Pressão do PT sobre Galípolo aumenta após fala sobre Campos Neto e Banco Master

Galípolo é chamado de “traidor” por líder petista e expõe tensão entre Planalto e uma gestão que tenta preservar a autonomia do Banco Central

Agência O Globo

Brasília (DF), 27/03/2025 - O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo participa da apresentação do Relatório de Política Monetária, que substitui o Relatório Trimestral de Inflação. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
Brasília (DF), 27/03/2025 - O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo participa da apresentação do Relatório de Política Monetária, que substitui o Relatório Trimestral de Inflação. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, está sob forte pressão política do PT e do entorno de Luiz Inácio Lula da Silva após declarar que as investigações internas do órgão não apontaram “culpa” do seu antecessor no BC, Roberto Campos Neto, no caso do Banco Master. A declaração de Galípolo foi mal digerida no Palácio do Planalto que tenta, como estratégia eleitoral, responsabilizar a gestão de Jair Bolsonaro, que indicou Campos Neto, pelo escândalo.

A seis meses da disputa nas urnas entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), o tom das críticas, nos bastidores e publicamente, escalou e, em alguns casos, já não destoa tanto das reclamações que eram feitas a Campos Neto na época que ele presidia a autoridade monetária. Ao GLOBO, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), chamou o presidente do BC de “traidor”.

No fim do ano passado, preocupados com os efeitos da taxa Selic em 15% sobre os planos de reeleição de Lula, o alto escalão do governo já começou a mostrar descontentamento com Galípolo.

Houve novos atritos este ano com a indicação do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad a Lula para que Guilherme Mello assumisse uma das diretorias vagas do BC. Mas agora a relação chegou ao pior momento, ainda que o presidente da República adote um tom mais ameno, pelo menos publicamente.

Em depoimento à CPI do Crime Organizado, Galípolo afirmou a senadores que não foi encontrada “qualquer culpa” por parte de Campos Neto nas investigações internas do BC sobre o caso Master.

O atual presidente assumiu o órgão em janeiro de 2025 e tem mandato até 2028. Campos Neto ficou no cargo entre 2019 e 2024.

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“Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos (Neto)”, disse.

Integrantes do governo manifestaram nos bastidores irritação com o fato de o presidente do BC não ter apontado responsabilidade de seu antecessor no escândalo do Master. Lula havia debatido com auxiliares a pertinência da ida de Galípolo à CPI e a conclusão foi que valeria a pena se fosse para falar de Campos Neto.

Como estratégia política para se afastar do caso, o Planalto e o PT tinham começado a propagar que o escândalo do Master seria resultado da falta de ação do chefe da autoridade monetária indicado para o cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante o governo Lula, por sua vez, destacam que o BC descobriu as irregularidades, comunicou aos órgãos de investigação, e liquidou a instituição.

Alguns aliados do presidente da República apontam que faltou habilidade política a Galípolo para tratar do tema. Politicamente, o ideal para o Planalto era que o chefe do BC tivesse replicado a “linha do tempo” que mostra o crescimento do Master durante a gestão Campos Neto e o governo Bolsonaro.

Mas, questionado sobre se havia “culpa” de Campos Neto, Galípolo respondeu objetivamente que as investigações não apontam dolo de seu antecessor, o que, para o entorno de Lula, acabou dificultando qualquer questionamento sobre eventual incompetência do ex-presidente do BC.

Oficialmente, porém, será mantido o discurso de que o presidente do BC está cumprindo o papel institucional que lhe cabe. Dentro do Banco Central, a avaliação é de que Galípolo acerta em manter a postura técnica para não ferir a autonomia ou afetar a credibilidade do órgão.

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O líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), escalou o tom das críticas. Segundo Uczai, a postura de Galípolo na CPI foi a gota d’água na relação com o partido e com o governo.

“Traidor. Não traidor de um governo, não de um presidente. O presidente (Lula) indicou, mas traidor do que se definiu em uma nova política. Bolsonaro e Paulo Guedes definiram um presidente do Banco Central numa perspectiva neoliberal monetarista. O presidente Lula foi eleito com política de crescimento econômico”, afirmou.

Uczai disse que não conversou com Lula sobre as declarações de Galípolo, mas avaliou que o presidente “certamente não está contente” com a postura do presidente do BC em relação ao seu antecessor.

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“Não é que Galípolo tinha que mentir sobre o Campos Neto. Mas qualquer cidadão que faz o primeiro período de economia sabe que foi uma gestão temerária em relação ao Banco Master”, afirmou. “Era só falar a verdade. Ele omitiu, quando ele disse que Campos Neto não tem nenhuma responsabilidade sobre o caso Master.”

Antes de Uczai, Galípolo já havia recebido críticas do presidente do PT, Edinho Silva, e do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que disse que o chefe do BC “escolheu blindar” Campos Neto e o acusou de “corporativismo”.

Lula, por sua vez, disse, publicamente apenas que pediu para o presidente do BC mostrar “quem é quem” no caso Master, mas negou que tenha falado para o chefe da autoridade monetária acusar Campos Neto.

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A linha de argumentação do governo para apontar responsabilidade da gestão anterior com o Master e se afastar do escândalo tem como ponto de partida a autorização pelo BC para Vorcaro assumir o controle da instituição, que, na época, ainda se chamava Banco Máxima.

A aprovação aconteceu em outubro de 2019, no início da gestão de Campos Neto na autoridade monetária, depois de meses antes, em fevereiro, ainda com Ilan Goldfajn na presidência do BC, a operação ter sido negada.

Técnicos que trabalharam na análise do negócio, tanto na gestão Ilan quanto na de Campos Neto, afirmam, contudo, que, em fevereiro, Vorcaro e seus sócios não conseguiram comprovar a origem dos recursos que usariam para obter a participação majoritária no banco. Depois, na segunda tentativa e após várias exigências do BC, houve mudanças na estrutura da operação que possibilitaram a aprovação.

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Para Uczai, Campos Neto tem culpa por “omissão”. Ele cita ainda as suspeitas de corrupção contra o ex-diretor do BC Paulo Souza, que esteve à frente da área de Fiscalização nas gestões de Ilan e Campos Neto. O diretor nega irregularidades.

Na CPI, Galípolo considerou que a liquidação do Master, decretada em novembro do ano passado, não tinha como ocorrer antes, porque é necessário seguir um rito, sob pena de graves questionamentos na Justiça. Segundo o presidente do BC, as suspeitas da diretoria de Fiscalização sobre as fraudes nas carteiras de crédito adquiridas pelo BRB começaram em fevereiro de 2025. Ele citou que, em novembro de 2024, foi cobrado do Master, em uma espécie de termo de ajustamento de conduta, que fizesse adequações de liquidez, balanço e governança.

“Ainda em meados de 2025, existia, na opinião pública, um debate de que a rejeição da compra do BRB não deveria ter ocorrido e eu ainda estou respondendo a processos de órgãos de controle se a liquidação não foi feita de forma precipitada. Existe essa dificuldade de cumprir todo rito para estar efetivamente bem protegido para que amanhã não se torne um subsídio para quem quer indenização.”

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