Zerando o jogo

Os 3 sinais que Temer quis passar com a demissão surpreendente do diretor-geral da PF

Segundo aponta a coluna Painel, da Folha, presidente matou três coelhos com uma só cajadada em uma tentativa de "zerar o jogo"

SÃO PAULO – A troca no comando da Polícia Federal, feita pelo novo ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, pegou muitos de surpresa, inclusive o demitido Fernando Segovia, que será substituído por Rogério Galloro no cargo de diretor-geral da corporação. Ex-diretor executivo da PF, Galloro é o atual secretário nacional de Segurança Pública.

Contudo, de acordo com jornais, as discussões sobre a troca no comando da Polícia Federal já aconteciam faz algum tempo e, conforme aponta a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, a mudança fez com que o presidente Michel Temer “matasse três coelhos com uma só cajadada”: i) livrou-se de um diretor que levou crises ao Palácio do Planalto; ii) sinalizou que a pasta recém-criada, da Segurança Pública, não é um “ministério de faz de conta” e iii) fez um gesto para pacificar a corporação.

A troca no comando é uma nova demonstração de que Temer agora aposta todas as suas fichas na segurança como força motriz do governo e foi uma tentativa de sinalizar à Polícia Federal de que não haverá interferência no órgão. Assim, sob o comando de Jungmann, a PF ficará blindada. 

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Desde o início do mês, quando concedeu uma entrevista a Agência Reuters afirmando que, no inquérito em que Temer e outros acusados são investigados pela PF, os “indícios são muito frágeis”, sugerindo que o inquérito “poderia até concluir que não houve crime”, Segovia vinha sofrendo críticas e sendo alvo de questionamentos.

Nesta semana, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso uma medida judicial para que Segovia se abstivesse de “qualquer ato de ingerência sobre a persecução penal em curso”.

Na semana passada, Fernando Segovia disse ao ministro Barroso, que conduz o inquérito sobre Temer no STF, que não pretendeu “interferir, antecipar conclusões ou induzir o arquivamento” do inquérito sobre o presidente Michel Temer. Ao ministro, Segovia ressaltou que suas declarações foram “distorcidas e mal interpretadas”, que não teve intenção de ameaçar com sanções o delegado responsável pelo caso e também se comprometeu a não dar mais declarações sobre a investigação.

Com a fala de Segovia à agência, o presidente, que esperava estancar a sangria no momento em que a operação se aproximava dele, percebeu que as declarações do diretor da PF que pareciam, a princípio, em defesa de Temer começavam a provocar o efeito contrário. Além disso, as falas produziram um ambiente de hostilidade e provocaram reações enérgicas na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República e no STF e o governo passou a ver ameaça de insurgência dos agentes da PF que cuidam do principal inquérito que envolve Temer, suspeito de favorecer empresas que atuam no porto de Santos, destaca a Folha. Assim, o rigor poderia ser ainda maior para o julgamento de Temer no caso. 

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Desta forma, a mudança teve o “timing” certo para ocorrer na esteira da criação do ministério da Segurança Pública, que ficará responsável pela PF. O substituto de Segovia, Rogério Galloro, era braço direito do ex-diretor da PF Leandro Daiello e era o favorito para chefiar a corporação em novembro passado. Seu nome era defendido pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, que, segundo relatos do Estadão, comemorou a troca.  Jungmann sofreu muita pressão para manter Segovia, vinda daqueles que mais trabalharam no passado pela nomeação dele, mas a influência teve o efeito de segurar o anúncio apenas por algumas horas. 

A nomeação de Galloro é considerada uma retomada do estilo de Daiello, que comandou a PF por mais de seis anos, em uma tentativa do governo de “zerar o jogo”.