Indústria, comércio e classe trabalhadora querem cortes mais intensos da Selic

Representantes dos setores produtivos acreditam que há espaço para redução mais intensa, para estimular o mercado interno

SÃO PAULO – Representantes de todos os setores produtivos acreditam que o corte de 0,5 ponto percentual da Selic, a taxa básica de juro, foi tímido. Para eles, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) deveria promover uma redução mais intensa, para blindar a economia brasileira de possíveis efeitos da crise internacional.

Indústria, comércio e os representantes do mercado financeiro e dos trabalhadores concordam que ainda há espaço para mais redução da taxa, o que promoveria uma grande economia para os cofres públicos e estimularia o mercado interno.

Indústria acredita que ainda há espaço para novos cortes
Ao avaliar a redução da taxa Selic, a CNI (Confederação Nacional da Indústria), um dos principais representantes da indústria, afirmou que a queda está de acordo com o desaquecimento da atividade econômica no Brasil. A Confederação aponta que os juros no País ainda são um dos maiores do mundo, o que dá espaço para novas reduções.

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Em sua visão, o Banco Central deve ter cuidado com a liquidez e o custo do dinheiro no País, por conta das incertezas internacionais, que cada vez mais refletem em restrição ao crédito. “A CNI considera ser necessário dar continuidade ao ciclo de redução dos juros, de modo a atenuar os efeitos da baixa atividade mundial na economia brasileira e evitar novo movimento de valorização cambial”, finaliza.

Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) concorda com a avaliação da CNI ao considerar que ainda há espaço para novos cortes. Em sua visão, a crise financeira europeia e suas consequencias globais permitem uma queda mais acentuada do juros no Brasil, levando-os a patamares mais próximos do praticado no mundo.

“Há espaço para reduzir a Selic sem comprometer as metas de inflação. O momento é grave e o governo não pode se omitir”, afirmou Skaf. O presidente avalia que não há pressão inflacionária no Brasil, e juros menores podem impulsionar a produção, a geração de empregos e o desenvolvimento do País. Skaf lembrou nos 13 primeiros dias de 2012, os juros já consumiram mais de R$ 12 bilhões do governo.

Comércio: a redução já era esperada
Para os representantes do comércio no Brasil, a redução da Selic já era algo esperado e deverá contribuir para evitar uma desaceleração mais forte da economia brasileira. No entanto, assim como os representantes da indústria, consideram necessárias novas reduções, “para garantir um crescimento do PIB superior a 3% em 2012”, disse o presidente da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Rogério Amato.

A Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) também foi a favor do corte da Selic, concordando que ainda há espaço para novos cortes. “A redução na taxa básica de juros é coerente com o cenário de desaceleração da economia esperado para o primeiro semestre e com a descompressão dos indicadores inflacionários”, disse , Abram Szajman, presidente da Federação.

Sindicato: redução “extremamente tímida”
A Força Sindical mantém a mesma avaliação dos cortes anteriores na Selic. Para eles, a redução 0,5 ponto percentual é “extremamente tímida” e insuficiente para animar o setor produtivo. De acordo com o presidente da Força, Paulo Pereira da Silva, “os tecnocratas do Copom não estão dando ouvidos à sociedade, que pede uma redução acelerada em nome de um maior crescimento econômico”.

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Silva entende que o Copom perdeu uma oportunidade de sinalizar positivamente para o setor positivo, com um corte mais intenso, o que geraria mais emprego e renda. “O mundo passa hoje por uma crise econômica internacional, e o Brasil precisa tomar medidas para não importar essa crise. Nossa meta é fortalecer a luta por mais empregos e produção. Queremos juros baixos, valorização do trabalho e desenvolvimento nacional”, finalizou Silva.

Mercado financeiro: corte insuficiente para reaquecer a economia
A Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro) foi um pouco mais enfática, afirmando que a redução foi insuficiente para reaquecer a economia brasileira e estimular o crescimento do país de forma sustentável com desenvolvimento e distribuição de renda.

Apesar da queda, o Brasil mantém o posto de País com uma das taxas mais altas de juros do mundo e diante da crise na Europa e nos Estados Unidos, a saída seria o fortalecimento do mercado interno, com “corte drástico dos juros e ampliação das políticas públicas”, afirma o presidente da confederação, Carlos Cordeiro.

Para Cordeiro, “a queda de 0,5 ponto na Selic traz uma economia de cerca de R$ 8,5 bilhões na dívida pública, o que é positivo, mas o ganho podia ter sido maior se a redução tivesse sido mais expressiva”. O dirigente sindical considera a Selic “um programa de transferência de renda aos donos de títulos públicos, a chamada bolsa-banqueiro, o que precisa acabar”.