Análise

Os 4 fatores que podem encolher a base de Michel Temer e ameaçar as reformas

No papel, a base do governo conta com 65% dos 513 deputados federais. Mas, na prática, a teoria é outra

SÃO PAULO – O presidente Michel Temer deve derrubar sem maiores dificuldades, no plenário da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, a segunda denúncia apresentada pela PGR (Procuradoria Geral da República), pelos crimes de organização criminosa e obstrução à Justiça. As expectativas, contudo, são de uma menor disposição dos parlamentares em manifestar voto contra a peça, o que deve se traduzir em um placar menos elástico a favor do governo. Apesar de favas contadas, a votação será importante para dar a real dimensão da base aliada.

No papel, a base do governo Michel Temer conta com 65% dos 513 deputados federais. Mas na prática sabe-se que as coisas não funcionam assim. Na votação da primeira denúncia contra o peemedebista, o governo conquistou 263 votos pela rejeição da peça, contra 227 votos favoráveis. Levando-se em consideração as duas abstenções e 20 ausências registradas, a indisciplina da base foi pouco superior a 25%. E tudo indica que esse percentual crescerá nesta quarta-feira.

Para o analista político Vítor Oliveira, diretor da consultoria Pulso Público, quatro fatores de risco apontam para uma redução na gordura do governo nesta votação. São eles:

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1) A proximidade maior com 2018 e a toxicidade eleitoral de Temer aos políticos e partidos mais expostos à competição partidária nacional e estadual, em eleição majoritária, e nos grandes centros urbanos, em disputas proporcionais;

2) O desgaste no relacionamento com partidos da base, em especial com o Democratas, de Rodrigo Maia;

3) A rejeição a Eliseu Padilha e a Moreira Franco entre deputados;

4) O maior desequilíbrio na composição dos ministérios, com o controle expressivo de cargos por partidos da Base que não apoiaram Temer na primeira denúncia.

“No cenário mais provável, em que não há novos elementos além dos atuais, avaliamos um aumento da defecção média (votos ‘não’) na base de Temer, para 30%, considerando PSB, Podemos, PV e PPS como partidos fora deste grupo, mas mantendo o PSDB na situação”, projetou Oliveira.

O especialista acredita que a tendência é que a abstenção cresça entre os aliados, em detrimento de eventual conversão de antigos votos favoráveis em posições contrárias ao peemedebista, tendo em vista a menor pressão externa e cobertura midiática em comparação com o processo anterior. Ele estima que o apoio ao governo chegue a 230, entre votos ‘sim’ ao arquivamento, abstenções e ausências. Se tal cenário se confirmar, seria uma desidratação de 33 votos da base.

Vice-líder do PMDB na casa, o deputado Carlos Marun (MS) afirmou que três fatores dão a certeza da vitória do governo: a fragilidade da denúncia, as investigações envolvendo a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista que amparam a denúncia do ex-procurador-geral Rodrigo Janot e a recuperação da economia. Para membros da base aliada, o governo deverá conseguir mais votos do que o que fora obtido na primeira denúncia.

Contudo, há um downside que começa a ser considerado caso o nível de ausências cresça excessivamente. “Diante do cenário adverso, é possível que a oposição busque a obstrução da votação. Isto traz um desafio ao Planalto, visto que a abstenção de aliados o ajudará, mas será preciso mobilizar número suficiente de deputados para que haja quórum efetivo e a denúncia seja votada, evitando que o governo continue sob pressão”, escreveu Oliveira. Algumas lideranças da oposição já sinalizaram neste sentido.

A ‘cara’ da nova base

A votação desta quarta-feira também deve confirmar um movimento já visto no parlamento, de reacomodação de uma base governista. Levando-se em consideração os fatores de risco apresentados, espera-se que partidos que pressionam por uma agenda mais liberal na economia, a chamada “velha oposição” (PSDB, DEM, PPS), amplifiquem o movimento de afastamento de Michel Temer. Com isso, crescerá a dependência do governo em partidos do chamado “centrão”, como PSC, PR, PP, PRB, PSD e o próprio PMDB, e a tendência é que o peso da agenda conservadora de costumes aumente, junramente com o papel de políticas públicas mais afetas ao agronegócio e à segurança pública.

Em contraste, as expectativas de Vítor Oliveira com a retomada de uma agenda econômica são baixas. “Com o Governo limitado em sua capacidade de dominar a agenda legislativa e o fim do processo de reforma política, há mais espaço para a aprovação de propostas que atendam a grupos de interesse específicos e com temas que ficam, costumeiramente, à margem da agenda prioritária. Também é de se esperar que os parlamentares da Maioria optem por pautas com maior visibilidade e apelo eleitoral positivo”, concluiu o diretor da Pulso Público em relatório a clientes. Na prática, sai Previdência, entra maioridade penal.

(com Agência Câmara)