Mapa de Risco: governo entra em modo “fechado para balanço” após derrotas no Senado

Planalto evita confronto imediato com Davi Alcolumbre enquanto avalia futuro de nova indicação à Corte, avaliam especialistas

Marina Verenicz

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A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal produziu mais do que uma derrota simbólica para o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O episódio abriu um período de incerteza dentro do Planalto, expôs falhas de articulação política e travou, ao menos temporariamente, qualquer decisão sobre uma nova indicação à Corte.

“Foi uma derrota muito dura”, resumiu a analista de política da XP, Bianca Lima.

Segundo ela, o governo até trabalhava com um cenário apertado no Senado, mas contava com a aprovação do então advogado-geral da União. O placar final, porém, surpreendeu o entorno presidencial.

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“O governo sabia das dificuldades, mas não contava com uma derrota faltando sete votos”, afirmou.

Messias precisava de 41 votos no plenário do Senado para ser aprovado, mas terminou a votação com 34 apoios.

Após o resultado, alas do PT defenderam uma reação mais dura contra o Centrão e aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Entre as ideias discutidas nos bastidores estavam mudanças em cargos e revisão de acordos políticos.

No entanto, a avaliação predominante no entorno de Lula passou a ser de contenção de danos. “O governo está fechado para balanço”, disse Bianca.

A orientação do presidente, segundo aliados, é evitar decisões precipitadas enquanto o impacto político da derrota ainda está sendo absorvido.

A estratégia repete um padrão já conhecido do petista em momentos de crise: Lula costuma evitar respostas imediatas em cenários de alta tensão política. “Lula não toma decisão com 40 graus de febre”.

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Nova indicação divide governo

Internamente, o governo ainda não chegou a um consenso sobre o que fazer com a vaga no Supremo.

Uma ala do PT defende que Lula indique rapidamente um novo nome para evitar a percepção de recuo institucional. O argumento é que abrir mão da prerrogativa presidencial significaria consolidar a derrota política imposta pelo Senado.

Outra corrente, porém, avalia que insistir agora poderia aprofundar o desgaste com Alcolumbre e ampliar a fragilidade do governo no Congresso.

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“Não seria estratégico abrir um novo embate com o presidente do Senado”, avaliou Bianca Lima.

A preocupação ganhou força porque o governo ainda depende do Senado para aprovar projetos considerados prioritários neste primeiro semestre, como medidas ligadas ao setor de combustíveis, ao Desenrola e à PEC do fim da escala 6×1.

Senado pode empurrar decisão para 2027

Nos bastidores de Brasília, cresce a percepção de que o Senado pode tentar postergar qualquer nova indicação para depois da eleição presidencial de 2026.

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“Existe uma avaliação de que o Senado vai guardar essa vaga para o próximo presidente”, afirmou Bianca.

A leitura reflete o ambiente político criado após a rejeição inédita de um indicado ao STF, algo que não ocorria havia mais de um século.

Com a sucessão presidencial já influenciando decisões em Brasília, parte dos parlamentares passou a enxergar a vaga como peça estratégica no rearranjo de forças entre Executivo, Congresso e Judiciário.

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Viagem aos EUA ajudou a esfriar crise

A ida de Lula aos Estados Unidos para encontro com Donald Trump também acabou funcionando como uma pausa política para o governo reorganizar sua estratégia.

Segundo aliados, a viagem ajudou o presidente a ganhar tempo e evitar que a crise evoluísse para uma ruptura aberta com o Senado.

Agora, o Planalto tenta recalibrar sua articulação enquanto monitora o ambiente político para decidir se insistirá em uma nova indicação ao Supremo ainda neste ano ou se aceitará conviver com a vaga aberta em meio à antecipação da disputa de 2026.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.