Washington Post revela plano dos EUA para questionar urnas no Brasil; entenda

Segundo jornal, missão de dois altos funcionários do Departamento de Estado ocorreria semanas antes da eleição de 4 de outubro; Itamaraty promete impedir ingerência e Washington confirma a viagem sem detalhar o objetivo

Jonathas Costa

Rovena Rosa/Agência Brasil
Rovena Rosa/Agência Brasil

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O jornal The Washington Post revelou que o governo dos Estados Unidos prepara o envio de dois altos funcionários do Departamento de Estado a Brasília com a missão de lançar suspeitas sobre a transparência e a integridade do sistema de votação eletrônico do Brasil. Sob condição de anonimato, autoridades americanas e brasileiras teriam confirmado que a viagem está prevista para ocorrer poucas semanas antes das eleições presidenciais marcadas para 4 de outubro.

Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente integrariam a delegação. Samson é descrito como um emissário que percorre países para promover pautas conservadoras e ampliar vínculos com grupos de direita, o que em ocasiões anteriores gerou atritos com diplomatas e políticos tradicionais.

Diplomatas brasileiros afirmaram ao jornal que tomaram conhecimento do plano e que agirão para impedir qualquer tentativa de interferência no processo interno. Uma das autoridades classificou a iniciativa como um “estratagema completamente incompatível com a democracia brasileira” e disse que o governo atuará para “proteger o sistema de votação”.

Ainda conforme o The Washington Post, a suspeita de integrantes do governo brasileiro é de que os enviados procurem críticos das urnas eletrônicas e elaborem um relatório com o objetivo de deslegitimar o modelo. Em resposta ao jornal, o Departamento de Estado confirmou a viagem a Brasília, mas não comentou o propósito da missão nem eventuais preocupações com a integridade eleitoral do país.

(Foto: Reprodução / The Washington Post)

O jornal aponta que o movimento agrava um ambiente já tenso entre Washington e Brasília, marcado por divergências sobre os limites da liberdade de expressão, tarifas comerciais recentes impostas pelos EUA a produtos brasileiros e o processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Um alto funcionário do próprio Departamento de Estado descreveu ao The Washington Post a reorientação da política externa: “Antigamente, mobilizávamos nosso poder em situações de risco para defender a democracia. Agora, enviamos nomeados políticos para desacreditar o sistema eleitoral de outro país”.

O posicionamento atual contrasta com a atuação dos EUA nas eleições brasileiras de 2022, quando a administração americana respaldou esforços para sustentar a estabilidade democrática e apoiou avaliações de inteligência que atestaram ausência de fraudes no sistema brasileiro.

Segurança das urnas e narrativa de desconfiança

Apesar das investidas políticas, a confiabilidade do sistema de votação do Brasil segue amplamente reconhecida, de acordo com os relatos reunidos pelo The Washington Post. Benoni Belli, embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos, afirmou ao jornal que todas as missões de observação desde 2018 atestaram que o sistema é seguro, confiável e capaz de produzir resultados legítimos. Na mesma linha, o especialista em eleições Salvador Romero classificou o modelo brasileiro como “sem dúvida um dos mais robustos da América Latina”.

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Mesmo assim, a narrativa de suspeita permanece entre setores da oposição. Segundo o diário, o pré-candidato Flávio Bolsonaro voltou a repetir alegações de vulnerabilidade das urnas, já refutadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. O influenciador Paulo Figueiredo disse ao The Washington Post que tem mantido reuniões na Casa Branca e que o sistema eleitoral brasileiro se tornou tema de grande interesse para a atual gestão americana.

A reportagem do The Washington Post contextualiza a iniciativa em uma estratégia mais ampla do governo Trump de apoiar candidatos alinhados a pautas conservadoras na região. O jornal cita apoio e ajuda financeira ao presidente Javier Milei na Argentina, suporte a um presidente conservador eleito em Honduras e uma recente aliança com Abelardo de la Espriella na Colômbia. No caso colombiano, quando o ex-presidente de esquerda Gustavo Petro questionou resultados, o Departamento de Estado divulgou nota condenando tentativas de desacreditar o processo eleitoral.