Fogo amigo

Para ex-ministro de Lula e aliado, Brasil vive frustração com Dilma, mas ela deve ficar

"Dilma não tem na testa o estigma da desonestidade. Eu não gosto do governo da Dilma, mas também não gosto do oportunismo", disse Miro Teixeira à Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – Ex-ministro das Comunicações durante parte do começo do governo Lula, o experiente deputado federal Miro Teixeira (Pros-RJ) não esconde sua insatisfação com a atual gestão de Dilma Rousseff, mesmo fazendo parte da base aliada da presidente. Entretanto, ele não concorda com as ilações sobre seu possível afastamento por conta dos desdobramentos das investigações sobre suas contas eleitorais no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ou de sua gestão em 2014, pelo TCU (Tribunal de Contas da União).

“Não existe elemento de qualquer espécie que indique violação da lei que define crimes de responsabilidade. Consequentemente, não há possibilidade de se iniciar um processo de impeachment. Eu digo peremptoriamente, não há possibilidade”, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo desta segunda-feira (20). “Se você não tem o conhecimento da ilegalidade da origem, você não é responsabilizado como candidato”, argumentou o parlamentar.

Para Miro, a interrupção do mandato de Dilma não acontecerá. “Dilma não tem na testa o estigma da desonestidade. Eu não gosto do governo da Dilma, penso que é uma frustração o que o Brasil está vivendo. Mas também não gosto do oportunismo, como isso é tratado, porque faz mal ao país”, disse.

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A mesma avaliação sobre afastamento pode não valer para o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O parlamentar formalizou, na última sexta-feira (17), ruptura com o governo. A decisão de passar para o lado da oposição do jogo político ocorreu após delação de Júlio Camargo, ex-consultor da Toyo Setal, apontar para a pressão do deputado pelo recebimento de US$ 5 milhões em propina. Para o peemedebista, o episódio teria contado com mão decisiva do Planalto.

As acusações dificultam o cenário para Cunha na Câmara e Miro vê possibilidades de o parlamentar chegar à mesma situação que Severino Cavalcanti, ex-presidente da casa cassado após denúncias de escândalo de corrupção. “Enquanto houver acusações contra ele, a ele deve ser dado todo o direito de defesa. Definida a responsabilidade penal, eu penso que ele deve ser afastado da presidência da Câmara, em primeiro lugar. Mas seria útil se ele renunciasse ao mandato”, observou. “A questão é a convicção política da impossibilidade de continuar. Assim como Severino Cavalcanti, que não tinha condição de continuar presidente da Casa”, continuou.

Quando questionado se o Brasil chegou ao seu pior momento, em meio a tantas denúncias e descobertas de esquemas de corrupção, Miro disse que o país sai mais forte após todos esses episódios. O mesmo, em sua avaliação, pode ocorrer no caso do Congresso, se as duas casas não virarem “cúmplices” das irregularidades cometidas. “As suspeições surgem da apuração que a democracia permite dos fatos. Isso indica que estamos caminhando para bons momentos. Os piores momentos são os da prática da corrupção. Da revelação, não. Da apuração, não. Da punição, não”, explicou.