Análise

O jogo duplo de Rodrigo Maia para permanecer no poder depois das eleições

Ao mesmo tempo em que joga para o Palácio do Planalto, presidente da Câmara acena para o centrão, de olho em apoio

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SÃO PAULO – A insatisfação do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com os esforços da cúpula peemedebista em evitar o ganho de musculatura de seu partido com a filiação de dissidentes do PSB ganhou destaque no noticiário político da última semana. Com o início da tramitação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer na casa legislativa, o parlamentar ganha ainda maior importância no xadrez de Brasília e merece atenção dos governistas. Embora exista a possibilidade de dificuldades pontuais ao Palácio do Planalto, o cenário mais provável é que a peça tramite sem truncamentos e seja arquivada pelos deputados. Contudo, as mais recentes movimentações de Rodrigo Maia dão alguns sinais sobre o que se espera para o futuro na política.

“Vimos o presidente da Câmara fazendo um pouco desse movimento [de geração de ruídos], questionando as ‘facadas’ que ele disse ter tomado nas costas do PMDB e do Palácio do Planalto. Mas, nas mesmas declarações, ele também disse que não era para misturar, uma coisa era a questão partidária e outra era a denúncia. Hoje, o clima é muito mais favorável ao presidente Temer”, observou o analista político Erich Decat, durante o programa Conexão Brasília da última sexta-feira, na InfoMoneyTV. Ele explica que, mesmo com os sinais de revolta, o deputado na verdade opera um jogo duplo, com vistas a um futuro mais distante.

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Na avaliação do especialista, quando se pensa na possibilidade de retaliações de Rodrigo Maia ao governo, também é preciso lembrar da importância do Planalto para o posto que ele ocupa hoje. “O Palácio do Planalto operou para fazer Rodrigo Maia presidente da Câmara. Às vezes o vemos um pouco pendular. Esse pêndulo é uma questão estratégica, porque ele já está olhando para 2019”, explicou. Para Decat, a estratégia do parlamentar é voltar ao comando da casa legislativa depois das eleições. “Ao mesmo tempo em que ele joga para o Palácio, ele também joga para a Câmara e para o centrão. Quando vemos algumas declarações meio truncadas, meio dúbias dele, pode ter certeza que a maioria dos líderes do centrão está com o mesmo discurso. É o Rodrigo Maia batendo e assoprando, garantindo um apoio do Palácio, mas ao mesmo tempo olhando para a casa que futuramente dará suporte a ele”.

Para Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, depois da derrubada da primeira denúncia contra Temer no plenário da Câmara e do afastamento de qualquer articulação em torno do nome de Maia, houve uma mudança no ordenamento das peças do xadrez político. “A percepção é que, de fato, há pouco espaço para a construção de uma alternativa. Maia tem, ao mesmo tempo, um papel partidário, como líder importante do DEM — partido que olha a crise da polarização entre PT e PSDB especialmente do ponto de vista dos tucanos para tentar retomar um papel de protagonismo ou pelo menos de um peso relativo maior na política nacional –, e um papel institucional de conduzir os trabalhos. Esses sinais mistos têm um pouco a ver com esse duplo papel. O debate agora do mandato e toda essa desavença, por incrível que pareça, para mim tem efeito maior na eleição de 2018”, observou também durante o último programa Conexão Brasília.

“Neste momento, há um vazio ou potencial vazio no centro. Na centro-esquerda, o PT tem um problema jurídico, mas, na centro-direita — espaço que o PSDB foi quase monopolista nas competições presidenciais –, há uma percepção de vazio. Está todo mundo testando diferentes fórmulas. Daí a importância de que esse processo não gere tanto desgaste entre os partidos da base, porque a coordenação vai ficando mais difícil. Quem vai ficar com a vice de um eventual cabeça de chapa? Quem vai ficar com a presidência da Câmara depois? É isso tudo que aos poucos vai sendo organizado. Por isso que é melhor que não se tenha excesso de retórica, um movimento um pouco mais grosseiro que poderia prejudicar toda essa coordenação partidária”, complementou Cortez.

Em meio à perda de forças dos tucanos, torna-se inevitável a disputa entre PMDB e DEM por novos espaços. A estratégia do partido de Maia é se apresentar como a sigla com o DNA das reformas estruturais para a economia. O movimento incomoda peemedebistas, que enxergam salto alto do oponente. A estratégia do PMDB em mudar o nome da sigla para o antigo MDB tem o propósito de caminhar em um sentido similar, tentando angariar simpatia do eleitorado conservador, mas liberal na economia.

* O programa Conexão Brasília vai ao ar às sextas-feiras, a partir das 14h45 (horário de Brasília)