Lula ou Flávio: como a eleição brasileira pode redesenhar a América Latina

Continente vive ascensão de programas políticas de direita e modula política externa à Casa Branca

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O segundo turno de 25 de outubro, a ser disputado entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), vai definir se o Brasil segue com o principal governo de esquerda da América Latina ou se caminhará para aderir ao bloco de direita que passou a governar a maior parte da América do Sul.

Flávio chega à disputa na frente, com 47% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45% do petista. Na pesquisa de segundo turno do Datafolha, o senador segue na liderança por 5 pontos de diferença para o petista.

Quatro anos atrás, o cenário era o inverso. Em 2022, Chile, Colômbia, Argentina, Bolívia e Peru tinham presidente de esquerda ou centro-esquerda. Desde então, as urnas levaram Javier Milei à Casa Rosada e José Antonio Kast ao Palácio de La Moneda, e encerraram na Bolívia quase duas décadas de governos do MAS (Movimento ao Socialismo).

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O calendário eleitoral de 2026 aprofundou a virada. Na Colômbia, o candidato de direita Abelardo de la Espriella derrotou o senador de esquerda Iván Cepeda e assumiu, em agosto, o lugar de Gustavo Petro, primeiro presidente de esqueda da história do país. No Peru, Keiko Fujimori venceu Roberto Sánchez, enquanto a Costa Rica elegeu a conservadora Laura Fernández.

Na Venezuela, o chavismo perdeu Nicolás Maduro, capturado por forças americanas em janeiro, mas segue no poder. Delcy Rodríguez comanda um governo  interino supervisionado por Washington e condiciona as eleições, ainda sem data, ao fim das sanções. Na América do Sul, o principal aliado que restou ao governo Lula é o Uruguai de Yamandú Orsi. Para além disso, há o apoio do México de Claudia Sheinbaum, na América do Norte.

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A despeito da considerável vitória da sigla La Libertad Avanza, de Javier Milei, derrotando o peronismo em um quadro de alta inflação na Argentina, a pobreza tem crescido no país vizinho.

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Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), 32,3% da população urbana estava abaixo da linha de pobreza no primeiro semestre de 2026, alta de 4,1 pontos percentuais em seis meses. São  9,7 milhões de pessoas nos 31 aglomerados pesquisados, e a indigência passou de 6,3% para 7,5%.

O instituto atribui a piora à perda de poder de compra: a renda per capita das famílias subiu 11,5% no semestre, enquanto a cesta básica alimentar encareceu 21,4%. 

No Chile, Kast fez da segurança pública o eixo do governo. Em 5 de agosto, o novo mandatário anunciou em cadeia nacional a Agenda contra o Crime Organizado e o Terrorismo, com cerca de trinta projetos de lei. As propostas tornam crime o simples pertencimento a uma organização criminosa, ampliam a retenção e a expulsão de imigrantes irregulares, reforçam a fronteira com valas e drones e criam um regime prisional especial para chefes do narcotráfico. 

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O corolário Trump

A guinada regional encontrou respaldo em Washington. A Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca em dezembro de 2025 fixa como meta “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” e cria o que chama de “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, formulada em 1823 contra a interferência europeia nas Américas.

O documento prevê deslocar recursos militares para o continente e impedir que potências de fora do hemisfério posicionem forças na região.

O texto também promete “recompensar e encorajar” governos, partidos e movimentos da região alinhados às prioridades americanas, entre elas o combate ao narcotráfico e à imigração irregular. A doutrina se traduziu nos ataques americanos a embarcações no Caribe, que Washington acusa de transportar drogas, e na operação que capturou Maduro.

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No Brasil, a política entrou na campanha pelo comércio. Lula atribui o tarifaço imposto por Trump em 2025 à atuação da família Bolsonaro em Washington e chamou Flávio de “vendedor da pátria”. O candidato do PL responsabiliza a o PT, que classifica como “hostil aos Estados Unidos”.