Podcast Rio Bravo

Há um consenso de que o Ensino Médio precisa passar por transformação profunda, diz especialista

Para entender um pouco do que está em jogo e do impacto da reforma do ensino médio, o Podcast Rio Bravo conversou com Anna Penido; confira

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SÃO PAULO – Enquanto um intenso debate ainda ocorre no espaço público, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o texto da medida provisória que trata da reforma no Ensino Médio e encaminhou a pauta para o Senado Federal. Se por um lado, existe um consenso acerca da necessidade de se promover mudanças no sistema educacional brasileiro, por outro, não faltaram críticas à celeridade dada pelo governo às discussões.

É o que expõe Anna Penido, diretora-executiva do Instituto Inspirare, em entrevista ao Podcast Rio Bravo. Na avaliação da entrevistada, a reforma ataca um ponto nevrálgico da educação brasileira, que é o currículo do Ensino Médio. “Repensar o currículo para que ele prepare o jovem contemporâneo para os desafios da vida adulta é fundamental”, analisa. A especialista entende que o engajamento da sociedade é pré-requisito para que as mudanças necessárias da educação aconteçam de acordo com as expectativas.

Muito embora alguns pontos da reforma sejam considerados controversos por uma parcela significativa de educadores e intelectuais, pesquisa recente do Ibope mostra que 79% da população aprovam a reforma. Para entender um pouco do que está em jogo e do impacto da reforma do ensino médio, confira os melhores momentos da entrevista:

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De um lado, atores relacionados diretamente com a educação parecem estar bastante descontentes em relação à reforma do Ensino Médio proposta pela administração Temer em setembro. Ao mesmo tempo, a população mostra-se otimista em relação a isso. Como você avalia esse contraste?
Acho que há uma convergência que é de que o Ensino Médio precisa efetivamente de uma transformação profunda. Não são só os indicadores de desemprenho educacional que mostram o quanto que essa etapa de ensino deixa a desejar, mas a gente está vendo uma série de manifestações dos próprios alunos. Eles estão dizendo que esse modelo de escola, essa proposta educacional que hoje está vigente não atende mais. Você vê pelos índices de evasão escolar o quanto que os alunos vão se desinteressando. Há uma questão da ocupação das escolas, que muitas vezes está centrada no descontentamento dos alunos com as práticas pedagógicas, com a forma como a escola é organizada, com as relações que acontecem dentro do espaço escolar. De fato, há um consenso de que a coisa precisa mudar.

Como mudar e o que precisa mudar é que talvez quem está mais envolvido com a questão tem um olhar um pouco mais crítico. O fato de a reforma ter sido proposta através de uma medida provisória cria um ambiente já de certa animosidade, porque as pessoas querem ser partícipes, querem contribuir com essa reflexão e elas não se sentiram tão contempladas, o que acho muito válido, principalmente porque estamos falando de uma escola que foi concebida no século passado para um perfil de aluno e de sociedade que já não existem mais. É fundamental o envolvimento dos alunos e professores para que a gente de fato possa entender qual é o cerne, o que precisa ser transformado e como essa transformação pode se dar dentro do escopo que a gente tem hoje, da realidade também das escolas, dos educadores que a gente tem hoje na rede pública brasileira.

A reforma atende às necessidades dessa mudança?
A reforma pega num ponto nevrálgico que é o currículo. A gente realmente precisa repensá-lo para que ele faça mais sentido para o jovem contemporâneo, para que ele de fato prepare esse estudante para os desafios da vida adulta é fundamental. Existem milhares de projetos de lei que propõem criação de novas disciplinas e a gente já tem um conjunto bem expressivo de disciplinas que não necessariamente estão conectadas com as demandas contemporâneas. São muitos componentes curriculares trabalhados de forma superficial, porque temos uma escola em tempo parcial, então não conseguimos aprofundar e conectar também com o contexto, com as demandas, com os interesses desses estudantes.

É fundamental que isso aconteça, porém o que a medida provisória propõe é que metade do tempo da carga horária do Ensino Médio seja igual para todo mundo e definida pela base nacional e a outra metade flexível às escolhas dos alunos. Os jovens já precisam experimentar essa ideia de fazer escolhas, de tomar decisões e também porque existem muitos conteúdos que, de fato, eles já sabem que não interessam ao projeto de vida que eles têm pela frente. Só que essa flexibilização precisa ser pensada de uma maneira também mais contemporânea. A ideia de a gente ter caminhos pré-definidos por área do conhecimento…. A flexibilização vai ter que acontecer de uma outra maneira. Não de uma maneira que engesse, mas que permita uma pluralidade de escolha, até porque esses meninos ainda não definiram ao certo qual é a profissão ou qual é o projeto de vida que eles têm pela frente. A flexibilização precisa acontecer de formas diversas, precisa estar respaldada por um trabalho forte de construção com esses jovens do seu projeto de vida para que eles possam escolher aquilo que realmente dialoga com o que eles querem fazer lá na frente, quem eles querem ser lá na frente.

E me parece que essa flexibilização precisa abrir espaço para outros conteúdos que não são esses componentes curriculares tradicionais, que são outros temas, outras competências, outras habilidades que esses alunos querem aprender, nos quais eles querem se desenvolver e não tem espaço na escola para isso. A pesquisa que fizemos recentemente com 132 mil jovens estudantes brasileiros, de 13 a 18 anos, mostrou que a grande maioria deles quer escolher uma parte das disciplinas que vai cursar, acha que a escola precisa definir uma série de outras — que é o que a base vai fazer. Eles querem estudar tecnologia, temas contemporâneos, política, direitos humanos e cidadania, sustentabilidade e meio ambiente… São assuntos que hoje ainda não têm espaço no currículo e esses alunos e a sociedade estão dizendo que são importantes e precisam ser trabalhados. 

Nesse momento em que muitas escolas estão ocupadas e parte desse protesto representa uma não adesão à reforma, você acredita que isso tem a ver com má compreensão em relação aos objetivos dessa transformação?
Uma medida provisória, como instrumento legal, já é difícil de ser compreendido pela população em geral. A leitura daquele documento que foi lançado já não favorece uma compreensão. E eu acho que, como o MEC ainda estava formulando o projeto, algumas respostas não estavam claras ainda e geraram algum tipo de confusão e essas coisas precisam ser melhores esclarecidas. Nada melhor do que chamar as pessoas para o debate para a gente aprofundar a compreensão e até ajustar algumas coisas que ainda não estão tão redondas na proposta inicial.

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Por outro lado, a ocupação das escolas não está ligada necessariamente a este fato. Este é mais um fato. Vamos relembrar que, desde 2013, nós tínhamos jovens saindo às ruas para protestar contra [o atual estado da] educação, entre outros temas. Essa insatisfação já vem sendo expressa de forma muito contundente há três anos e estamos chegando num ponto em que, como nada vem sendo de fato endereçado, a insatisfação vai ficando mais forte e vai se manifestando também de formas mais radicais. O desafio para os gestores públicos é tentar entender como construir canais de comunicação mais efetivos não só com os estudantes, no caso da educação, mas com todos os usuários de serviços públicos de modo geral.