Mapa de Risco: encontro com Trump ajudou Flávio a mudar foco, mas não resolve desafio

Visita à Casa Branca deslocou o foco do caso Master para a segurança pública, mas campanha ainda enfrenta obstáculos para recuperar terreno perdido

Marina Verenicz

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Após semanas dominadas pelos desdobramentos envolvendo o vazamento de áudios entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, a viagem do pré-candidato do PL aos Estados Unidos mudou a discussão em torno da agenda da candidatura do senador.

Durante o Mapa de Risco, programa de política do Infomoney, a conclusão de analistas foi de que o principal ganho da visita à Casa Branca não foi necessariamente a fotografia ao lado do presidente americano Donald Trump, mas a possibilidade de retirar temporariamente o foco de um tema que vinha causando desgastes à campanha e reposicioná-la em um terreno mais favorável ao bolsonarismo.

“A principal discussão que se deu a partir da visita do Flávio ao Trump foi mais na direção de uma mudança de agenda, de fato, em relação ao que se pautava sobre o Flávio no passado”, afirmou Paulo Gama, head de análise política da XP.

Segundo ele, a viagem permitiu à campanha introduzir um novo tema no debate público justamente quando as discussões sobre os áudios envolvendo Daniel Vorcaro continuavam produzindo desgaste para o senador.

O movimento ocorreu em um momento em que as pesquisas eleitorais passaram a registrar uma significativa queda de Flávio nas intenções de voto e aumento da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em cenários de segundo turno.

Segurança pública volta ao centro

A principal habilidade da campanha, segundo os participantes do programa, foi utilizar a visita para recolocar a segurança pública no centro da conversa política.

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Na saída do encontro com Trump, Flávio concentrou suas declarações em temas ligados ao combate ao crime organizado, PCC e Comando Vermelho, deixando em segundo plano discussões econômicas ou diplomáticas.

Na avaliação de Paulo Gama, a mudança foi estratégica porque deslocou o debate de um tema defensivo para um assuno historicamente associado ao bolsonarismo.

“A última relação que ele [Flávio Bolsonaro] tinha tido, ou que o grupo tinha tido com o Trump, tinha sido uma relação ligada à discussão sobre tarifas, que foi usada pelo Lula como uma escada para alavancar a popularidade. Agora ele traz um tema em que a esquerda e o Lula não se saem bem junto ao eleitorado.”

O resultado foi uma tentativa clara de reconstruir a narrativa da campanha a partir de uma pauta considerada mais confortável.

“Flávio coloca esse tema na mesa, vira a página em relação ao que estava sendo discutido antes e consegue trazer essa agenda como um ponto positivo para ele.”  

A foto mobiliza, mas tem limites

A cientista política Graziella Testa avalia que o encontro possui potencial para mobilizar a militância bolsonarista, mas alerta que seu alcance eleitoral pode ser mais limitado do que aparenta.

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“Mobilizar a militância não é pouca coisa, porque mobilizar a militância não é só pregar para convertido. É também buscar o voto indeciso por meio da própria militância e isso pode ter impacto positivo para ele sim.”

Ao mesmo tempo, ela destaca que a campanha escolheu enfatizar um tema que produz respostas diferentes entre grupos do eleitorado.

“Um dos grandes flancos da esquerda, do Lula e dos governos do PT em geral, é o tema da segurança pública. A gente sabe que é um dos temas principais que mobilizam a direita”, afirmou.

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Contudo, segundo a professora da UFPR, há um risco político embutido nessa estratégia.

“Ainda que exista um setor da população muito preocupado com segurança pública, focar muito essa análise na ampliação do direito à posse de armas e outras questões voltadas ao cidadão comum ter uma arma repercute bem nos homens, mas repercute negativamente nas mulheres, mesmo nas mulheres de direita, nas mulheres conservadoras e nas mulheres evangélicas.”

O desafio continua

Para Graziella, a questão central não é saber se a foto com Trump agradou a base bolsonarista, mas se ela ajuda Flávio a avançar sobre eleitores que ainda não escolheram um candidato.

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A professora lembra que o senador vinha tentando construir uma imagem menos associada ao núcleo duro do bolsonarismo e mais próxima do centro político.

“Foi uma tentativa que Flávio fez no primeiro momento, até quando retira o Bolsonaro do seu nome de campanha, uma tentativa de denotar uma aproximação do centro”, afirmou.

Na visão dela, a escolha de enfatizar segurança pública durante a visita aos Estados Unidos pode ter fortalecido a identificação com a base tradicional, mas também corre o risco de dificultar essa expansão.

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“Eu acho que ele se distancia um pouco da imagem que ele tentou se aproximar. Então o que eu destaco é a disposição à conversa de cada um deles e o que isso gera de previsibilidade sobre um eventual governo.”

No curto prazo, a viagem cumpriu o objetivo de alterar a agenda política. Resta saber se a mudança de assunto será suficiente para recuperar os eleitores perdidos desde o início da crise do Banco Master.