Análise

O antipetismo chegou à esquerda (e pode ameaçar o protagonismo do PT nos próximos anos)

Apesar de sair das eleições com a maior bancada da Câmara, PT corre risco de começar 2019 alijado de superbloco de oposição ao governo Bolsonaro

SÃO PAULO – Mais de dois anos após o impeachment de Dilma Rousseff, muitos petistas imaginavam que o ápice do antipetismo tinha ficado para trás e que o futuro reservaria momentos mais favoráveis ao partido após um inverno rigoroso. A corrida eleitoral se aproximava e acreditava-se que o poder de transferência de votos do ex-presidente Lula, mesmo preso, e eventual resistência ao nome de Jair Bolsonaro levariam Fernando Haddad ao Palácio do Planalto em 2019. Tiro n’água.

Além do desejo por renovação frente à percepção de esgotamento das estruturas e práticas tradicionais da política na ótica de boa parte dos eleitores, o antipetismo arraigado mostrou-se novamente presente em uma das eleições presidenciais mais imprevisíveis desde a redemocratização. Bolsonaro venceu a disputa com 57.797.847 votos, vantagem de cerca de 10,7 milhões sobre Haddad, saindo com um capital político crescente, também em função da eleição de muitos deputados, senadores e governadores.

Mesmo com a derrota, o PT deve manter posição relevante na cena política nacional, mas certamente sentirá os efeitos da realidade apresentada pelas urnas. Ao contrário de outras siglas, o partido sobreviveu com maior fôlego. Na próxima legislatura, se a fotografia da eleição for mantida, será a maior bancada da Câmara, com 56 deputados federais eleitos. São 4 congressistas a mais que o PSL. O partido de Bolsonaro, porém, espera crescer em até 15 deputados até a posse dos novos nomes. Ainda assim, o PT certamente será o maior partido da oposição.

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Apesar de contar com o maior volume de deputados eleitos para a próxima legislatura, o PT não chega a 11% do total de assentos da casa legislativa. Isso mostra que o grau de fragmentação partidária do parlamento brasileiro não confere hegemonia à maior bancada. Longe disso. No campo da oposição, a situação do PT é muito mais complexa do que sugere a fotografia da “nova Câmara” em um primeiro momento. Isso porque agora o partido terá de enfrentar um inédito antipetismo dentro da própria esquerda, onde outras lideranças buscam ocupar novos espaços.

Ao contrário da hegemonia de anos anteriores, agora os petistas terão que disputar protagonismo, mesmo tendo conquistado o mesmo número de assentos na casa legislativa que a soma de outras cinco siglas de seu espectro político: PDT (28), PSOL (10), PCdoB (9), Pros (8) e Rede (1).

PARTIDOELEITOS EM 2018 CONFIGURAÇÃO ATUALELEITOS EM 2014
PT566168
PSB322634
PDT291920
PROS81111
PCdoB91010
PSOL1065
REDE12

Fonte: Câmara dos Deputados

No Senado, a situação petista é de maior vulnerabilidade. O partido terá 6 assentos, o que corresponde a 7,4% do total da casa. São 7 senadores a menos do que tinha eleito quatro anos atrás. O número corresponde a apenas 1 cadeira a mais que a Rede e 2 que o PDT. Os resultados do partido nestas eleições, embora não tão negativos como os apresentados por outras siglas associadas à política tradicional, reforçam um horizonte distinto em comparação com anos anteriores.

PARTIDOBANCADA EM 2019CONFIGURAÇÃO ATUALBANCADA EM 2014
PT6913
PSB243
PDT424
PROS111
PCdoB12
PSOL1
REDE51

Fonte: Senado Federal

O PT agora deverá se preparar para enfrentar uma nova realidade. Dentro de um quadro marcado pelo antipetismo em parcela expressiva da sociedade, sentimento que ajudou a definir o resultado das urnas na disputa presidencial, o partido também enfrenta resistências dentro da própria esquerda. Neste contexto, o desafio seria recuperar prestígio e protagonismo e evitar a ascensão de outros quadros neste grupo.

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Nos dias que sucederam as eleições, lideranças de centro-esquerda começaram a organizar uma frente parlamentar sem o PT na Câmara dos Deputados. O bloco contaria com PDT, PSB e PCdoB, que juntos elegeram 69 deputados para a próxima legislatura. Agora, lideranças petistas tentam lutar contra o isolamento e reverter a tendência de formação da frente opositora sem sua participação. Não será tarefa fácil.

Alguns dos obstáculos seriam mágoas das últimas eleições, a postura de hegemonia mantida pelo PT e a pauta de “Lula Livre”, que não necessariamente interessa aos outros partidos da esquerda. Uma das maiores resistências está na figura de Ciro Gomes, candidato derrotado na última eleição presidencial e que prepara terreno para uma candidatura em 2022. O pedetista diz que Lula e o PT trabalharam contra sua candidatura e alianças que tentou fazer ao longo da disputa, o que minou seu desempenho.

“Ciro Gomes começou a bater em Lula desde meados do primeiro semestre quando percebeu a relevância de um eleitor esgotado com a presença da esquerda nas páginas policiais e com o risco de uma renovação desta situação”, observou Leopoldo Vieira, analista político da Idealpolitik.

“A quantidade de votos que Bolsonaro obteve no primeiro turno já apontava que parte do eleitorado de Ciro, Marina, Alckmin, Alvaro Dias e Henrique Meirelles se descolou quando o PSDB disseminou, no horário político, que Fernando Haddad venceria o capitão no segundo turno. Nesta etapa, ficou explícito que surgiu um eleitorado antipetista de centro-esquerda, oriundo das candidaturas do PDT, da Rede, tucana, mas também presentes nas massas que já compunham de partida com o capitão e que se movimentaram para ele após Lula ter sido barrado”, complementou o especialista.

Para Vieira, no confronto com Bolsonaro, o PT não entendeu que precisava apresentar um enfrentamento à altura da narrativa que o associava à imagem de corrupto perante a opinião pública. O eco do movimento #EleNão teria ajudado o partido, mas não foi suficiente. Segundo o analista, se antes era lugar comum dizer que Lula era maior que o PT, não é nenhum exagero hoje dizer que o #EleNão é maior que o lulismo. O PT conseguiu levar Haddad ao segundo turno, mas com o custo de ter despertado o antipetismo nas lideranças de centro-esquerda.

“O voto antipetista de centro-esquerda é de atenção importante para o novo cenário que se abre com o governo Bolsonaro e a situação de Lula e do PT”, apontou Vieira. Conforme observa o analista, os demais partidos da esquerda já manifestam desconforto em tom mais elevado.

“O PSB não queria aliança com o PT, mas com Ciro ou Alckmin. Aceitou a neutralidade quando lhe apresentaram a conta vantajosa de não se posicionar e receber apoios em vários estados. O PC do B se ressente de ter sido convencido à aliança com o PT para passar a cláusula de barreira. Não conseguiu. Credita a Lula o erro de se manter na disputa sabendo que seria interditado. O PDT de ter sofrido o blitzkrieg que acabou com seu tempo de TV e com palanques mais robustos. O pior é que todos entenderam que Lula se envolvera diretamente nas jogadas. Ademais, os três partidos parecem convictos de que Ciro poderia ter ganhado no segundo turno arrastando para si o antipetismo que achava Bolsonaro radical em excesso”, disse.

“O novo campo tem condições de surfar no antipetismo que foi de Bolsonaro com o nariz tampado e disputar este novo bloco que se referencia nos rumos da gestão eleita e não mais nas crises do lulismo e no confronto do passado PT x PSDB. Possíveis denúncias contra o governo na questão ética podem permitir colher dividendos da agenda anticorrupção do governo”, concluiu Vieira.

Do outro lado, o horizonte para o PT ainda parece bastante complexo, com baixos indícios de soltura de Lula no curto prazo e riscos de avanços de investigações sobre ações de seus governo, tendo em vista os novos quadros em ascensão após os resultados das urnas.

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