Mapa de Risco: “Cadê a picanha?” — frustração com renda vira termômetro da eleição

Promessa simbólica expõe desconexão entre indicadores econômicos e a percepção do eleitor, dizem especialistas

Marina Verenicz

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A eleição de 2026 começa a ser moldada por uma pergunta simples: a vida melhorou ou não melhorou? Mais do que os indicadores econômicos, é essa percepção que tem guiado o humor do eleitor e, consequentemente, a dinâmica da disputa.

No “Mapa de Risco”, programa de política do InfoMoney, a CEO do Instituto Ideia, Sila Schumann, resumiu esse sentimento com uma frase que tem se repetido nos grupos de pesquisa: “Eu votei no Lula, eu gosto do Lula, mas por que eu tenho que dar mais um mandato para o Lula? O que ele vai fazer com mais um mandato?”, disse.

A dúvida não surge necessariamente de uma rejeição direta, mas de uma frustração com o resultado percebido no cotidiano.

Esse sentimento aparece de forma ainda mais clara quando se traduz em símbolos. “Cadê a picanha? Eu não vi a picanha”, afirma Schumann, ao descrever uma das falas mais recorrentes entre eleitores ouvidos nas pesquisas qualitativas.

A referência, que marcou a campanha de 2022, passou a funcionar como um indicador direto de expectativa não atendida.

Entre o dado e a percepção

O ponto central, segundo a análise, é a desconexão entre o que mostram os indicadores macroeconômicos e o que o eleitor sente na prática. Ainda que variáveis como emprego e crescimento tenham apresentado melhora, isso não se traduz automaticamente em sensação de ganho de renda.

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“A grande pergunta do eleitor é sempre essa: minha vida melhorou ou não melhorou”, afirmou Schumann. “E, nesse caso, o que a gente sente do eleitor é ele dizendo: ‘não, minha vida não melhorou’.”

Ela detalha que o problema não está apenas na renda, mas na forma como ela é consumida pelas despesas do dia a dia. “Mesmo que eu tenha um emprego, eu estou sentindo que o meu carrinho não fica cheio, que a minha geladeira não fica cheia. E pior: você tem a questão da inadimplência, que é uma questão de gastos recorrentes. O dinheiro entra, mas ele já está comprometido e já sai, e não sobra nada para o consumo.”

Essa percepção ajuda a explicar por que o custo de vida aparece como variável dominante na decisão de voto, superando debates mais técnicos sobre economia.

Motor do voto

A insatisfação não se limita ao presente, mas também envolve expectativas frustradas. “Eu acreditei quando o Lula falava da picanha, e cadê a picanha?”, relatou Schumann.

O exemplo, embora simbólico, traduz um sentimento mais amplo de que as promessas de campanha não se materializaram da forma esperada.

Para a analista, esse tipo de frustração tende a pesar especialmente entre os eleitores menos ideológicos — justamente aqueles que costumam decidir eleições mais apertadas. “É aquela pessoa que está ali correndo atrás e não conseguindo fechar o fim do mês”, disse.

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Nesse grupo, a decisão de voto tende a ser mais pragmática e diretamente vinculada à experiência econômica individual.

O bolso no centro da disputa

Historicamente, eleições brasileiras acabam convergindo para o impacto financeiro no bolso do eleitor. Mesmo com ruídos ideológicos e temas paralelos, o fator determinante costuma ser o efeito direto na vida do eleitor.

“As campanhas, em geral, vão para o bolso: melhorou ou não melhorou. Se não é reeleição, ele vai votar em quem acredita que vai fazer a vida melhorar”, afirmou Schumann.

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Esse padrão se repete em 2026, porém com um agravante: o aumento do endividamento e a sensação de perda de poder de compra tornam o julgamento mais crítico.

O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.