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Os ingredientes complicadores para uma nova crise política (e por que Temer segue otimista)

Tensão política aumentou com confusão sobre delação de Lúcio Funaro, mas Temer segue acreditando que superará a segunda denúncia

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SÃO PAULO – A votação da segunda denúncia contra Michel Temer ganhou ingredientes complicadores para o presidente no final de semana: a revelação de gravações da delação de Lúcio Funaro, prestado no fim de agosto, e seus desdobramentos.

Nas gravações, divulgadas na última sexta-feira pelo jornal Folha de S. Paulo, Funaro diz que o ex-deputado Eduardo Cunha recebia dinheiro de propina e repassava valores ao presidente Michel Temer. Funaro também relata que buscou com o ex-assessor especial do presidente Temer, José Yunes, um pacote com dinheiro e afirmou que Yunes tinha conhecimento do conteúdo entregue. 

A defesa do presidente Michel Temer criticou a divulgação dos vídeos com depoimentos da delação premiada do doleiro Lúcio Funaro à Procuradoria-Geral da República (PGR). Em nota, o advogado Eduardo Carnelós diz que o vazamento é “criminoso” e foi produzido por quem pretende “insistir na criação de grave crise política no país”. O advogado de Temer também afirma que as declarações de Funaro são “vazias” e “sem fundamento”. Contudo, o vídeo também está disponível na Câmara dos Deputados e o ataque do advogado irritou Rodrigo Maia (DEM-RJ) – o que abriu mais um flanco da crise. 

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Maia chamou Carnelós de “incompetente” e “irresponsável” e afirmou que “houve uma perplexidade muito grande ver o advogado do presidente da República, depois de tudo que fiz pelo presidente, da agenda que construí com ele, de toda defesa que fiz na primeira denúncia, ser tratado de forma absurda e – vamos chamar assim – sem nenhum tipo de prova, de criminoso.” 

Conforme aponta o jornal O Estado de S. Paulo, para interlocutores do Palácio do Planalto, a medida foi vista como mais uma ação de Maia para tentar constranger o governo e mostrar descolamento do presidente. O governo avalia que o deputado não tinha a obrigação de colocar os vídeos no site da Câmara.

O clima de tensão entre Temer e Maia já havia subido em razão do episódio do “assédio” a parlamentares do PSB e, na semana passada,  houve mais problemas. Maia, em desacordo com o Planalto, abriu a sessão da Câmara para votar a Medida Provisória sobre acordos de leniência de bancos. A base, porém, não apareceu na votação por articulação do governo, que tinha pressa em votar o relatório pelo arquivamento da segunda denúncia. Maia, então, sentiu-se derrotado e acusou o Planalto de não ter prioridade em suas pautas.  Além disso, informa o jornal, o pé atrás do Planalto com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, elevou depois de relatos de que Maia participou de jantar na companhia dos senadores Renan Calheiros e Kátia Abreu, os maiores críticos do presidente Temer no PMDB. 

Neste cenário, aponta o Estadão, a desconfiança só tem crescido e, para o governo, parlamentares que se dizem indecisos poderão aproveitar o impacto dos vídeos para fazer novas cobranças ao Planalto. A avaliação é de que isso poderia aumentar o impacto dos apoios, mas não inviabilizar o arquivamento da denúncia. Soma-se a isso a operação da Polícia Federal nesta segunda, que cumpre mandado de busca e apreensão no gabinete do deputado Lúcio Vieira Lima, irmão de Geddel e aliado de Temer (veja mais clicando aqui). 

Contudo, em contraponto ao tom geral do noticiário político, o Valor Econômico traz coluna de Raymundo Costa dizendo que Temer vê chances de eleger seu sucessor, explorando os números da economia. Para viabilizar estratégia, governo ainda contaria com reforma da Previdência. Mesmo com a tensão gerada pelo vazamento da delação do doleiro Lúcio Funaro, Temer deve vencer na votação da 2ª denúncia, que é considerada pelo governo mais fraca que a primeira, diz o Valor. A expectativa é mesmo que Temer consiga vencer também o segundo round – mas a um custo muito alto.