O cenário com Meirelles fora do BC é de continuidade ou chance aos heterodoxos?

Presidente da instituição pode deixar o cargo para concorrer ao governo de Goiás em 2010; analistas descartam loucuras

SÃO PAULO – Especulações em relação à troca de nomes do alto escalão do Governo por motivos eleitorais são naturais, mas costumam passar mais distantes do Banco Central. No entanto, seu presidente Henrique Meirelles é alvo de rumores sobre uma candidatura ao governo estadual de Goiás em 2010. Mais que uma sucessão, estão em jogo a confiança no país e sua maturidade institucional.

Os rumores são antigos, mas uma nova centelha foi disparada no mercado com reportagem publicada pela revista Carta Capital, de 21 de janeiro, que afirma ser certa a saída de Meirelles após seis anos no comando do BC. Até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva haveria sido informado sobre a decisão.

Para ocupar o Banco Central, Meirelles nem mesmo assumiu o cargo de deputado federal, para o qual foi eleito pelo oposicionista PSDB em 2002, com a maior votação do estado de Goiás. Para concorrer em 2010, no entanto, seria obrigado a deixar o comando do banco e cumprir um período de quarentena, o que anteciparia a saída para este ano.

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Em alguns meses, será a pessoa que mais tempo permaneceu no comando da autoridade monetária brasileira – marco de resistência em um país de instabilidades e pressões sobre os formuladores de política econômica. Ainda mais em um momento de crise, a saída de Meirelles pode causar apreensão entre investidores.

Fogo cruzado

Para seus defensores, Meirelles sintetiza o compromisso com políticas econômicas prudentes e voltadas ao mercado – relação direta com a estabilidade vivenciada pelo País há alguns anos, especialmente sobre inflação. Já seus detratores consideram-no excessivamente conservador – principal responsável pelo desperdício de mecanismos monetários para a promoção do crescimento.

Qualquer que seja a interpretação, a conduta de Meirelles foi fundamental para a superação da enorme desconfiança nutrida pelo mercado em relação ao atual presidente, em função de seu passado radical sobre questões como o pagamento da dívida e os gastos públicos – um capítulo quase esquecido, de tão distante e absurdo que aparenta ser na metade de seu segundo mandato.

Fato e norma

“A figura do presidente é muito importante, especialmente no Brasil. Existe uma independência de fato, mas não por lei. Isso ainda joga um peso importante nas costas do presidente do Banco Central”, afirma Alessandra Ribeiro, analista da Tendências Consultoria.

Em sua opinião, caso o sucessor de Meirelles não tenha um perfil semelhante, haveria grande desconfiança por parte do mercado em relação ao estabelecimento da taxa de juro visando a estabilidade dos preços – entendida como a função primordial da instituição. O cenário mais provável projetado pela consultoria, todavia, é composto por um processo sucessório menos traumático.

Meirelles sairá, mas a transição deve acontecer sem grandes choques. Ainda assim, a analista revela o que poderia ocorrer numa situação distinta – “a primeira coisa é a aversão ao risco. Veríamos uma reação negativa com os preços de ações para baixo, venda de papéis de renda fixa, a subida de taxas futuras [de juro] e isto tudo batendo no câmbio, com a desvalorização do real”.

Um presidente de perfil distinto também exigiria uma troca completa da diretoria, dada a incompatibilidade de linhas mais heterodoxas com pessoas como Mário Mesquita e Alexandre Tombini – também especulados como possíveis sucessores de Meirelles.

Marco institucional

Primeira agência de classificação de risco a elevar a nota da dívida brasileira ao grau de investimento, a Standard & Poor’s destaca que “na avaliação do rating do Brasil, foi muito importante esse compromisso tão forte com políticas pragmáticas”, afirma Sebastian Briozzo, diretor de rating soberano da S&P.

Briozzo não atribui peso tão grande ao presidente do Banco Central. “As políticas não dependem de uma só pessoa”, disse, embora reconheça que o papel do Banco Central nos últimos anos, sob a presidência do Meirelles, foi muito importante para a consolidação da estabilidade monetária no Brasil.

Ressaltando que a agência não assume uma troca no comando do BC em suas análises, o analista pontua que “uma mudança seria um desafio, mas nós pensamos que o grau de desenvolvimento das instituições permitirá uma transição boa, no caso de uma saída”.

Se haverá uma reavaliação somente por causa da alteração da diretoria? “Não necessariamente”, responde Sebastian Briozzo. “O importante são as políticas implantadas. Temos países que são heterodoxos com grau de investimento e ortodoxos que estão abaixo. O importante para nós é que sejam consistentes”.