Operação da PF aprofunda cerco a Bolsonaro e coloca aliados em ‘encruzilhada’ antes de eleições

Investigações sobre o ex-presidente e aproximação de Lula com governadores da oposição testam polarização que chegou ao ápice em 2022

Marcos Mortari | Fábio Matos

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A operação Tempus Veritatis, deflagrada nesta quinta-feira (8) pela Polícia Federal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu entorno, tem potencial de testar o nível de adesão ao chamado “bolsonarismo” no atual contexto político e coloca possíveis lideranças da oposição diante de uma “encruzilhada” às vésperas das eleições municipais.

É o que avaliam cientistas políticos consultados pelo InfoMoney. Para eles, a combinação do cerco maior das investigações contra Bolsonaro (inelegível até 2030) e o movimento de aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de governadores de oposição traz um fato novo que poderá testar o ambiente de polarização que chegou ao ápice na disputa pelo Palácio do Planalto em 2022.

“Há um bode na sala importante que é o tamanho da operação e a proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Tudo aponta para um fechamento de cerco muito próximo a ele. Isso coloca em xeque o capital político amealhado nos últimos anos”, afirma o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper.

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Para ele, será fundamental observar como a classe política se organizará diante dos novos acontecimentos, sobretudo aquelas lideranças mais envolvidas nas disputas pelas prefeituras em outubro. Embora a corrida às urnas esteja marcada apenas para daqui a 8 meses, obrigações impostas pelo calendário eleitoral já colocam o mundo político diante de decisões importantes. Vale lembrar que em 6 de abril termina o prazo para que aqueles que desejam disputar cargos já estejam filiados às legendas pelas quais desejam concorrer.

“Uma operação desse tamanho faz com que muita gente comece a pensar novamente se vai de fato se colocar ao lado do bolsonarismo”, diz. É o caso do Partido Liberal, que hoje também viu seu presidente, Valdemar Costa Neto, preso por porte ilegal de arma, sigla em que o especialista vê chance para uma correção de rumos. “O que conhecemos é que legendas como essa, que não são propriamente ideológicas e estão muito mais atrás de recursos, acabam sendo muito mais elásticas com relação à ideologia e muito mais pragmáticas com relação à sua sobrevivência”, explica.

O quadro também deverá afetar diretamente as escolhas de candidatos. “Será que [o prefeito de São Paulo] Ricardo Nunes (MDB) vai continuar flertando com o bolsonarismo como estava? Será que o PL terá força nas eleições do Rio como teria com [o deputado] Alexandre Ramagem? Todos esses jogos importantes nas capitais nas eleições municipais vão ser afetados se isso continuar se desdobrando − e deve continuar”, diz o especialista.

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Apesar de indicativos de que um cenário pós-Bolsonaro pode começar a se desenhar no horizonte, no qual novas lideranças do campo conservador disputariam o espólio político do ex-presidente, analistas ouvidos pela reportagem do InfoMoney ainda são céticos quanto à possibilidade de superação do quadro de polarização cristalizada do país.

“Acho que não voltaremos a esse padrão tão cedo. Primeiro pelo tipo de oposição que temos hoje. O PSDB não era um partido extremista. Era possível manter relações normais entre oposição e governo. Hoje isso se tornou muito mais complicado”, compara Cláudio Couto, cientista político e professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).

Para o analista político Carlos Eduardo Borenstein, da consultoria Arko Advice, a operação da PF deve aumentar o desgaste de Bolsonaro, mas também tem o potencial de aprofundar a polarização consolidada nas últimas eleições gerais. “O episódio fortalece a narrativa de defesa da democracia do governo. Ao mesmo tempo, também dá força à polarização, já que o bolsonarismo insistirá na narrativa de perseguição política”, aposta.

Lula tenta isolar Bolsonaro

Para Couto, a recente movimentação de Lula em direção a alguns dos principais governadores de oposição ao Executivo federal – como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Cláudio Castro (PL-RJ) e Romeu Zema (Novo-MG) – é tanto uma estratégia política do líder petista de isolar seu adversário quanto uma tentativa natural de reacomodação institucional.

Nesta quinta-feira (8), Lula esteve em Minas Gerais e participou do lançamento de um pacote de investimentos no estado, ao lado de Zema e vários ministros do atual governo. Aliado de Bolsonaro e especulado como potencial candidato ao Planalto nas eleições de 2026, o governador de Minas recebeu o petista de forma cordial. Os dois conversaram durante quase toda a cerimônia e fizeram acenos mútuos.

No início da semana, o petista foi ao Rio de Janeiro, onde visitou redutos bolsonaristas, ao lado do governador Cláudio Castro, também aliado do ex-presidente. Na semana passada, em São Paulo, Lula até brincou com o governador Tarcísio durante o anúncio de parceria na construção de um túnel que ligará as cidades de Santos e Guarujá, no litoral paulista. O episódio caiu mal nos círculos bolsonaristas.

“Primeiro, é uma tentativa de normalizar as relações institucionais. Tivemos um governo anterior que não pode ser classificado como normal, exatamente por causa dessas relações tumultuadas que tinha com outros atores institucionais, não só governadores de estado, como também com o Poder Judiciário e até mesmo com outros países”, observa Couto. 

Segundo o cientista político, “ao fazer o normal, Lula isola Bolsonaro” e, por tabela, se fortalece. “Como a expectativa dos bolsonaristas é a de que a relação seja sempre de alinhamento incondicional a Bolsonaro e de hostilidade a Lula e ao PT, o atual presidente vai estabelecendo algumas fissuras na base bolsonarista. Com isso, ele consegue matar dois coelhos com um tiro só”, avalia. 

“Esse movimento do Lula enfraquece o Bolsonaro, que fica em uma situação complicada. Ele não pode sair atacando todos os seus aliados pelo fato de que eles conversam com o Lula. E não vão deixar de conversar”, diz o professor da FGV. “Os governadores têm de ter uma relação institucional com o governo federal. Não podem se furtar a isso”.

“Lula tem interesse nesse diálogo para reforçar a narrativa de que seu governo conversa com quem pensa diferente e que isso faz parte da democracia. E os governadores, mesmo com a reação negativa do bolsonarismo, também passam a ter interesse nesse diálogo – principalmente em função do desgaste de Bolsonaro”, concorda Borenstein.

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Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.