Sem complacência

Os dois motivos para os investidores se preocuparem com a eleição de 2018, segundo o FT

O Ibovespa atinge máximas, mas há razões para ter cautela, aponta o jornal britânico 

SÃO PAULO – O Ibovespa tem engatado movimentos muito expressivos de alta, o que vem gerando ânimo sobre novas altas do índice (com previsões até de que o Ibovespa chegue aos 100 mil pontos – veja mais clicando aqui) ou ceticismo ao apontar que o benchmark da bolsa brasileira já subiu demais. O Financial Times, por exemplo, fica com a segunda opção. Eles apontam que os investidores estão repercutindo positivamente o cenário externo benigno e a recuperação da economia nacional, além do cenário de reformas estruturantes que está sendo desenhado, mas há muita complacência do mercado. 

Para o jornal britânico, a caminhada está sendo tão positiva que alguns investidores estão começando a se convencer de que o próximo presidente, não importa quem seja, continuará o cenário de reformas que ainda precisam ser feitas (ainda mais levando em conta que a reforma da previdência dificilmente passará neste governo ou, se passar, será muito “enxuta”). 

Porém, o Financial Times aponta para dois riscos ao cenário benigno com as eleições. Em primeiro lugar, “ninguém tem a menor ideia de quem será o próximo presidente”, afirmando que a projeção do deputado Jair Bolsonaro mostra o quão extenso é o vácuo político.

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Além disso, apesar de ser ainda muito cedo para tirar conclusões, os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de opinião são o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, em seguida, Bolsonaro. Vale ressaltar que o parlamentar já foi citado anteriormente pela publicação como o mais provável sucessor de Michel Temer, avaliando que a “esperança dos investidores”, que precificam a perfeição, “não passam de um sonho”, já que o cenário para as reformas é muito complicado. 

De acordo com o jornal, o mais preocupante para os mercados seria o retorno de Lula, mas ponderam que ele foi condenado por corrupção e será impedido de concorrer se tiver sua sentença confirmada em segunda instância (mas há controvérsias sobre o assunto, como você ver aqui). Além disso, as pesquisas mostram que mais eleitores o rejeitam do que o aprovam.

Já Bolsonaro é visto pelos mercados como uma pessoa muito controversa e que geraria grandes divisões sociais que seriam um obstáculo para que ele seja um bom presidente. De acordo, com a publicação, os investidores estariam mais confortáveis com o prefeito de São Paulo, João Doria, um político recém-chegado, com perfil semelhante ao do bilionário ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg. “Mas Doria é inexperiente e pouco conhecido fora de sua cidade. Geraldo Alckmin [preferido para ser escolhido pelo PSDB], entretanto, é visto como um político da velha guarda em uma eleição em que os eleitores devem rejeitar o establishment político”, aponta o FT.

O jornal britânico ainda faz uma lembrança, de que esses são apenas os candidatos conhecidos – mais nomes podem emergir, de banqueiros a apresentadores de televisão e ex-ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), que podem roubar a cena. 

O segundo problema é que os brasileiros tradicionamente favorecem eleitoralmente governos grandes e que estendem os benefícios sociais. “Candidatos populistas que prometem reverter a recessão com programas que geram gastos podem ir bem. Por outro lado, candidatos que falam em cortar benefícios da previdência e expandir as privatizações podem ganhar o mercado, mas perdem as eleições”, afirma a publicação britânica. 

“Os investidores provavelmente não terão que se preocupar até depois do carnaval, que acontece em fevereiro do próximo ano. Será a partir daí que a campanha realmente começará. Mas eles podem fazer bem em lembrar que o nome do meio de Bolsonaro é ‘Messias’. Enquanto se espera que os eleitores brasileiros estejam maduros o suficiente para não cair completamente em uma civilização messiânica, a responsabilidade fiscal e econômica pode ser uma venda mais difícil do que muitos investidores esperam”, conclui a publicação.