colocou em xeque a sua dupla função, de ser, ao mesmo tempo, ministro da Economia e articulador político. Mas em nada alterou as perspectivas para a reforma da previdência.

Quantos votos a reforma perdeu porque Guedes bateu boca com Zeca Dirceu? A tramitação será mais lenta ainda? A reforma ficará mais aguada? Respostas: 1) muito provavelmente, nenhum. Talvez a discussão tenha até rendido alguns votos para a previdência; 2) não; 3) não.

Seria bem diferente se o entrevero tivesse ocorrido com um deputado do tal bloco da maioria, uma espécie de centrão ampliado pela adesão do PSDB. Teria sido desastroso, por exemplo, se entrevero tivesse ocorrido com Aguinaldo Ribeiro, o líder do bloco da maioria.

A “maioria” não confrontou Paulo Guedes. Contudo, é preciso notar que o deixaram exposto à artilharia da oposição. Os representantes da “maioria” na CCJ decidiram deixar os deputados de oposição ocuparem os primeiros lugares da lista para arguição ao ministro. Se fizessem parte da base governista, certamente teriam comparecido mais cedo e evitado a manobra mais do que previsível da oposição.

Foi mais uma demonstração de força da “maioria”. Além disso, bloco reforçou o recado de que detém o controle sobre a reforma da previdência. A “maioria” determinará a velocidade da tramitação e o conteúdo final da reforma.

Ao mesmo tempo, ficou subentendido nas entrelinhas do recado, que tudo seria mais tranquilo, mais rápido e mais produtivo se a “maioria” fizesse parte da base do governo, se fossem parceiros de Bolsonaro “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza” – para usar o tipo de metáfora muito empregado por Bolsonaro.

Em conclusão, o futuro da previdência depende mesmo é do que acontecerá amanhã no encontro de Bolsonaro com alguns líderes importantes da “maioria”. Em menor grau, depende também de como a “maioria” será tratada por bolsonaristas nas redes sociais, especialmente por aqueles muito próximos a Bolsonaro. Será novamente chamada, de maneira explícita ou dissimulada, de chantagista? Ou serão considerados parceiros para a enfrentar o PT e esquerda, como ocorreu no segundo turno da eleição?

Carlos Eduardo Borenstein, analista político da Arko Advice
Dentro da explicação técnica da proposta da reforma, Paulo Guedes foi bem, mas o que aconteceu foi que ele enfrentou um ambiente adverso do ponto de vista político, porque parte importante da base optou por não se expor na comissão. Isso abriu espaço para parlamentares da oposição lançarem mão de uma série de discursos políticos, de retórica, para tentar tirá-lo do sério e desgastá-lo. Mas, de um modo geral, ele se saiu bem. Eu atribuiria essa ausência da base à própria reunião que Bolsonaro terá hoje com os partidos do “centrão”. Verificou-se que eles procuraram valorizar seu passe.

Leopoldo Vieira, analista político da Idealpolitik
Na reunião com a CCJ da Câmara, Guedes foi ideologicamente muito bem e provou novamente a qualidade técnica da versão encaminhada. O problema é que, para muitos deputados, não está em jogo de fato a reforma da Previdência, mas cargos e recursos.

Se Guedes estivesse a falar com seus alunos, teria sido um show, mas sendo com deputados, ele comprometeu relações. Num discurso antiestablishment 100% alinhado ao Bolsonaro, ele bateu boca com parlamentares e os provocou, questionou a aposentadoria deles, prometeu taxar-lhes as fortunas e cunhou a máxima: “É preciso de gente da qualidade do deputado para gerir os fundos de previdência” , numa clara ironia durante uma discussão sobre o regime de capitalização.

A atenção deve estar toda voltada para o encontro de Bolsonaro com o Centrão e o MDB. Eles devem cobrar respeito aos deputados. Havia muita esperança que Guedes convencesse Bolsonaro a negociar. E claramente não é uma questão apenas de trato, senão já não se falaria nos corredores sobre alternativas para a cadeira presidencial.

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