Michelle divide bolsonarismo e pressiona Flávio no voto feminino e evangélico

Desde o início do ano, pesquisas internas vêm orientando Flávio a uma estratégia voltada para mulheres, que representam mais da metade do eleitorado

Agência O Globo

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A crise aberta pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao tornar público o desentendimento com o enteado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) expôs divisões no bolsonarismo e atrapalhou o movimento de busca pelo eleitorado feminino, de acordo com integrantes da pré-campanha do senador à Presidência. Reservadamente, aliados avaliam que o episódio do vídeo, publicado anteontem, atingiu um dos principais pilares do projeto eleitoral do parlamentar, que vem buscando ampliar sua presença além do núcleo mais fiel de apoio.

Desde o início do ano, pesquisas internas vêm orientando Flávio a uma estratégia voltada para mulheres, que representam mais da metade do eleitorado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 41% das intenções de voto nesse segmento, contra 24% de Flávio (essa diferença é de 39% a 29% no quadro geral).

É nesse ponto que Michelle é vista como um ativo eleitoral difícil de substituir. Além de falar com mais facilidade ao eleitorado feminino, a ex-primeira-dama comanda o PL Mulher desde 2023 e percorreu o país estruturando diretórios, identificando novas lideranças e fortalecendo a presença da sigla entre mulheres conservadoras.

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Um aliado resume a preocupação dizendo que o episódio atinge justamente um eleitorado que Flávio “não pode perder de jeito nenhum”. Na avaliação desse interlocutor, Michelle leva consigo uma parcela importante de mulheres evangélicas. O segmento religioso também preocupa o senador. Na semana passada, o pastor Robson Rodovalho afirmou em entrevista à newsletter Jogo Político, do GLOBO, que “o evangélico perdeu a confiança em Flávio por não falar a verdade sobre Vorcaro”, se referindo aos áudios em que o pré-candidato pede dinheiro ao dono do Master para a cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No vídeo de 27 minutos, Michelle disse ter sido maltratada por Flávio, reafirma sua discordância sobre o apoio do PL a Ciro Gomes no Ceará e destacou seu trabalho com as mulheres do partido. No cenário da gravação, ela expõe objetos religiosos e mensagens bíblicas, reforçando sua relação com o segmento evangélico.

Surpresa e irritação

A fala de Michelle dizendo ter sido “maltratada” gerou especial preocupação. Poucas horas depois, Flávio publicou nas redes sociais um vídeo em que afirmou nunca ter desrespeitado uma mulher.

— Ele (Flávio) foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — disse Michelle na gravação.

Flávio abre seu texto de resposta lembrando que é “casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na vida”. Poucos minutos depois, sua mulher, Fernanda, saiu em defesa do marido, “um pai dedicado às duas filhas”.

O abalo provocado pelo vídeo deixou o senador irritado, segundo aliados, que afirmam que ele foi surpreendido. Ele disse a interlocutores que jamais havia sido desrespeitoso dessa forma, em público. Os vídeos foram publicados pouco antes do jogo da seleção na Copa do Mundo e, enquanto o Brasil construía a vitória por 3 a 0, o senador dividia a atenção entre telefonemas e mensagens com assessores e pessoas próximas da pré-campanha. O grupo discutia o impacto do episódio e a melhor estratégia.

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Apesar do incômodo, o senador evitou elevar a temperatura da crise com Michelle e passou boa parte da noite ouvindo avaliações sobre a melhor forma de reagir. A pessoas próximas, disse que trataria do caso diretamente com o pai. A ex-primeira-dama tem dito a aliados que o marido tinha conhecimento do teor do vídeo.

As conversas resultaram em uma tentativa de conter a crise. Flávio pediu desculpas e convidou a madrasta para participar de um evento de campanha voltado às mulheres. A ex-primeira-dama não tinha até a noite de ontem indicado a aliados se iria, mas publicou nas redes sociais que “não tem raiva de ninguém” e que “não há briga nem competição”.

Além da mobilização de Michelle, a campanha vinha construindo outros gestos voltados ao eleitorado feminino. Flávio passou a defender publicamente o nome de uma mulher para a chapa como candidata a vice e intensificou discursos sobre maior participação feminina em cargos de comando.

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Agora, aliados admitem que a discussão sobre a vice ganhou novo peso. Embora a definição estivesse prevista apenas para uma etapa posterior da campanha, interlocutores afirmam que a repercussão do vídeo reforçou a necessidade de acelerar essa escolha. Aliados de Michelle avaliam ainda que o vídeo pressiona Flávio a conversar e abrir espaço a ela na campanha.

Apoios e críticas

O vídeo também expôs reações distintas no bolsonarismo. Nas redes sociais, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro repostou a fala da mulher de Flávio, que descreveu o marido como um “homem leve, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às duas filhas”. Já outros aliados do senador, como o deputado cassado Alexandre Ramagem e o deputado Mario Frias (PL-SP) republicaram o comunicado postado por Flávio no qual ele nega ter desrespeitado a ex-primeira-dama.

Quem também replicou o pronunciamento de Flávio foi o presidente do PL no Ceará, o deputado André Fernandes, que está em lado oposto ao de Michelle na disputa no estado que fez a crise eclodir.

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Já Michelle teve o apoio de aliadas como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que afirmou que a crise tomou essa proporção porque Flávio e os irmãos não fizeram um gesto em direção a Michelle.

— Ela foi verdadeira, firme, serena e esclareceu tudo. Esperou meses tudo ser resolvido e não deram nenhum passo em direção a ela. Mas acho que agora é possível um diálogo — afirmou.

A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), também tomou o lado de Michelle no embate. “Você brilha! E isso incomoda muita gente! Não é fácil ser mulher na política! Você não está sozinha! Somos todas Michelle”, escreveu nas redes.

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Parlamentares da esquerda comentaram a reação de Michelle, entre elas a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A petista acionou a Justiça contra o então deputado Jair Bolsonaro por, em 2014, ter dito que não a estupraria porque ela “não merece”.

“Por coerência reafirmo que nenhuma mulher deve ser menosprezada”, escreveu.

O presidente do do PL, Valdemar Costa Neto, disse ontem que vai atuar para tentar superar a crise. Em nota, o dirigente partidário declarou que vai procurar os dois para conversar pessoalmente.

“Assim que falar pessoalmente com os dois irei me manifestar publicamente, mas já adianto que admiro a coragem dos que defendem aquilo que acreditam. O PL segue focado em retirar esse governo que está aí e devolver o Brasil aos brasileiros, e nada será capaz de nos tirar desse foco”, afirmou em nota.