Entrevista

O investidor perdeu a confiança e o povo, a esperança, diz presidente da Eternit

Élio Martins afirma que haverá uma "ressaca muito grande" no setor de construção civil quando as obras da Copa e das Olimpíadas acabarem

(SÃO PAULO) – Élio Martins, presidente da Eternit, a maior fabricante de telhas do Brasil, não vê um futuro auspicioso para o setor de construção no Brasil. Competitividade baixa da indústria, desemprego começando a reverter a trajetória de baixa, carga tributária elevada, investimentos em compasso de espera até a eleição e demora nas concessões de infraestrutura estão entre os fatores que devem inibir o crescimento econômico nos próximos três a quatro anos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista ao InfoMoney:

MANIFESTAÇÕES

Primeiro perdemos uma coisa importante que foi a confiança do investidor estrangeiro devido a alguns episódios recentes. Agora estamos perdendo uma coisa fundamental para qualquer país que é a esperança da população. Esses movimentos de rua são uma demonstração de perda da esperança.

CONSTRUÇÃO

Vamos ver uma ressaca muito grande no setor de construção quando terminar as obras da Copa e das Olimpíadas. Veja o número de pessoas que estão empregadas devido a esses eventos. O que eles vão fazer quando isso acabar se o governo não iniciar um processo forte de investimentos em infraestrutura? O PIB da construção deve crescer menos que o PIB neste ano. Será a primeira vez em uma década que isso vai acontecer. Até o primeiro semestre, o setor de construção pesada continuou crescendo, o que mostra a influência das obras da Copa. Já a construção de residências está em queda.

DESEMPREGO

Minha preocupação não é com a falta de crédito para a compra de materiais de construção. Até há linhas de crédito interessantes. Mas o dinheiro fica caro quando não se sabe se o tomador vai conseguir devolver o dinheiro ao banco. E isso acontece quando não se sabe se o emprego das pessoas será mantido. O próprio banco já sacou isso e exige garantias de pagamento ao tomador. A geração de emprego com carteira assinada está no menor nível dos últimos cinco anos. Começa assim, empregando pouco. Depois para de empregar e então começa a demitir. O que gera emprego é manufatura , construção civil e prestação de serviços. Não vejo nada que possa acontecer no Brasil nos próximos três anos que possa reverter a desaceleração do emprego.

ELEIÇÃO E REFORMAS

A situação da economia não é coisa para resolver amanhã. Não vamos ter uma mudança significativa nos próximos três ou quatro anos. Não vai acontecer nada em termos de mudanças até as eleições porque não dá tempo. Depois das eleições, vamos ver que governo vai assumir – se é o PT que vai continuar ou se outro partido chegará ao poder – e qual o plano do novo governo. Enquanto não houver investimentos em infraestrutura para diminuir o custo operacional das empresas, reduzir a carga tributária, fazer uma reforma fiscal, fazer uma reforma política, investir em educação, investir em saúde, investir em segurança, a gente não começa uma mudança neste país. Se começarem agora, os investimentos em infraestrutura levarão três a quatro anos para ficarem prontos e poderem ser utilizados pela população.

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COMPETITIVIDADE

A preocupação das empresas de manufatura não é exportar, é proteger o mercado interno. Muitas empresas já se renderam, pararam a produção e estão importando produtos da China. Não tem competitividade aqui. Esqueça as exportações, que vão ser apenas de commodities de mineração e de agronegócio. O que é industrializado no Brasil perde competitividade. Entre os produtos de manufatura e tecnologia, os únicos que conseguem exportar são os fabricantes de automóveis porque há incentivos e acordos comerciais. Mas é o brasileiro quem paga a conta para termos essa indústria automobilística, já que são as pessoas que assumem a carga tributária dos carros para que algumas unidades possam ser exportados sem impostos.

INFLAÇÃO

Não vejo risco de inflação no Brasil. Não vai ter escassez de oferta porque não tem excesso de demanda. Se não tem pressão de consumo nem excesso de oferta de crédito, não vai ter inflação. Estou preocupado é com o consumo. Vai ser complicado estimular o consumo com a população desempregada. Quem está desempregado não consome, só guarda o que tem para comer.