Mapa de Risco: Custo de vida vira eixo central da eleição — mais do que PIB e emprego

Com desemprego controlado e inflação dentro da meta, o que define a percepção do eleitor é o custo de vida, diz a CEO do Instituto Ideia

Marina Verenicz

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A melhora dos indicadores macroeconômicos não tem sido suficiente para alterar o humor do eleitor, e esse descompasso começa a se consolidar como um dos principais fatores da eleição de 2026.

Com desemprego controlado e inflação dentro da meta, o que define a percepção do eleitor é outra variável: o custo de vida. A avaliação foi feita pela CEO do Instituto Ideia, Sila Schumann, no Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney.

“O eleitor não está conseguindo entender as entregas econômicas do governo”, afirmou Schumann.

Para uma parcela relevante da população, a sensação é de que o dinheiro não acompanha as despesas, mesmo em um cenário de crescimento econômico. “O dinheiro entra, mas ele já está comprometido e já sai”, resumiu.

Endividamento molda percepção

O endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 80,4% em março, o maior patamar da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Com parte da população mais endividada do que no ano anterior, a capacidade de consumo foi diretamente afetada. Mais do que uma estatística, o endividamento se transforma em um elemento concreto do cotidiano.

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O orçamento doméstico passa a ser pressionado por despesas recorrentes, como crédito rotativo, parcelamentos e contas básicas, reduzindo a margem para consumo e investimento pessoal.

Na prática, segundo a analista, isso altera a forma como o eleitor avalia o governo. Ainda que indicadores agregados apontem melhora, a experiência individual segue marcada por restrições financeiras.

O voto passa pelo bolso

Entre os grupos menos alinhados politicamente, o peso do custo de vida é ainda maior, o que intensifica essa dinâmica.

“Para esses eleitores, isso sobe para mais de 60%”, destacou Schumann, ao se referir à importância do tema na decisão de voto.

A leitura é de que a eleição tende a ser definida menos por debates ideológicos e mais por uma pergunta simples: “A grande pergunta do eleitor é sempre essa: minha vida melhorou ou não melhorou?”, afirmou.

Esse tipo de avaliação, mais direta, tende a reduzir o peso de discussões técnicas sobre economia e ampliar a relevância de fatores perceptíveis no dia a dia, segundo a analista.

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Desafio para o governo

Para o governo, o desafio passa a ser traduzir crescimento econômico em percepção concreta de que a vida do brasileiro melhorou durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entanto, a avaliação interna, segundo relatos de bastidores trazidos pela analista de política da XP, Bárbara Baião, é de que há uma dificuldade em fazer com que as entregas econômicas sejam percebidas pelo eleitor.

A estratégia, portanto, tende a se concentrar em medidas com impacto direto na renda disponível e no consumo, como programas de renegociação de dívidas e ampliação de crédito.

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Ainda assim, a pressão sobre o orçamento das famílias, somada à sensação de perda de poder de compra, cria um ambiente em que a melhora dos indicadores pode não ser suficiente para reverter a avaliação negativa.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.